Tribuna das Ilhas

Infinity 8
  • Início
  • Local
  • Triângulo
  • Regional
  • Desporto
  • Cultura
  • Política
  • Opinião
  • Cartoons
Últimas :
Investimento privado no Faial – realidade ou utopia?
Educação - Escola Secundária Manuel de Arriaga ocupa o 496.º lugar do ranking a nível nacional
Eleições - Carla Dâmaso assume a presidência do OMA
Agricultura - Trybio organiza cursos de instalação de pomares e de poda de fruteiras no Faial
BTT – ESMA ATIVA Primeiro encontro de BTT da ESMA junta professores e alunos
“Eco Freguesia, freguesia limpa” - Candidaturas ao programa abertas até 15 de março
Saúde - Hospital da Horta assina protocolo com Câmara Municipal da Madalena para criação de Unidade de Hemodiálise
Efeméride - Azores Trail Run® regista 4000 inscritos em 5 anos
Faial - Governo Regional assina contrato para reabilitar Solar e Ermida de São Lourenço
  • Início
  • Opinião
  • José Trigueiro
  • Uma noite de Reis na Fajãzinha, de Ernesto Rebello (1878) (II)
22
julho

Uma noite de Reis na Fajãzinha, de Ernesto Rebello (1878) (II)

Escrito por  Susana Garcia
Publicado em José Trigueiro
  • Imprimir
  • E-mail

HISTÓRIAS DAS FLORES

(Continuação)

Na referida reunião, talvez feita no descampado do Rochão do Junco ou junto da Fonte Frade, uns músicos da “Philarmónica Amizade” aprovavam o regresso a Santa Cruz, mas a maioria decidiu continuar a viagem (6).

“- Ó aquele, olha que isto hoje há aqui facadas, toca o burro, não te faças tolo!...”

Esta Filarmónica da vila de Santa Cruz das Flores, pode ser a “Filarmónica Amizade” ou “Amor da Pátria” de que nos fala Ernesto Rebello. Foto dos arquivos de João António Gomes Vieira.

“ -  Não dou mais um passo, sem que vocês me dêem bastante genebra, ora eu que podia estar sossegado em casa…”                                             

“ - Pega, ladrão, bebe à tua vontade e não estejas a desanimar os outros».

A contenda foi resolvida pela voz autorizada do regente da música, que desejava velar pelo prestígio da filarmónica (7).

“ - O mestre da música tem razão — bradaram outros — primeiro que tudo salva-se o instrumental”.

“-Para a Fajãzinha -  exclamaram os da frente tornando-se os líderes da caravana». 

Por sua vez, o tocador do bombo gritava: “-para a Fajã Grande… para a Fajã Grande…», sem atender às condições da ribeira, que era a maior dificuldade e que bramia furiosa. E a discussão continuava…(8).

“- Silêncio, Srs. - acudiu o mestre da música, temendo novas questões - nós vamos em breve entrar na freguesia [da Fajãzinha], e os Srs. devem-se portar como pessoas ilustradas, que são, um músico não é para aí qualquer coisa… haja prudência….”

“O dono da casa, [um dos vários amigos], segundo todas as aparências, já estava em meio do primeiro sono, ali não se via luz, nem se descobriu o mínimo sinal de vida». 

“Os músicos enfileiraram em frente desta residência e de repente uma alegre tocata, o hino da filarmónica, vibrando com a máxima valentia, “estúrdia” os ares, fazendo estremecer as vidraças das casas circunvizinhas e despertando toda a povoação, cujos habitantes em crescente número, começaram a aglomerar-se em redor dos tocadores”.

“Quem não aparecia ainda à janela era o dono da casa, que pesado sono!...”

“ - Vá lá, rapazes, - gritou entusiasmado o mestre, por ver o levante que os seus discípulos estavam fazendo na freguesia - agora os Reis, mas isto bem afinadinho…[…]”

“Finda a cantilena, uma voz ergueu-se entre os músicos. (9)”.

“ -  Viva o Sr. Ramos!”

“E toda a multidão repetiu: - Viva, Viva!”

“O bom velho vestiu-se à pressa e abrindo logo a porta, disse de cima do seu balcão: “

“ - Eu não sei quem os Srs. sejam, mas esta casa é sua, vamos a entrar…”

“ -  É gente de paz, a filarmónica da Vila, que lhe vem dar as boas festas”. “[…]»”

Dentro de meia hora a casa do Manuel Ramos estava cheia de comer, e a linguiça assada espalhava por toda a casa o mais apetitoso cheiro, e, nesse esforço de pão e vinho, toda a gente da freguesia que ali estava compartilhava francamente.   

O dono da habitação, que era homem benquisto, exuberava de alegria, tendo-se levantado muitos brindes com as mais ruidosas saudações. 

Depois, por mais de uma vez, o tocador do bombo procurava imaginar-se com a sorte que teria se tivessem chegado à Fajã-Grande e, depois da forte festança ter passado, um dos habitantes locais, mais cerimonioso, disse aos companheiros (10).

“ -  Ó amigos, estes Srs. hão-de carecer de repouso, para espairecer nesta noite dos Santos Reis, já temos comido e bebido à farta, agora o melhor é a gente ir para nossas casas.» 

Depois de mais cânticos em louvor da Epifania, era uma hora da noite e ali ainda se cantava, comia e bebia. Contudo a gente da freguesia foi-se retirando.  

Assim «O Manuel Ramos achou-se afinal tão-somente com os seus doze hóspedes».

Apesar de ter sido necessário forrar a casa com lençóis para lhe tapar os buracos, já que a mesma estava ainda em construção e incompleta interiormente, tendo sido necessário colocar uma esteira para que todos ficassem convenientemente instalados. O Sr. Ramos mandou o Francisco, um rapaz local que o ajudava nos trabalhos da casa, trazer os últimos lençóis (11).

“ -  O Sr. Ramos está perfeitamente preparado para receber hóspedes”.

“ -  Perfeitamente não direi e conheço que isso são favores, mas o que eu posso certificar aos meus amigos é que o que aí vêem é tudo meu”. 

“ -  Isto faz-me lembrar uma história que contava meu pai, de quando esteve nesta terra um Sr. Bispo” -  acrescenta Manuel Ramos (12)”.

“ -  Como foi, diga?”

 “ - É que o Bispo, andando em visita pela ilha – [disse Manuel Ramos] – veio  hospedar-se em casa do Vigário antigo desta freguesia. O bom do padre não se poupou a trabalhar para receber condignamente o seu prelado, preparou o quarto de jantar, cobrindo a mesa de boas iguarias e com o melhor vinho, apresentou as melhores louças, cortinados nas janelas e, à noite, à ceia, colocou em cada canto do quarto um rapaz, imóvel, com o braço estendido, como uma estátua, segurando uma grande tocha acesa na mão. O bispo gostou daquela lembrança, um tanto original, fartou-se de carne assada e de massa sovada, mais guloseimas, e afinal não trepidou em descer na sua imponente dignidade para elogiar o Vigário não só a boa cozinha, como o asseio e bom gosto de todos aqueles aprestos, incluindo as quatro figuras ornamentais». 

Os músicos escutavam com imensa atenção a história do dono da casa. 

(Continua) 
Coordenação de José Arlindo Armas Trigueiro

 

 

Lido 1719 vezes
Classifique este item
  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5
(0 votos)
Tweet
Login para post comentários
voltar ao topo
  • Perdeu a senha?
  • Esqueceu-se do nome de utilizador?
  • Registe-se!
  • Contatos
  • Pesquisa
  • Assinatura
Copyright © Tribuna das Ilhas 2026 All rights reserved. Custom Design by Youjoomla.com
Opinião