A conjugação entre a natureza no seu estado mais puro e o carácter cosmopolita do Faial não é apenas motivo de orgulho para quem aqui reside mas também um deslumbre para os que aqui passam.
A ilha Azul tem inspirado artistas que aqui chegam à procura do ambiente ideal para criar. Um exemplo é a pintora alemã Irene Kohoutek, que se fixou na Praia do Almoxarife há vários anos. Tribuna das Ilhas foi conhecê-la.
g Irene Kohoutek, natural da Alemanha e fisioterapeuta de profissão, resolveu escolher o Faial para viver. Em busca de um local tranquilo junto ao mar para residir, encontrou na Praia do Almoxarife o sítio ideal. Aí se fixou há cerca de 20 anos: “queríamos sair da Alemanha, começámos a procurar um sítio perto do mar, sossegado, sem muitos turistas e com muita natureza, como o Faial. Nós enamorámo-nos por esta ilha”, revelou a pintora.

Quando chegou ao Faial, tinha em mente ocupar o seu tempo a trabalhar como fisioterapeuta, mas deparou-se com um obstáculo. A barreira da língua fez com que seu destino seguisse outro rumo e foi nas artes que encontrou o seu refúgio e é à pintura que se tem dedicado de corpo e alma nestes últimos anos.
A pintora confessa que a arte sempre esteve presente na sua vida, por influência da mãe que era desenhadora e fazia esculturas em barro. Chegou mesmo a fazer alguns trabalhos artísticos enquanto trabalhava.“Comecei a pintar em criança, vivi muitos anos fora da Alemanha e tive contactos com outras formas de cultura e de pintura, andei com a minha mãe por muitos museus, esta foi sempre uma situação comum na minha vida”, confessa.
Apaixonada pela natureza, Irene refere que o que mais gosta de pintar é a realidade, sempre marcada com algum abstrato, e as naturezas mortas, através da associação das cores à luz e às sombras. A maioria dos seus trabalhos apresentam uma simplicidade sem preocupação de seguir uma temática, estilo ou técnica, expressando a elegância da forma e a delicadeza do objeto pintado. Nas suas telas, Irene utiliza essencialmente o acrílico e, nos últimos anos, o óleo.

A inspiração vem naturalmente e muda com o passar dos anos. “Sempre gostei mais de pintar a realidade, sempre com o abstrato ao lado. Sempre pintei retratos, naturezas mortas... Com luz e sombra qualquer coisa se pode pintar”, salienta.
Apesar de não exercer a fisioterapia, a pintora revela que o seu tempo é muito preenchido, sendo dividido entre o Faial e as Academias de Artes, onde faz frequentemente formações em pintura. “Nos últimos anos também tenho participado em algumas formações, para aprender mais. Tenho viajado para a Alemanha, feito formação de pintura com várias professoras, em Academias de Munique e Alemanha do Sul”.
É nestas formações que tem aprendido novas formas de pintar retatos e técnicas de pintar a óleo e tem estudado os mestres do século passado que, neste momento, são a sua fonte de inspiração. Este seu fascínio pela arte no século passado levou-a a produzir a suas próprias telas. “Normalmente nós compramos as telas já preparadas mas, neste momento, estou a fazer como faziam antigamente, através de linho puro, que é preparado através de muitas camadas e lixado até poder ser pintado, fica completamente diferente do comprado”, confessa com entusiasmo.
Ponto Azul - um atelier de intercâmbio entre pintores
Irene criou há algum tempo o atelier Ponto Azul, que promove um intercâmbio entre pintores. A pintora raramente pinta sozinha pois costuma receber artistas da Alemanha, de Portugal continental e até alguns locais à procura de orientação. Neste contexto no seu atelier já estiveram as pintoras Sabine Giesshoff, Ursula Steiner, Gabriela Landwehr e A. Gumprecht. É esta troca de experiências e de opiniões que a ajuda a crescer enquanto pintora. “Pintar com outros é sempre uma experiência positiva”, garante, acrescentando que os forasteiros nunca deixam o atelier sem vontade de voltar: “Todas estas pessoas quando vão embora dizem que vão voltar e acabam sempre por vir novamente”.

Apesar de reconhecer que o Faial é um bom centro de artes e cultura, onde abundam salas para expor, Irene alerta para a necessidade de difusão das artes para uma maior fatia da população. A este respeito, defende que “o Faial é mais ativo do que qualquer pessoa que venha de fora possa esperar”. “O Faial surpreende pela positiva”, frisa.
No Faial Irene Kohoutek já expôs na Casa Manuel de Arriga e na Casa de Chá. Também participou no concurso Porto PimTado, que venceu por duas vezes. Neste momento a artista tem uma exposição a decorrer em Ponta Delgada na Casa Natália Correia, que está prevista também para a Terceira, na Praia da Vitória. Nesta exposição Irene apresenta cerca de 30 trabalhos, a óleo e acrílico sobre tela, que representam os lugares mais marcantes por onde passou nos últimos dois anos,com alguns quadros mais abstratos e muitas naturezas mortas.
Irene confessa que gostaria de expôr no Faial ainda este ano o resultado do seu trabalho mais recente: “ficava muito feliz de expor as coisas que estou a pintar neste momento”, refere.