Um picaroto é um faialense desconfiado… E um faialense é um picaroto maldisposto… Ambos gostam de música e são calmos por fora e muito agitados por dentro.
Bem sei que é sempre perigoso enveredar por generalizações deste tipo, mas, ironias à parte, conscientemente aqui venho arriscar alguns traços distintivos entre faialenses e picoenses que resultam da minha vivência de 30 anos na ilha do Faial. E o que, desde já, se me oferece dizer é que os dados da experiência mostram claramente que faialenses e picarotos são irmãos desavindos condenados ao entendimento.

Sim, o Faial e o Pico, ilhas irmãs, não passam uma sem a outra, apesar de alguns bairrismos históricos… Resquícios, afinal, do tempo em que os faialenses mais abastados eram os proprietários e os donos das terras do Pico, sendo os picarotos gente operosa: os rendeiros, os feitores, os quinteiros, os vinhateiros, os caseiros, e os trabalhadores de morgados, barões, fidalgos e de outros senhores do Faial…
O faialense fez da montanha do Pico objeto diário da sua contemplação estética, arranjou sempre maneira de não se esforçar demasiado, até porque tinha outros a trabalhar por ele e para ele… Além disso, convirá não esquecer que muito do desenvolvimento faialense está ligado ao contributo estrangeiro: os flamengos que cultivaram e exportaram o pastel e a urzela; a família norte-americana Dabney e os negócios da vinha, da laranja, da baleia e do apoio à navegação; os ingleses, os americanos e os alemães dos Cabos Telegráficos Submarinos, os rebocadores holandeses e o iatismo internacional que, no Faial, deixaram marcas profundas a nível do social, do económico, do cultural e do desportivo …
Apelidado de arraia-miúda, foi o picaroto que desbravou o difícil e penoso solo, levantou a enxada mais alto e a cravou mais fundo, rebentando a crosta queimada para poder cultivar a vinha que protegeu com muros soltos de pedra lavosa; foi o homem do Pico que concebeu os maroiços (recordo aqui a frase lapidar do saudoso António Duarte: “Os maroiços são a epopeia de pedra do homem do Pico”), ensaiou as culturas, garantiu as subsistências.
Devido a esse tremendo esforço físico, e tendo ainda em conta fatores que se prendem com o património genético – e cá vai mais um dado para esta minha especulação empírica – o picaroto é, em média, mais alto, mais vigoroso, mais rijo, mais entroncado e tem mais arcaboiço do que o faialense. Vê-se a olhos vistos. De igual modo, a mulher do Pico é, percentualmente, mais alta e mais corpulenta do que a mulher do Faial.
“Os homens do Pico são os homens mais sãos que conheço. Vejo-os diante de mim como torres e um olhar que não engana”, escreveu Raul Brandão em As Ilhas Desconhecidas (1926).
Também Vitorino Nemésio sabia do que falava quando escreveu: “O picaroto é a nata das ilhas e, em verdade, nenhum açoriano se lhe avantaja na conceção séria da vida”, Corsário das Ilhas (1956).
O facto de eu há três décadas residir no Faial, ser natural da Graciosa e ter vivido dez anos na Terceira deixa-me à vontade para dizer isto: a maior beleza natural do Faial é mesmo o Pico – espetáculo e barómetro de todo o ano para os faialenses. É claro que a vingança picarota serve-se fria e em doses de catártica ironia: “O melhor que o Faial tem é a lancha para o Pico”, ou aquela de se avistar, da Madalena, “três ilhéus: o Deitado, o em Pé e o Luminoso” (sendo este último referente ao Faial em frente)…
Para as gentes do Pico acabaram-se para sempre as mordomias e as subserviências para com os faialenses que, supostamente, não lhes deixam espaço para o desenvolvimento. Ripostam os faialenses que andam fartos dos canoros queixumes dos picarotos.
(Se Freud fosse para aqui chamado, eu diria mesmo que estamos perante uma questão edipiana mal resolvida)…
Estou a tecer diferenças que são ancestrais e profundas: o faialense é mais mar do que terra. Isto é, o Faial, através da sua cidade, desde muito cedo evoluiu para o mar, pois que sempre esteve dependente dele e do que dele (pro)vinha – comércio marítimo, reabastecimento de frotas, porto de acolhimento, reparação e repouso das tripulações. A partir de finais do século XVIII a Horta abriu-se a gentes de todas as raças e de todas as proveniências. Tal circunstância padronizou a vida, os hábitos e os costumes dos faialenses. Estes, já no século XIX denominados “contrabandistas espertos”, souberam disso tirar partido: adaptaram-se a essa coabitação e assim se tornaram “ilustrados”, “cultos” e “hospitaleiros”, adjetivos recorrentes na literatura de viagens do século XIX.
Inversamente o picaroto é mais terra do que mar. E isto porque o Pico, ”ilha maior”, virou-se para dentro de si próprio, para o interior dos seus numerosos povoados, para o trabalho da terra (o do mar foi sempre um complemento), revendo-se, com orgulho, na sua esplêndida e assombrosa montanha, fonte de todas as energias, magias e meteorologias. Sim, o Pico é uma ilha poética e profunda!
O que no picaroto é aspereza, no faialense é “cosmopolitismo”. O picaroto é aferro ao trabalho. O faialense é preguiça contemplativa. O picaroto tem manha e sotaques mil. O faialense tem a soberba flamenga. O picaroto é destemido e tenaz. O faialense é indolente e exuberante. O Pico é ruralidade, casticismo e tradição. O Faial é urbano, gosta de iates e tem a cultura náutica da “Semana do Mar”…
Há 30 anos que me encanta assistir a tudo isto nos dois lados do Canal. E podem crer: je m´ amuse, que é como quem diz – divirto-me à brava.