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10
agosto

A Besta, uma história do imprevisto e o imprevisível

Escrito por  Victor Rui Dores
Publicado em Victor Rui Dores
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Já o disse e repito: a minha portugalidade renasce e amplia-se na minha açorianidade. 
Numa época em que, nos Açores, tanto se fala de Currículo Regional, venho recomendar-vos a leitura de A Besta (Coleção de Literatura, LABJOVEM, Associação Cultural Burra de Milho, Direção Regional da Cultura, Junho, 2012), da autoria do jovem faialense Flávio Fraga da Silva. Trata-se de uma narrativa bem urdida e bem carpinteirada sob o ponto de vista narrativo, e que não deixa de ser um apreciável contributo para a revitalização da história local, no caso em apreço, a Batalha da Salga.
Com uma capa que serve, e bem, os propósitos do livro, A Besta é um conto de ficção enraizado numa realidade histórica, já que o autor evoca, invoca e convoca o tempo da resistência da ilha Terceira à ocupação filipina, em pleno século XVI. 
História coesa e consistente, escrita com grande poder evocativo e boa capacidade expressiva numa prosa fantasiosa, ágil e volúvel, o conto A Besta (que numa primeira versão teve o título de “Império Quinto”) está perfeitamente equilibrado e apoiado em 3 eixos: narração, descrição e coloquialidade (com diálogos que são um mimo de linguagem arcaica, pois que do português quinhentista se trata). 
Escondendo-se atrás de um narrador autodiegético, misturando memória histórica com criação literária, Fraga da Silva conta, com notável poder de observação e extraordinária pormenorização, uma história: a de um jovem terceirense, Amadeu Pamplona, traficante de ouro, cujo negócio se encontra em fase de declínio. Enterrado em dívidas, e para fugir à penúria e recuperar a fortuna de outros tempos, concebe um plano no mínimo insólito…
De facto estamos perante uma história do imprevisto e do imprevisível, a roçar o realismo mágico: Amadeu Pamplona pretende que o seu porco, “Fuças”, “uma besta do tamanho de um touro”, seja corrido numa tourada como se de um toiro se tratasse… Crê o povo que o suíno, com um olho de cada cor, está possesso do demónio já que é dado a estranhos comportamentos, súbitas “cabeçadas” e inusitadas correrias… Matilde, a mulher de Amadeu, acha que o animal devia ser abatido. Mas o marido tem uma ideia fixa: um porcino a fazer de toiro, porque não? Então enfia na cabeça do “Fuças” “um par de galhos de cedro”, ensina-o a marrar e consegue convencer Alfredo do Canto, “patrão-mor das touradas”, que o porco está à altura de se comportar como um verdadeiro toiro, e promete que de tal façanha poderão resultar proventos económicos para ambos…
 No dia da tourada, o porco revela mansidão e é o descalabro total e a chacota do “povaredo”. Só que alguém teve a luminosa ideia de pontapear o escroto do animal com tal violência que o porco arranca disparado, atropelando, aos guinchos, tudo e todos à sua frente, culminando com uma tremendíssima investida no próprio Amadeu que o projeta para longe e o mata…
Dezasseis anos depois deste acontecimento, acontece a Batalha da Salga e Cristóvão, filho de Amadeu, nela participa do lado das forças de D. António Prior do Crato. Mero pretexto (ou pré texto) para uma evocação à Batalha da Salga, recontro travado no dia 25 de Julho de 1581, na baía da Salga, Porto Judeu, na jurisdição do extinto concelho da vila de S. Sebastião, ilha Terceira, entre uma força de desembarque a mando de Filipe II de Espanha, e as forças portuguesas em nome do Prior do Crato. Estas defendiam a ilha em oposição à união pessoal com Espanha, no contexto da crise de sucessão de 1580. Um tal Frei Pedro concretizou a ideia de lançar grande quantidade de gado bravo sobre os espanhóis que tomavam de assalto a costa da ilha. O gado investiu com tal fúria sobre os invasores, causando pesadíssimas baixas, sendo a tropa castelhana dizimada e derrotada. (Jogando com o simbólico, o narrador ao descrever as arremetidas do gado vaccum, dá também conta de um porco – da “linhagem” do “Fuças” – a arremeter contra os nuestros hermanos)… 
À conta do mencionado pontapé nas partes baixas do suíno, a história bem que poderia resvalar para o pitoresco ou para o divertimento hilariante. Mas o autor, avisadamente, soube dar seriedade temática à narrativa. E recorda que, três anos antes da Batalha da Salga, ocorrera a batalha de Alcácer-Quibir e relaciona os dois eventos. Fala de D. Sebastião e dá conta da coincidência do nome do monarca e do seu infortúnio em Alcácer Quibir com o nome da vila, hoje freguesia de S. Sebastião, onde ocorreu o confronto da Salga; recorda a ação da mítica Brianda Pereira (a auxiliar os feridos) e as orientações dadas pelo governador Ciprião de Figueiredo.
(Ora aí está: um caldinho de Currículo Regional nunca fez mal a ninguém).
 A Besta abre com a citação de um antigo adágio português: “Com um pedaço de toucinho leva-se longe um cão”. Ou seja, simbolicamente o livro remete-nos para os sonhos desfeitos e para as ilusões perdidas de todas as personagens evocadas, desde o rei D. Sebastião ao protagonista Amadeu. E ainda hoje aquele ditado é válido, porque nunca como agora fomos enganados pelos diversos poderes que, em tempo de troika, controlam e condicionam as nossas vidas. O que está a acontecer ao nosso país é uma verdadeira bestialidade…
Apreciei, neste livro, o enfocamento visual na maneira de contar. Por exemplo, as analepses (ou os flashbacks, para utilizar uma linguagem cinematográfica) e as prolepses (que consiste em evocar um acontecimento ulterior da história que está a ser contada), o que dá ao conto vastas potencialidades fílmicas. Temos, por exemplo, o raccord cinematográfico dos planos do sangue do pai Amadeu (vítima da investida do “Fuças”) com o sangue do filho Cristóvão, que se encontra ferido no campo da Salga; os planos-sequência de Brianda Pereira que vem socorrer Cristóvão e este, delirante, vê no rosto de Brianda a face de Matilde, sua mãe; e ainda os planos do nevoeiro, associado ao mito sebastianista, com a fumarada dos arcabuzes e da artilharia durante a Batalha da Salga. Em cinema teríamos aqui um movimento de câmara de cima para baixo, seguindo-se um longo travelling sobre os despojos da guerra… Não haverá por aí um cineasta de curtas, médias ou longas metragens que queira pegar nestas dicas?
No fundo esta é uma história sobre a condição humana. As personagens, frenéticas e tumultuosas, são perseguidas pelo infortúnio e pelo sobressalto, vivem num universo abrasado e perturbador e movimentam-se no contexto telúrico da ilha: para além dos já citados, temos ainda Tomé zarolho e Brás camaleão, personagens quase saramaguianas.
Numa altura em que muita gente embarca em semióticas de texto e em outras escritas barrocas e gongóricas, e num tempo em que alguma da nossa literatura contemporânea anda contaminada de desconstrutivismo aventureiro e de hermetismo barato, é no mínimo consolador ler um livro como este que tem uma história para contar.
Temos escritor!
 
 
Nota: Flávio Fraga da Silva é filho de Heitor H. Silva, poeta bissexto e bancário todos os dias… 
 
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