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  • Reflexões Crónicas O amigo açoriano do Padre Francisco
05
junho

Reflexões Crónicas O amigo açoriano do Padre Francisco

Escrito por  Tiago Silva
Publicado em Tiago Silva
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Não sei que escreva a Vossa Mercê, senão muitas devidas obrigações em que lhe sou, pela muita amizade, esmola e caridade que de Vossa Mercê tenho recebido […]. Deus Nosso Senhor lhe pague, pois eu não posso, com obras, fazer coisa igual à que estamos tal por tal. Toda a minha vida fico obrigado a rogar a Deus Nosso Senhor por si, o guarde de todo o mal, dando-lhe, nesta vida, sua graça, saúde e vida para seu santo serviço e o paraíso para a alma, na outra.” Com estas palavras o Padre Mestre Francisco iniciava uma carta ao seu “especial senhor e amigo, o Senhor Diogo Pereira”. Esta carta do missionário jesuíta revela um profundo apreço pelo destinatário, reconhecendo o apoio que lhe tinha prestado nos últimos anos, pondo as suas embarcações, riqueza e recursos vários ao serviço da missionação e das viagens que pretendia fazer no Oriente. Mas para se perceber o contexto e as razões desta citação, é importante percebermos quem são os seus intervenientes. O autor da carta foi um dos primeiros jesuítas, com uma notável acção no Extremo Oriente, que viria a ser canonizado e conhecido como São Francisco Xavier. Diogo Pereira foi um abastado comerciante dos primórdios da Índia portuguesa, que deixou por morte uma das casas mais ricas entre os portugueses no Oriente. Tinha a particularidade de ter nascido em S. Jorge, filho de mãe jorgense e pai faialense, segundo regista o Padre Manuel Luís Maldonado na sua Fenix Angrence.

Veja-se:

- São Francisco Xavier, Obras Completas, Braga – São Paulo, Ed. A. O. – Ed. Loyola, 2006.

- Padre Manuel Luís Maldonado, Fenix Angrence, 3 vols., transcrição e notas de Helder Fernando Parreira de Sousa Lima, Angra do Heroísmo, Instituto Histórico da Ilha Terceira, 1989-1997.

Deste modo, Diogo Pereira é uma espécie de percursor dos ilhéus que nos séculos seguintes imigraram para o Brasil ou para os Estados Unidos e Canadá em busca de uma vida nova, assim como dos que se destacaram (e destacam) nos quatro cantos do mundo. Mas é também o testemunho de um açoriano que parte à descoberta do mundo, numa época em que as ilhas ainda se estavam a descobrir a si próprias. Infelizmente não é possível reconstituir em detalhe o seu trajecto de vida. Conhecem-se apenas as suas raízes insulares, e as referências mais pormenorizadas dizem já respeito aos seus últimos anos de vida, já com casa e fortuna constituídas, geralmente citado devido à sua proximidade com Francisco Xavier.

Este último, o «Apóstolo do Oriente», reconheceu sempre o apoio do amigo, cujo apreço é registado sobretudo na carta já citada, a penúltima que escreveu, poucas semanas antes de morrer, de que deixamos mais um excerto:

“E porque, nesta parte, não me acho por satisfeito poder-lhe pagar o muito que lhe devo, encomendo muito, aos padres do nome de Jesus de toda a Índia, que o conheçam e tenham por seu especial amigo, para o encomendarem continuamente a Deus Nosso Senhor, em suas orações e sacrifícios. Porque, se na China a lei de Nosso Senhor Jesus Cristo se manifestar, é por meio de Vossa Mercê: a glória e contentamento desta tão santa obra, em esta vida e na outra a terá; e os que nela se fizerem cristãos e os Padres que lá forem a servir a Deus, ficarão sempre obrigados a rogar continuamente a Deus por si. […] Não sei que mais escreva a Vossa Mercê, senão que, por saber novas de sua saúde e vida, daria, se fosse rico, muitas dádivas por saber novas suas. Espero em Jesus Cristo que serão tais, quais desejo. Deus Nosso Senhor, por sua misericórdia, nos ajude outra vez nesta vida, para seu santo serviço, na China; e se nesta vida não for, seja na glória do paraíso. / De Sanchoão, a 12 de Novembro de 1552 anos. / Seu servidor e grande amigo d’alma, / FRANCISCO.”

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Em defesa da Língua Portuguesa, o autor deste texto não adopta o "Acordo Ortográfico" de 1990, devido a este ser inconsistente, incoerente e inconstitucional (para além de comprovada-mente promover a iliteracia em publicações oficiais e privadas, na imprensa e na população em geral).

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