Cresci numa geração (e numa terra) privilegiada: com acesso à educação e à saúde, com conforto e segurança, com (clichés à parte) paz e amor, com espaço para ser criança e espaço para crescer, até com vista para o mar. E no meio de tudo isto não me apercebi de uma das coisas mais importantes com que cresci: a Liberdade. É que normalmente damos as coisas por garantidas de tal forma que não nos apercebemos que estão lá senão quando deixam de estar (e muitas vezes já é tarde). Assim é com a Liberdade com que cresci: ouvia muito falar dela, mas quase só da boca de quem cresceu com a sua ausência, de quem teve de lutar para conquistá-la. Nós, por outro lado, estamos tão habituados que nem lhe damos muita importância. Nem à Liberdade em si, nem à responsabilidade que temos em preservá-la. Assim fui crescendo e percebendo que a maioria das pessoas não liga à Liberdade nem aos direitos que tem (quanto mais aos deveres...), senão nas ocasiões em que se sentem privados deles.
Desde cedo tentei estar atento ao mundo à minha volta e dar o meu contributo possível, e muitas vezes conversei com responsáveis de muita coisa, que me sorriram e garantiram que não me preocupasse, que tudo se ia resolver pelo melhor. E aceitei isso, até porque também já tive responsabilidades várias e sei que é mais fácil ir para o café dizer mal do que ter o problema na mão e lidar com ele. O certo é que o tempo foi passando e as coisas não se foram resolvendo, ou foram-se resolvendo malfeitas. E fui começando a não achar muita piada a esses sorrisos e a essas garantias...
Cresci. Passei por outros sítios. Vi e aprendi muitas coisas. Mas trouxe sempre comigo a intenção de pôr tudo isso ao serviço da minha terra. Chegou a um ponto em que percebi que podia dar um contributo útil, até porque fui colaborando com outras entidades e pessoas e vendo as minhas ideias e propostas serem aceites. Pelo contrário, na minha terra, fui tendo recepções muito pouco entusiastas, desde a simples ausência de resposta ao insulto à minha palavra ou à minha pessoa. E foi aí que percebi que alguma coisa não estava bem na minha terra...
Ainda hoje, enquanto escrevia isto, recebi um (inesperado) ofício de um departamento governamental a agradecer um contributo espontâneo que enviei relacionado com o meu trabalho (e com a minha terra); na minha terra envio coisas semelhantes para quem a dirige e não recebo sequer resposta. Um ponto de viragem para mim foi uma intervenção que fiz há uns meses, na qual fui publicamente elogiado por autarcas e outras pessoas, que este trabalho devia ser “reconhecido e apoiado”, agradeci muito, pus-me à disposição das entidades todas e a resposta foi “boa noite” e uma palmadinha no ombro (isto já em conversa particular...). Seria também uma dessas pessoas que recentemente, também em conversa particular, me diria na cara que o meu trabalho não vale nada. Alguma coisa está (muito) mal na minha terra...
A certa altura percebi que a única forma de (tentar) fazer alguma coisa seria expondo publicamente as questões. Fi-lo, não se resolveu nada e deu no que se viu... No cúmulo de tudo isto... fui alvo de censura. Uma censura cruel, injusta, repugnante e cobarde. Aí senti na pele. Senti a repressão, senti as histórias de luta pela Liberdade que ouvi enquanto crescia, senti o íntimo de muita gente da minha terra que quer falar e não pode (vários disseram-me isso mesmo, e pediram-me que continuasse a falar). Não senti medo nem frustração, nem vontade de desistir, porque é esse o objectivo dos tiranos, e todas as tiranias começaram com pequenos atentados à Liberdade (pequenos, quase invisíveis, sempre muito bem justificadinhos e aceitáveis, até que fosse tarde demais...). Quando sucumbirmos ao medo, aí sim, estaremos condenados. E foi aí que percebi qual era o problema da minha terra (que fica para bom entendedor...).
Perguntar-me-ãoentão: que queres afinal para a tua terra? Para a minha terra quero que cresça, como eu cresci, mas que não tenha de emigrar, como muitos jovens que saem e se recusam para voltar. E por isso quero que a minha terra e quem nela mora recebam o respeito que merecem de quem a governa. Por isso quero que a gente da minha terra se sente à mesa a discutir os problemas e que seja ouvida por quem puder tomar decisões que os possam resolver. Não quero uma terra em que as pessoas têm medo de falar porque sabem que serão ignoradas, desrespeitadas ou pura e simplesmente reprimidas (senti isso na pele e não é nada agradável), ou onde o rol de gente que sai porque tentou contribuir e levou com a porta na cara cresce todos os dias. A minha terra tem perdido capital humano de primeira qualidade porque muitos dos que a dirigem preferem descerrar placas em betão do que abraçar projectos que possam realmente fazer a diferença, porque preferem fazer malfeito do que ouvir a voz de quem sabe, porque temos autarcas que dizem (publicamente) frases incríveis como “decidi e nem pensei duas vezes”, que é tanto grave por assumir a total falta de planeamento, como pelo facto de assumir que ninguém foi consultado no processo de tomada de decisão. Não quero a minha terra na mão de pessoas que tomam decisões sem pensar, sem questionar, sem ouvir quem sabe. Não quero ouvir mais histórias (e são já tantas, até dos da minha geração) de que “a nossa terra é só para passar férias” ou que “já não tem solução”. Nem quero ouvir (como tenho ouvido) da boca de pessoas de outras paragens que a minha terra é “de gente parola”, isto à custa de políticos que tomam decisões impensadas ou que simplesmente não sabem manter uma boa imagem quando nos representam no exterior.
Quero que a minha terra tenha um programa com objectivos para o seu futuro, que seja governada não por gente que saiba tudo (que ache que sabe tudo...), mas por quem saiba que sabe pouco e que deve ouvir todos, por quem seja coerente com o que diz e faz; que tenha uma Câmara que seja verdadeiramente a primeira entidade a representar os seus cidadãos em todas as instâncias, que tenha a porta aberta a todos; que possamos trabalhar todos em conjunto e voltar a confiar em quem nos dirige (que a confiança que nos inspira de momento é nenhuma). Por tudo isto é importante falarmos e não acreditarmos em todos os sorrisos amarelos ou de capa de jornal.
Há muita coisa errada com a minha terra (com a nossa terra) e a culpa é de todos nós: uns por acção, outros por inércia, muitos por medo ou desinteresse. Por isso cabe-nos a todos nós decidir o que queremos para a nossa terra. Eu? Quero mudança.
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Ouça-se: Rui Monteiro / Paulo de Carvalho, “Os Meninos de Huambo”