Num arquipélago com a dimensão terrestre dos Açores, as oportunidades de gerar riqueza estão condicionadas pela dimensão das ilhas. No entanto, se olharmos para os milhares de quilómetros de área marítima à nossa volta, o caso muda de figura: com uma Zona Económica Exclusiva que representa 16% do total europeu, é no mar que estão as grandes oportunidades de crescimento da Região, também a nível económico. Este “crescimento azul” que se defende para os Açores não acaba quando se submerge nas águas límpidas que são uma imagem de marca do arquipélago. Com cada vez mais mergulhadores a procurar a Região, o turismo subaquático é uma oportunidade de negócio cuja rentabilidade já ultrapassou a teoria. Em 2013, é possível estimar-se que tenha feito entrar na Região mais de 5 milhões de euros. O impacto económico do mergulho no arquipélago foi uma das questões abordadas na quarta bienal de Turismo Subaquático dos Açores, que decorreu este fim de semana, na Graciosa.
Nas paredes do Centro Cultural de Santa Cruz, que acolheu esta Bienal, as imagens da exposição Oásis, do fotógrafo Nuno Sá, explicam por si só por que razão os Açores fazem as delícias de mergulhadores de todo o mundo: tubarões próximo do Faial, majestosas jamantas ao largo de Santa Maria, os icónicos cachalotes com a montanha do Pico como cenário ou meros na costa da Graciosa são exemplos do que as águas açorianas têm para oferecer. Paisagens deslumbrantes, águas límpidas que proporcionam excelente visibilidade e uma biodiversidade rica quando comparada com o resto do Atlântico são ingredientes que atraem os mergulhadores às ilhas. O mercado foi respondendo à procura e multiplicaram-se as ofertas. No Faial, por exemplo, contam-se já 18 operadores marítimo-turísticos licenciados. Em 2008 eram apenas dois.
Tentar perceber o retorno económico da passagem dos mergulhadores pelas ilhas não é fácil. A investigadora Adriana Ressureição, do Departamento de Oceanografia e Pescas (DOP) da Universidade dos Açores, está a estudar o impacto sócio-económico do mergulho turístico nas ilhas e através de vários inquéritos feitos este verão a clientes e operadores no Pico e no Faial chegou a algumas conclusões preliminares que mostram o potencial económico desta atividade e o perfil dos turistas que a procuram.
A maior parte dos inquiridos veio para os Açores especificamente para fazer mergulho e ficou, em média, 11 dias na Região. A investigadora apurou que, em média, cada um destes turistas gastou 1748 euros nas férias. Por outro lado, cerca de 80% dos operadores da Região contou com 3.289 clientes em 2012. Multiplicando este número pelo valor médio gasto por cada turista, a atividade terá gerado em 2012 cerca de 4.950 mil euros. Se tivermos em conta que estes dados dizem respeito, como já foi referido, a 80% dos operadores, a receita gerada em 2012 terá sido superior a 5 milhões de euros. Quanto a 2013, e tendo em conta o verão excecionalmente bom no grupo central, podemos depreender que o mergulho terá gerado em bem mais receitas na economia das ilhas.
Os números são, como fez questão de referir a investigadora, muito “brutos” para serem olhados com rigidez. Todavia, permitem ter uma ideia do potencial que se esconde sob as águas açorianas.
A falta de dados para permitir reflexões e análises mais apuradas foi uma das dificuldades apontadas neste encontro. Também do ponto de vista da qualidade do mergulho nos Açores enquanto produto turístico essa dificuldade se faz notar, como referiu Francisco Silva, da Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril. Lembrando que este tipo de turista é cada vez mais exigente e bem informado, este especialista em turismo e lazer aponta a sazonalidade e o excesso de burocracia como os principais entraves à melhoria da qualidade deste produto do turismo açoriano. Citando dados do Observatório Regional do Turismo, Francisco referiu que 74% destes mergulhadores consideram o destino Açores globalmente muito bom. A paisagem, o clima, a hospitalidade e a segurança são dos indicadores de qualidade mais valorizados, o que mostra que esta tem de ser cada vez mais vista de uma perspetiva holística: não basta oferecer bons mergulhos; é preciso que todos os serviços complementares (restauração, alojamento , etc) também correspondam às expetativas.
Os nossos amigos tubarões
De entre os animais marinhos, os tubarões serão aqueles que impõem mais fascínio. O cinema fez deles os “maus da fita” mas a verdade é que, no mergulho açoriano, eles desempenham o papel de heróis. Hoje os mergulhadores procuram a Região não tanto pelo mergulho costeiro mas principalmente para ver tubarões ou jamantas.
Enrico Villa é o proprietário da empresa Cetacean Watching, que se sediou no Pico há algum tempo e se tem aperfeiçoado no mergulho com tubarões. Para ele, não há dúvidas de que os Açores estão a viver um momento especial no que diz respeito ao mergulho. Destacando as excelentes condições nos montes submarinos Condor ou Açores para o mergulho com tubarões, Enrico garante que desde que oferece este serviço tem mais clientes, dispostos a ficar mais dias e que procuram também os outros serviços como a observação de cetáceos ou o mergulho junto à costa.
O empresário lembra que a localização dos Açores, a meio do Atlântico, faz com que o destino seja atrativo não apenas para os mergulhadores europeus mas também para os americanos. No entanto, apesar de todas as potencialidades, Enrico alerta para a necessidade de pensar esta atividade, defendendo uma regulamentação que vá para além dos códigos de conduta, à semelhança do que acontece com a observação de cetáceos, que imponha, entre outras coisas, um limite máximo de mergulhadores em simultâneo na água que não exceda as oito pessoas.
A ideia de que a especialização dentro do mergulho, oferecendo mergulho com tubarões ou com jamantas, é o caminho do sucesso também foi corroborada por Felipe Barrio, proprietário de uma agência de viagens espanhola especializada em viagens de mergulho. Este empresário destaca a crescente procura pelo mercado açoriano, principalmente desde que a sua empresa começou a oferecer como destinos de mergulho as ilhas de Santa Maria, Faial e Pico, em 2012. Os resultados não podiam ser mais reveladores, com a procura pelos Açores a crescer 700%.
Com 18 operadores licenciados, dois dos quais a fazer mergulho com tubarões, o Faial é uma das ilhas onde o turismo subaquático de destaca, no entanto nenhum empresário faialense marcou presença nesta bienal.