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30
novembro

Retalhos da nossa história -297 parte II - Ernesto do Canto Amaral: poeta, negociante e político

Escrito por  Fernando Faria
Publicado em Fernando Faria

Continuação da edição de 16 de novembro

Ao concluir este ofício, Ernesto do Canto Amaral não podia ser mais claro no seu propósito de debelar aquela traficância. Dizia ele ao governador ser seu propósito “que este serviço de passageiros retome a moralidade completamente perdida, mas a minha iniciativa cansa, a minha acção esgota quando tenho de fiscalizar os emigrantes e a fiscalização. É assim que tem saído desta ilha nos últimos anos um espantoso número de emigrantes clandestinos, sumindo-se a dignidade dos funcionários neste advento de corrupção, com que lucram alguns e com que outros não se importam”1.
Afinal, as circunstâncias da vida levaram-no para bem longe da sua terra, logo nos começos de 1891.
Na verdade, constata-se, pela imprensa da época, que Ernesto Amaral terá saído definitivamente da Horta no primeiro semestre daquele ano depois do falecimento “da sua inocente filhinha Hortênsia”2 em 27 de Maio. Com sua esposa radicou-se em Lisboa, foi gerente da Casa Bensaúde, tendo depois sido sócio da importante firma de comissões, consignações e transportes C. Mahony & Amaral que ainda em 1924 gozava “dos melhores créditos”. Vivendo em Lisboa “todo o faialense conhecido que daqui partia” encontrava nele a mais franca hospitalidade e apoio “pela sua colocação no alto comércio e outras relações pessoais como as de próximo parente do sr. Marquês de Ávila e Bolama, também um distinto patrício há anos falecido”3.
Nos últimos anos da monarquia foi, sem sucesso, candidato a deputado em duas eleições, uma em 1905 e outra em 1908. Se nesta última representava o Partido Nacionalista pelo círculo da Horta, naquela só podemos supor que também se tenha apresentado por este mesmo círculo. É que no “Fundo Particular Hintze Ribeiro” da Biblioteca Pública de Ponta Delgada existe uma carta de Ernesto Amaral de 4 de Janeiro de 1905 dirigida a um “Meu prezado Amigo” em que depois das cordiais saudações informa-o que “Em conformidade com os desejos de meu cunhado, o Marquês de Ávila, vou apresentar nas próximas eleições a minha candidatura pela minoria, por esse distrito, na qualidade de deputado regenerador independente”. Logo de seguida e “Devido às nossas relações de amizade de tantos anos, não quero deixar de te comunicar esta minha resolução e muito grato te ficarei pelo que entenderes dever fazer em meu favor. Abraça-te o teu velho amigo Ernesto” .
Sendo a carta de 5 de Janeiro e tendo-se realizado as eleições a 12 de Fevereiro seria natural que, caso tivesse sido candidato pela Horta, alguma documentação oficial ou os jornais disso tivessem dado conta. O facto de a carta não mencionar o amigo e de se encontrar actualmente no Fundo de Hintze Ribeiro – que ainda era o líder dos regeneradores portuguese - podia indiciar que a candidatura seria por Ponta Delgada. Fica a dúvida.
Ernesto do Canto Amaral que jamais esqueceu a sua terra, foi um ilustre faialense que merece ser lembrado.
Faleceu em Lisboa a 25 de Novembro de 1924. Deixou viúva D. Leonor de Almeida Ávila e o filho António José Ávila do Amaral, engenheiro civil nascido em Lisboa a 5.1.1898 e lá falecido a 2.3. 1983. 

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

1 Carlos M. G. Lobão, Uma cidade portuária – a Horta entre 1880-1926, vol. II, pp. 29-30
2 O Açoriano, 31 Maio 1891
3 O Telégrafo, 14 Dezembro 1924

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