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08
fevereiro

Nem todas as baleias voam

Escrito por  João Stattmiller
Publicado em João Stattmiller

“Em criança - disse Dresner -, acreditava que a terra dava cereais porque nós a olhávamos com espanto ou com curiosidade, e esse olhar semeava-a e mais tarde colhiam-se as espigas do nosso olhar para as esmagar na mó de pedra dos moinhos e fazer pão para alimentar o povo. O pai dizia que era absolutamente essencial que olhássemos assim para a terra, que o mundo não medrava sem que imiscuíssemos uma visão temperada de questões no seio da matéria, na lama. Era, dizia ele, a verdadeira maneira de amar, de fazer amor, de fecundar, de penetrar nas coisas e sentir-lhes as vísceras, as veias a apascentarem o sangue, a furarem a carne, o nosso olhar é a única enxada e a única lavoura possível.
E nós acreditávamos, porque essa era a nossa herança, a angústia que enchia o mundo e que nós cultivávamos com um tremendo esforço, pois nem sempre a terra nos cativa e nos provoca espanto, nem sempre...
Nem sempre o pai nos dizia isso. Quando bebia, levantava-se do cadeirão de couro, abria os braços e gritava, anunciando com voz de pedra, como se mastigasse granito, o quanto detestava a terra. Dizia que a única coisa de que ele queria certificar-se a respeito da terra é que ela seria pisada quando nos afastássemos, que não deveríamos ter respeito nenhum por essa boca enorme, por essa comedora de cadáveres, por essa puta de lama que nos alimenta para depois nos mastigar. Ao andar na rua, chutava as pedras e dizia: Não são pedras, são os dentes da puta que nos mastiga. Pisem-na, é a única coisa que devemos fazer, pisar e nunca criar alicerces, andar sem descanso, sabendo que perderemos, mas que lutámos.
Um dia, dizia ele, gostava de cumprir todas as estradas, não as que existem, mas as que passarem a existir quando eu as pisar, pisando a terra. Quero criar todas as estradas possíveis ao andar pelos lugares que os homens ainda não pisaram. E, quando toda a terra tiver sido humilhada, já não lhe restará mais poder sobre os nossos corpos.” 

No livro “Nem todas as baleias voam” de Afonso Cruz. Editado pela Companhia Das Letras.

DR

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