HISTÓRIAS DAS FLORES
E bom velho Ramos continuou a contar a recepção que o Pe. Malhão de paróquia da Fajãzinha propiciou ao Bispo. Diz o Pe. Malhão: «— Pois saberá V. Ex,ª Reverendíssima que tudo o que está destas portas dentro pertence-me e é obra minha, incluindo as tochas e também os tocheiros — disse-lhe o Vigário».
«O bispo olhou para os rapazes, que continuavam imóveis no seu posto e lambendo os beiços, em melífluo sorriso, a todos deitou a sua respeitável bênção. Bons tempos aqueles…» — concluiu o Sr. Ramos.

Esta casa típica da freguesia da Fajãzinha podia ter sido a casa do Sr. Ramos, onde o escritor faialense Ernesto Rebello situa a noite de Reis da sua história. Desenho do Eng. Sérgio Paixão.
« — Está visto que sim — respondeu ainda o [músico] do bombo — eu cá houve tempo em que o Vigário de minha freguesia era o Pe. Malhão, bom homem, muito dado, muito relacionado que na área da sua paróquia contava, segundo reza crónica, quarenta descendentes, por isso pode avaliar-se o que é a gente nascida ali, digo-o sem orgulho».
«— Quarenta!... parece exagero ainda que…».
«— Pois olhe que é puríssima verdade e para prova é que no folheto dos ‘Sete Pecados Portais’, escrito aqui na ilha, mas impresso em Lisboa, o tal Vev.º Vigário figura como representante do 3.º pecado. Aquela brincadeira, honra lhe seja, foi feita pelo Pe. Camões, nosso patrício».
« — Este diabo é um almanaque — acudiu o mais novo dos rapazes que tocava ferrinhos, — que era esse Pe. Camões, desse nome nunca ouvi falar senão num que, há muitos anos, escreveu versos e meu avô tem um livro dele que se chama os Lusíadas».
«— Aquele de que eu trato era outro, natural aqui das Flores e que possuía a melhor biblioteca talvez dos Açores. Quantos livros vocês por aí encontram ainda, eram seus, e escreveu também o ‘Testamento do Burro’, que é obra bem acabada e na qual não se esquecia de muitas desta terra».
«— O Pe. Camões! — disse ainda o velho Ramos — conheci-o perfeitamente, tinha a mania de ser ouvidor nas Lajes e por isso indispôs-se com muitos colegas daqui, eram trinta câes a um osso, a quem não o poupava ele pagava-lhe na mesma moeda (13). Morreu pobre haverá uns trinta e cinco ou quarenta anos e, diga-se a verdade, homem mais generoso jamais conheci, quanto ganhava quanto dava».
E Manuel Ramos acrescentou: «— Só a papelada que ele deixou quando morreu e tudo puxado da sua cabeça”.
« — O que não dispõe muito a favor do seu bom senso, para que demónio se punha o Padre Camões a cansar cá na ilha?... Olhe Sr. Ramos, eu cá em tendo o meu bombo em perfeito estado e duas ou três raparigas de truz a quem arraste a asa, estou nas minhas quintas, não me importo em mais nada. Se eu a esta hora estava na Fajã-Grande…».
«— Havias de fazer grandes coisas, não há dúvida — disse-lhe um dos companheiros — o que me parece é que o tal padre Camões se vivo fosse não deixava de te incluir nos seus versos, aplicando-te uma boa sova».
« — Se fosse bem dada, não me queixava».
«O Ramos acrescentou ainda»:
«— Que ele tinha bastante graça, era ponto de fé e conservou sempre aquele génio alegre até à última hora. Quando o Padre Camões, que passava a vida a ler e a fazer versos, enfermou gravemente, já idoso, pobre e ralado de desgostos, eu muitas vezes ia visitá-lo, porque éramos então vizinhos e disse-me por várias vezes que tinha uma gaveta cheia das suas obras, mas disso tudo deram, depois, cabo os herdeiros. Até um irmão dele, também clérigo e que fora frade foi o mais empenhado nisso, pois dizia sempre que era o diabo quem lhe inspirava tais cantigas».
«— Pedaço de burro!»
«— Lembro-me até, foi no derradeiro dia da sua existência, o Padre Camões já estava muito fraquinho, fui vê-lo de manhã e em quando lá estava chegou o irmão, que de há muito não o procurava. O Camões sorriu e disse-lhe: Tu por aqui?! ... ora ainda bem, sempre somos irmãos e nestes momentos esquece-se tudo…»
E o Sr. Ramos continuava a contar histórias, agora a relativa ao seu ilustre conterrâneo, Padre José António Camões, baptizado na freguesia da Fajãzinha em 13 de Dezembro de 1777 e falecido na freguesia de Ponta Delgada das Flores em 18 de Janeiro de 1827 (13-A). (Continua)
(13). Rebello, Ernesto, “Uma Noite de Reis na Freguesia da Fajãzinha”, “Arquivo dos Açores”, (1885), p.170, republicado em 1982 pelo Universidade dos Açores - Ponta Delgada.
(13-A). Trigueiro, José Arlindo Armas, “Obras”, (2008), pp. 21-35, edição da Câmara Municipal das Lajes das Flores.