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  • Uma noite de Reis na Fajãzinha, de Ernesto Rebello (1878) (III)
05
agosto

Uma noite de Reis na Fajãzinha, de Ernesto Rebello (1878) (III)

Escrito por  Susana Garcia
Publicado em José Trigueiro
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HISTÓRIAS DAS FLORES

(Continuação)

E bom velho Ramos continuou a contar a recepção que o Pe. Malhão de paróquia da Fajãzinha propiciou ao Bispo. Diz o Pe. Malhão: «— Pois saberá V. Ex,ª Reverendíssima que tudo o que está destas portas dentro pertence-me e é obra minha, incluindo as tochas e também os tocheiros — disse-lhe o Vigário».

 «O bispo olhou para os rapazes, que continuavam imóveis no seu posto e lambendo os beiços, em melífluo sorriso, a todos deitou a sua respeitável bênção. Bons tempos aqueles…» — concluiu o Sr. Ramos.

Esta casa típica da freguesia da Fajãzinha podia ter sido a casa do Sr. Ramos, onde o escritor faialense Ernesto Rebello situa a noite de Reis da sua história. Desenho do Eng. Sérgio Paixão.

« — Está visto que sim — respondeu  ainda o [músico] do bombo — eu cá houve tempo em que o Vigário de minha freguesia era o Pe. Malhão, bom homem, muito dado, muito relacionado que na área da sua paróquia contava, segundo reza crónica, quarenta descendentes, por isso pode avaliar-se o que é a gente nascida ali, digo-o sem orgulho».

 «— Quarenta!... parece exagero ainda que…».

«— Pois olhe que é puríssima verdade e para prova é que no folheto dos ‘Sete Pecados Portais’, escrito aqui na ilha, mas impresso em Lisboa, o tal Vev.º Vigário figura como representante do 3.º pecado. Aquela brincadeira, honra lhe seja, foi feita pelo Pe. Camões, nosso patrício». 

« — Este diabo é um almanaque — acudiu o mais novo dos rapazes que tocava ferrinhos, — que era esse Pe. Camões, desse nome nunca ouvi falar senão num que, há muitos anos, escreveu versos e meu avô tem um livro dele que se chama os Lusíadas».

«— Aquele de que eu trato era outro, natural aqui das Flores e que possuía a melhor biblioteca talvez dos Açores. Quantos livros vocês por aí encontram ainda, eram seus, e escreveu também o ‘Testamento do Burro’, que é obra bem acabada e na qual não se esquecia de muitas desta terra».

«— O Pe. Camões! — disse ainda o velho Ramos — conheci-o perfeitamente, tinha a mania de ser ouvidor nas Lajes e por isso indispôs-se com muitos colegas daqui, eram trinta câes a um osso, a quem não o poupava ele pagava-lhe na mesma moeda (13). Morreu pobre haverá uns trinta e cinco ou quarenta anos e, diga-se a verdade, homem mais generoso jamais conheci, quanto ganhava quanto dava».        

E Manuel Ramos acrescentou: «— Só a papelada que ele deixou quando morreu e tudo puxado da sua cabeça”.

« — O que não dispõe muito a favor do seu bom senso, para que demónio se punha o Padre Camões a cansar cá na ilha?... Olhe  Sr. Ramos, eu cá em tendo o meu bombo em perfeito estado e duas ou três raparigas de truz a quem arraste a asa, estou nas minhas quintas, não me importo em mais nada. Se eu a esta hora estava na Fajã-Grande…».

«— Havias de fazer grandes coisas, não há dúvida — disse-lhe um dos companheiros — o que me parece é que o tal padre Camões se vivo fosse não deixava de te incluir nos seus versos, aplicando-te uma boa sova». 

« — Se fosse bem dada, não me queixava».

«O Ramos acrescentou ainda»:

«— Que ele tinha bastante graça, era ponto de fé e conservou sempre aquele génio alegre até à última hora. Quando o Padre Camões, que passava a vida a ler e a fazer versos, enfermou gravemente, já idoso, pobre e ralado de desgostos, eu muitas vezes ia visitá-lo, porque éramos então vizinhos e disse-me por várias vezes que tinha uma gaveta cheia das suas obras, mas disso tudo deram, depois, cabo os herdeiros. Até um irmão dele, também clérigo e que fora frade foi o mais empenhado nisso, pois dizia sempre que era o diabo quem lhe inspirava tais cantigas». 

«— Pedaço de burro!»

«— Lembro-me até, foi no derradeiro dia da sua existência, o Padre Camões já estava muito fraquinho, fui vê-lo de manhã e em quando lá estava chegou o irmão, que de há muito não o procurava. O Camões sorriu e disse-lhe: Tu por aqui?! ... ora ainda bem, sempre somos irmãos e nestes momentos esquece-se tudo…»   

E o Sr. Ramos continuava a contar histórias, agora a relativa ao seu ilustre conterrâneo, Padre José António Camões, baptizado na freguesia da Fajãzinha em 13 de Dezembro de 1777 e falecido na freguesia de Ponta Delgada das Flores em 18 de Janeiro de 1827 (13-A).                                                                         (Continua)

 

(13). Rebello, Ernesto, “Uma Noite de Reis na Freguesia da Fajãzinha”, “Arquivo dos Açores”, (1885), p.170, republicado em 1982 pelo Universidade dos Açores - Ponta Delgada.

(13-A). Trigueiro, José Arlindo Armas, “Obras”,  (2008), pp. 21-35, edição da Câmara Municipal das Lajes das Flores.

 Coordenação de José Arlindo Armas Trigueiro

 

 

  

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