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02
novembro

A paisagem insular ideal

Escrito por  Cláudia Ávila Gomes
Publicado em Cláudia Ávila Gomes

As ilhas surgem desde as descrições da antiguidade e, posteriormente, da Idade Média Cristã como alegorias do Éden. Em narrativas medievais, como a romanceada viagem de Trezenzónio à Ilha de Solstício, esta surge após a dura prova de um mar alteroso como um lugar paradisíaco onde o herói permanece durante sete anos, e de onde regressa após a aquisição de conhecimento místico, para a sua divulgação. Esta ilha “é povoada por ovelhas e aves e o mel corre em abundância por entre a fragrância das flores e das árvores de fruto. (…) Na ausência de Verão e de Inverno, uma Primavera eterna envolve a ilha, onde nunca há noite, dado que a luz das estrelas sempre mantém uma claridade que afasta as trevas.” A amenidade climática é uma constante destas descrições, que pretendem ser de um lugar ideal.
Noutras narrativas da época medieval a ilha surge como lugar que assegura o repouso temporário ou o apoio logístico dos navegadores, assim como o abrigo das vicissitudes do mar e tempestades. Estes pontos de paragem surgem como locais temporários num percurso mais vasto mas, por vezes, com uma dupla face: lugares paradisíacos mas também espaços onde se desenrola uma ação conducente à superação de uma prova. As ilhas povoam o universo imaginário medieval desempenhando papéis semelhantes aos dos castelos, embora num contexto mais espiritualizado. No Renascimento, e como instrumento de crítica social foi escrita, em 1516, a “Utopia” de Thomas More, uma narrativa passada numa ilha onde não existiam conflitos sociais e onde um sistema político e económico ideal se concretizava no espaço circular e isolado de um mundo perfeito. Esta narrativa cunhou um termo que serviu para a conceção dos mais diversos lugares-ideais, o termo utopia.
Na “Crónica do imperador Clarimundo”, de 1520, na descrição da Ilha Bem Aventurada refere-se que “numa primeira aproximação, a ilha estava encoberta por uma espessa névoa que só se dissipou pela força dos raios solares; seguiu-se a revelação de um lugar ameno, revestidos de ciprestes, cedros e palmeiras de tanta altura que pareciam tocar as nuvens, entre os quais corria uma graciosa ribeira bordejada de flores; (…) Os paços tinham vários jardins e da maior torre abrangia-se toda a ilha com a vista, ilha coberta de arvoredos com três férteis várzeas onde os três mil habitantes de uma vila obtinham facilmente o seu sustento.” Nesta descrição surge mais uma vez a referência a uma amenidade climática ideal mas também aos nevoeiros característicos de territórios insulares. É referida a presença de densa vegetação de folha persistente, de águas permanentes e de solos férteis, paisagem que se associa a uma ideia de paraíso e muitas vezes aos Açores.
Um outro mito, do jardim das Hespérides, desenrola-se não numa ilha mas numa imaginada zona peninsular banhada pelo oceano Atlântico. Este mito encontra-se também associado à conceção de um paraíso terrestre, lugar de amenidade e de harmonia com a natureza. No jardim das Hespérides existiriam os “pomos de ouro”, frutos que conferiam a imortalidade. Este termo poético de “pomos de ouro” foi mais tarde associado às laranjas que nos séculos XVIII e XIX passaram a ser amplamente exportadas dos Açores para todo o mundo ocidental, especialmente para a Inglaterra. Curiosamente, o comércio da laranja conduziu a uma “idade de ouro”, em termos económicos, destas ilhas. 

 

Diversos autores em Yvette Kace Centeno; Lima de Freitas (coordenadores) - “A simbólica do espaço: cidades, ilhas e jardins”. Lisboa: Instituto Português da Língua e Literatura, 1991.

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