Nasceu em 1990 na cidade da Horta e dez anos depois inscreveu-se na Federação Nacional de Vela, pelo Clube Naval da Horta (CNH), na classe de “Optimist”.
Do seu palmarés constam vários títulos locais, regionais e nacionais. Nos últimos anos mudou-se para Lisboa e é de lá que tem partido para participar em provas europeias e internacionais.
Tribuna das Ilhas esteve à conversa com este velejador que nos falou dos seus objectivos para o futuro.

Como é que se iniciou na vela?
A minha ingressão no mundo da vela deu-se de uma forma muito natural. Nascido e criado na cidade da Horta, fui parar ao CNH de uma forma muito espontânea, como qualquer outro miúdo que gosta do mar e pelo simples facto do Clube ter um papel importante nas camadas jovens da nossa ilha.
Para além disso, a minha família tem uma enorme ligação ao mar, sendo a referência principal o meu avô materno, José Medeiros, pela sua história. Por isso vejo a minha iniciação neste mundo quase como algo que estava previamente destinado.
O que o fascina nesta modalidade?
O mais fascinante numa modalidade como a vela, sendo esta difícil de praticar, é o facto das nossas competências estratégicas, intelectuais ou tácticas terem um papel preponderante entre o ganhar e o perder, isto numa vertente competitiva.
O que me fascina nesta modalidade é o sucesso e a forma como o alcançamos. A vela é um desporto cujos factores externos ao barco e a nós (por exemplo o vento, as nuvens, as marés, a geografia do local, etc) têm um papel importantíssimo no desfecho final de um campeonato.
A melhor sensação é quando nos conseguimos adaptar de uma forma eficaz a todos esses factores e as coisas correm bem, mas não só. A vela obriga-nos a cumprir regras e a manter valores e formas de estar na vida diferentes e únicas o que nos faz crescer rapidamente, fazendo com que sejamos pessoas mais maduras e responsáveis. Outro aspecto muito positivo da vela é a possibilidade de conhecer o mundo e navegar em sítios extremamente interessantes, dotados de grandes belezas; natureza, culturas e pessoas.
Sendo atleta do CNH que imagem/opinião tem da vela que se pratica no Faial?
Apesar de estar distante sempre acompanhei a actividade do CNH, que foi a minha grande escola.
Faço parte da vida activa do clube, mas normalmente em provas nacionais e internacionais.
No entanto, sempre que vou ao Faial dou o meu contributo às camadas jovens, tentando transmitir os meus conhecimentos.
Nestes últimos dois anos vejo uma evolução positiva na qualidade dos nossos velejadores, o que me deixa satisfeito e com expectativas para que o futuro nos traga mais jovens para este circuito.
Curiosamente, neste momento vejo vela ligeira muito mais forte que a vela de cruzeiro. Estes são bons indicadores e é sinal de que as pessoas à frente dos destinos do clube já perceberam a importância dos jovens na vela da nossa ilha, sendo estes a estrutura e o futuro de um clube.
Apesar de haver tudo isto, é claro que há limitações, o que é normal pelo facto de estarmos isolados, principalmente a falta de maior número de participações em provas nacionais, para que se desenvolvam maiores competências.
Mas o caminho faz-se caminhando e não tenho dúvidas do potencial dos jovens da nossa terra e do Clube, apenas é preciso ser paciente e continuar a trabalhar, apostando sempre nas bases e numa boa aprendizagem.
Louvo o esforço que o CNH tem feito na promoção da vela adaptada, a possibilidade que tem dado a pessoas com limitações físicas praticarem vela. Cada vez mais a vela tem de ser de todos e para todos, acabando com o preconceito elitista que existe neste mundo.

Como foi a transição para Lisboa?
A transição para Lisboa começou por uma decisão séria e familiar, que ocorreu no ano 2007, tinha eu 17 anos, depois de ter participado num estacional nacional de jovens talentos organizado pela FPV.
A proposta feita aos meus pais foi “quero continuar a estudar no ITN para poder evoluir na vela”. Não foi fácil e tinha que me integrar sem ser marginalizado e então a opção passou por federar-me na ANL. Aí integrado, tinha as mesmas possibilidades que os meus colegas de evoluir e partilhar o mesmo treinador. Treinávamos aos fins-de-semana, mas quando tinha disponibilidade e em vésperas de provas treinava muitas vezes sozinho. Trabalhei muito mas aos poucos comecei a destacar-me dos laseristas nacionais e a motivar-me cada vez mais.
Tive a sorte de ter bons treinadores que me estimaram muito e me apoiaram porque desde cedo perceberam qual era o meu objectivo.
Há dois anos entrei na Vela Olímpica, evolui consideravelmente e adaptei-me ao rigor de um atleta Olímpico de uma forma natural.
Sempre tive a capacidade de me rodear de pessoas cujo os valores, objectivos e forma de pensar fossem muito próximos dos meus e a partir daí as coisas surgiram de uma maneira mais fácil.
Acredito que na maior parte das vezes tenho conseguido escolher o caminho certo.
Neste momento quem é o seu treinador e como são orientados os seus treinos?
Desde Setembro que o meu treinador é o Luís Rocha, com um vasto curriculum, reunindo condições para ser um dos melhores treinadores portugueses de vela, e do Mundo.
Felizmente o Governo dos Açores tem uma política para o desporto que me proporcionou a contratação deste excelente treinador, fundamental para a estabilidade deste projecto. O Luís é uma pessoa muito conceituada e com um trabalho reconhecido no mundo do desporto. É o treinador de vela português com mais títulos mundiais e europeus alcançados e é o único que possui uma medalha nos Jogos Olímpicos como treinador, para além de já ter sido director técnico da Federação Portuguesa de Vela bem como coordenador do Projecto Olímpico. É uma pessoa extremamente profissional e com grandes valores no desporto, logo a adaptação foi naturalmente fácil. Trabalhamos muito diariamente com o objectivo de sermos melhores a cada treino e a cada campeonato.
Os meus treinos têm o rigor de qualquer atleta que queira alcançar o sucesso no Olimpismo. Trabalhamos muito em treinos bi-diários, chegando mesmo várias vezes a tri-diários, dependente do objectivo de cada treino. Resumindo, treinamos no mar cerca de três horas e meia (independentemente da força do vento), seguindo-se um trabalho físico de ginásio, acabando com um trabalho de recuperação (por exemplo pedalando em estrada cerca de uma hora, no mínimo).
A época é planeada em conjunto com os técnicos do Centro de Alto Rendimento. Estes fazem o planeamento do treino de ginásio tendo em conta aquilo que pretendemos para um determinado campeonato e época. Normalmente durante o período competitivo atingimos dois picos de forma e esses acontecem sempre nas provas mais importantes do calendário.
Porquê e como decidiu seguir uma carreira na vela?
A carreira na Vela foi o resultado de toda a minha evolução, para além de estudar (estou no 1º ano do Curso “Gestão Portuária” na Escola Superior Nautica Infante D. Henrique).
Sou competitivo e quero atingir o sucesso nesta modalidade, acredito que isso é possível e por isso trabalho afincadamente para tal.
Desde novo sonhava que um dia poderia participar nuns Jogos Olímpicos e lutar por uma medalha, é o meu sonho desde que comecei a praticar vela de competição.
Pretendo continuar forte pois quero permanecer por muito tempo nesta modalidade e ser reconhecido pelo meu trabalho. No futuro imagino-me a navegar em circuitos de vela no topo mundial. O que mais me fascina é a possibilidade de atingir o sucesso não só na vela olímpica como noutros barcos. Mas claro que só acontecerá se continuar a trabalhar muito!
Londres esteve na sua mira durante esta época, todavia foi um objectivo que já está fora da de hipótese… Quais os seus planos para o futuro?
Infelizmente Londres já não é possível. Por momentos acreditei que havia a possibilidade de lá estar para competir nos Jogos Olímpicos, mesmo depois de o Gustavo Lima voltar à classe Laser.
Entrei determinado na primeira prova de selecção (Troféu Princesa Sofia) pois sabia que as condições naturais de Palma de Maiorca me eram mais favoráveis a mim do que ao meu adversário, logo senti que tinha de fazer a diferença e tirar os melhores resultados. O campeonato estava a correr bem até aparecer um problema técnico no barco que condicionou muito o seu desfecho. Infelizmente aqui o objectivo não foi cumprido porque não consegui atingir a diferença pontual desejada.
Sabendo que ele iria estar muito forte fisicamente na Skandia Sail For Gold, em Inglaterra, a estratégia passava por ganhar vantagem em relação ao Gustavo nesta prova, porque comparativamente estava fisicamente melhor, e na 2ª prova de apuramento para os Jogos Olímpicos gerir a diferença de pontos entre nós.
Mesmo depois de ter perdido as selecções para aquele que considero um dos melhores laseristas mundiais, continuámos a trabalhar juntos.
No entanto considero que terminei a época em alta no Campeonato da Europa que se realizou em Hortin – França, de 2 a 7 Julho. Terminei em 18.º, sendo o melhor resultado desde sempre na categoria de Sénior, 13 por países.. Isto deixa-me feliz e com esperança no futuro.
O meu futuro irá passar por fazer campanha na classe Laser para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Encaro estes jogos de uma maneira muito positiva pois as condições que normalmente acontecem no local onde irão ser realizadas as regatas são me muito favoráveis tendo em conta as minhas características. Para além disso, quero navegar com mais regularidade em barcos mais evoluídos tecnicamente e tenho o desejo de formar uma equipa competitiva com o objectivo de vingar no Match Racing. Mas para isso é necessário algum financiamento e sinceramente espero que surja essa oportunidade.
No entanto o foco dos próximos quatro anos passa pelo laser, sendo o meu primeiro objectivo entrar na equipa olímpica já na próxima época.
Esta reportagem integra a revista Especial da Semana do Mar do Tribuna das Ilhas de distribuição gratuita.