Quem o diz é Ana Margarida Cavaleiro, psicóloga da Associação Alzheimer Portugal, que esteve no Faial na passada sexta-feira para a última tertúlia da Unisénior do presente ano escolar, desta feita subordinada ao tema “Doença de Alzheimer – Sintomatologia e Intervenção”, que decorreu no auditório da Biblioteca Pública. Antes da tertúlia, que decorreu na Biblioteca Pública da Horta, Ana Margarida esteve à conversa com o Tribuna das Ilhas sobre a importância de se desmistificarem alguns mitos relacionados com a demência associada a esta doença.
Como pode ler-se no sítio da Internet da Associação Alzheimer Portugal, “a Doença de Alzheimer é um tipo de demência que provoca uma deterioração global, progressiva e irreversível de diversas funções cognitivas (memória, atenção, concentração, linguagem, pensamento, entre outras). Esta deterioração tem como consequências alterações no comportamento, na personalidade e na capacidade funcional da pessoa, dificultando a realização das suas actividades de vida diária”. Ora, uma maior dificuldade nas actividades do dia-a-dia não é sinónimo, como refere Ana Margarida, da impossibilidade do doente com demência as realizar: “é preciso reduzir o estigma; a ideia pré-concebida que muitas pessoas têm de que ter demência é um rótulo que indica que acabou a vida”, explica.
A psicóloga garante que “devemos continuar a investir nas pessoas com demência, para estimulá-las, porque elas ainda conseguem fazer muita coisa”. Ir ao cinema, sair para jantar e fazer uma série de outras coisas é algo que a demência enquanto patologia não deve impedir.
Aos participantes nesta tertúlia, Ana Margarida veio dizer que “não devemos desistir da pessoa com demência”, e desmistificar a ideia que existe de que estes pacientes deixam de perceber as coisas que os rodeiam: “a pessoa com demência percebe o que se passa à sua volta, apenas existem momentos em que não tem tanta lucidez”, explica. Para a psicóloga, o facto das pessoas que estão à volta do doente não terem noção disso faz com que, por vezes e ainda que de forma involuntária, firam a sua dignidade. Nestas situações é normal que o paciente agrida essas pessoas. Ana garante que isso não significa que o paciente é agressivo, mas sim que se sentiu ofendido com alguma atitude e, uma vez que não tem já a capacidade de auto-censura, que lhe permitiria conter-se, partiu para a agressão. “A pessoa com demência tem os mesmos direitos que nós, de não ser humilhada, de ser respeitada…”, lembra.
A psicóloga alerta para o facto de nem toda a demência remeter para o Alzheimer. “A Doença de Alzheimer surge normalmente em pessoas a partir dos 65 anos, e com a idade vai aumentando a probabilidade de a desenvolvermos. Há, no entanto, outros tipos de demência, que surgem em faixas etárias mais jovens, como a demência de corpos de Lewy ou a demência frontotemporal”, explica.
Segundo Ana Margarida, há alguns sinais a que as pessoas devem estar atentas no que à demência diz respeito. Esquecermo-nos de onde guardamos as coisas não é grave, segundo diz, se formos capazes de ter o pensamento retrospectivo de reconstituir os nossos passos para nos lembrarmos de onde as colocámos. “As perdas de memória, não conseguir dizer palavras que estava habituada a dizer, não conseguir nomear os objectos, tudo isto são sinais que, ao tornarem-se recorrentes, devem levar-nos a procurar um diagnóstico”, refere.
A psicóloga garante que “a pessoa com demência é a primeira a aperceber-se de que algo não está bem, até porque começa a disfarçar”. “Por exemplo, quando não consegue nomear os objectos, substitui o nome por um sinónimo. Em vez de dizer telemóvel diz telefone. Se se esquece do recado que ouviu diz que estava a fazer outra coisa ao mesmo tempo e não tomou atenção”, exemplifica.
Quando o diagnóstico confirma a demência, a psicóloga garante que “é preciso fazer medicação”, mas, para além disso, há que dar atenção à “estimulação cognitiva” como forma de travar evolução da demência e prolongar a qualidade de vida. “Esta pode ser feita com um psicólogo ou um terapeuta ocupacional mas também nas actividades do dia-a-dia. É preciso é que a pessoa não deixe de fazer as coisas. Até as coisas mais simples, como dobrar panos, ajudam. Tudo o que meta os neurónios a funcionar é útil e estimulante”, refere.