FACTO HISTÓRICO DAS FLORES
Norberto Trigueiro, que se serviu sobretudo da imprensa faialense e baseado em várias fontes que obteve, entre as quais no jornal “O Telégrafo”, da Horta, refere que o “Slavonia” desenvolvia uma velocidade de
O referido navio, que fora lançado ao mar em 15 de Novembro de 1902 e dado por concluído no ano seguinte, era um dos maiores e mais luxuosos paquetes de passageiros e carga do seu tempo. Construído em Inglaterra, como atrás referimos, quando foi baptizado chamava-se “Yamuna” e veio a pertencer à empresa armadora British Indian Steam Navigation Ltd, viajando de início sobretudo para a Índia. Mais tarde foi adquirido pela empresa inglesa Cunard Steam Ship Co. Ltd., mais conhecida por Cunard Line, e era comandado pelo Capitão Artur Dunning. Viajava então entre a Europa e os EUA, como atrás referimos. Tinha a arqueação bruta de 10 606 toneladas,
Apesar das características do navio divergiram de autor para autor ou de fonte para fonte, os principais elementos definidores das mesmas coincidem no essencial.
Deste modo, para que se possa avaliar melhor a grandeza dimensional do paquete “Slavonia”, registamos a seguir os elementos característicos do paquete “Carvalho Araújo”, da EIN – Empresa Insulana de Navegação, que muitos de nós conhecemos a escalar as ilhas dos Açores, durante cerca de 40 anos. Construído em Itália de propósito para viajar entre Lisboa, Madeira e os Açores, iniciou viagens em Maio de 1930 e navegou até à década de 1970. Fora idealizado quase trinta anos depois do “Slavonia” e tinha a arqueação bruta de 4 560 toneladas, o comprimento de
Proveniente de Nova Iorque, onde embarcaram 100 passageiros de 1.ª classe, 272 passageiros de 3.ª classe e carga diversa, como referiu na primeira parte Norberto Trigueiro, o “Slavonia” viajava com 225 tripulantes para Liverpool, Inglaterra, passando junto das Flores de Oeste para Leste. Havia passageiros de diversas nacionalidades, sobretudo de origem italiana, estes eram gente pobre e simples, que ocupava essencialmente a 3.ª classe. A pedido dos passageiros de 1.ª classe – quase todos turistas americanos que vinham a passeio à Europa – o navio passaria, portanto, pelo arquipélago dos Açores para que pudessem ver algumas ilhas açorianas.
2. Baixa Rasa no Lajedo
Quando o navio se aproximava da ilha das Flores, havia nevoeiro e uma chuvinha miudinha. O Farol das Lajes das Flores, cuja construção se havia iniciado há mais de 10 anos, apesar de já estar praticamente concluído, ainda não funcionava. Possivelmente faltava-lhe a lanterna, refere Alexandre Monteiro, como já acontecera com o dos Capelinhos, no Faial.
Assim, embora navegando já nas costas da ilha, do navio nada se vislumbrava dela. Para além disso, no tempo ainda não existia radar a bordo que lhe desse informações sobre a sua proximidade.
Assim, o seu fatal naufrágio nas costas da freguesia do Lajedo das Flores deu-se pelas 3 horas da madrugada do dia 10 de Junho de 1909 (no relatório da Guarda-Fiscal consta que foi no dia 9, talvez referindo-se à noite desse dia), na Baixa Rasa. O barco meteu-se inadvertidamente entre a terra e a Baixa Rasa, bateu-lhe por dentro e, fazendo-lhe desapegar um grande calhau, fez ricochete para a esquerda, passando entre a baixa e a ilha, foi dar com a proa na falésia, ficando com a popa junto da baixa.
A aproximação à ilha das Flores, fora decidida no dia 8 e fazia-se com bom tempo, embora com nevoeiro a partir das 20 horas do dia 9, já próximo da ilha. Apesar dos apitos contínuos – habituais nessas situações climatéricas – e do redobrado cuidado dos oficiais de bordo, a vida dos passageiros decorria normalmente, havendo nessa noite, tal como nas anteriores, baile no salão de 1.ª classe, onde damas e cavalheiros, ostentando os seus melhores trajes, se divertiam.
O Comandante do navio, que 20 minutos antes estivera a consultar a carta e a calcular a rota, estava na ponte de comando a dar orientações, quando, com grande estrondo, o “Slavonia” bateu na baixa e ali fica encalhado com um grande rombo no casco. Eram precisamente 3 horas da madrugada.
Seguiram-se momentos de verdadeiro pânico a bordo, enquanto que em terra a população do Lajedo, freguesia pertencente ao concelho das Lajes das Flores, alarmada pelo estrondo que ouvira e pelo apitar contínuo da sereia do navio, acordou e saiu para as ruas para tentar compreender o que se estava a passar.
Dirigindo-se rapidamente às proximidades da rocha do mar donde viera aquele estrondo, quando essa população viu o navio acidentado ainda plenamente iluminado, depressa se apressou para tentar socorrer os náufragos. Como não havia comunicações telefónicas, usou-se o habitual mensageiro que se deslocou às Vilas para comunicar às autoridades da ilha a respectiva notícia.
Numa freguesia e numa ilha completamente escura – ainda a largos anos da energia eléctrica, que só chegou à Vila de Lajes das Flores por volta de 1937/38 – era brilhante o espectáculo que o navio, totalmente iluminado, apresentava, não obstante o drama que podia estar ali subjacente e cujo grau de gravidade era ainda desconhecido.
(Continua)
BIBLIOGRAFIA: Gomes, Francisco António Nunes Pimentel, “A Ilha das Flores: Da redescoberta à actualidade (Subsídios para a sua História)”, (2003, pp. 423 e 445, 2.ª edição da Câmara Municipal de Lajes das Flores; Trigueiro, Norberto, artigo publicado no jornal “Correio da Horta”, Horta, de 22-10-1960; Martins, Félix, artigo no jornal “As Flores”, Santa Cruz das Flores, de 21-06-2001; Freitas, Álvaro Monteiro de, artigo publicado no “Jornal do Ocidente” de Lajes das Flores, de 10-12-1991; Monteiro, Alexandre, “O Naufrágio do Paquete ‘Slavonia’ (Ilha das Flores, 1909)”, (2009), Internet; Correia, Luís Miguel, “Paquetes Portugueses”, pp. 83 e 215, 1992, Edições INAPA, de Lisboa; Antunes, 1.ª Sargento Domingos (presumido autor), “Esboço Histórico da Guarda Fiscal das Ilhas das Flores e do Corvo (1885-1985)”; jornal “O Telégrafo”, de 19-06-1909; jornal “O Faialense” de 27-7-1909; Trigueiro, José Arlindo Armas, “Retalhos das Flores - Factos Históricos”, 2003, pp. 27-34, Ed. da Câmara Municipal de Lajes das Flores.