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22
fevereiro

NÃO SERÁ A ALTURA?

Escrito por  Jorge Costa Pereira
Publicado em Costa Pereira
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1.No passado mês de Outubro, o jornal Correio dos Açores, publicou um trabalho noticioso sobre os clubes dos Açores que recebem verbas e apoios oficiais para pagar aos seus treinadores. Porque se trata de um tema que é de muitos desconhecido, reproduzo de seguida parte dessa notícia, embora alguns dos protagonistas aí referidos, já tenham, entretanto, mudado:

“Carlos Dantas tem previsto receber no período de duração do contrato 48.488 euros, sendo o Candelária, que milita na I Divisão, subsidiado em 18.250 euros, valor máximo que a Direcção Regional do Desporto (DRD) entrega aos clubes nesta temporada. (…)

O segundo treinador mais bem pago, com metade do vencimento auferido por Carlos Dantas, é o do Clube Naval da Horta. Serão 24 mil euros para o técnico, com a DRD a suportar 18.250 euros.

O terceiro treinador com melhor salário é Filipe Duque. O responsável da equipa de andebol do Sporting da Horta tem previsto receber 22.800 euros. O clube faialense também recebe 18.250 euros. (…)

No ‘ranking’ do apoio aos técnicos que possuem cédula, qualificação e que estão a tempo inteiro nas equipas, surgem os treinadores de futsal e de futebol do Operário.

Ricardo Canavarro, da equipa de futsal, tem um contrato com duração inferior a 10 meses estipulado em 22 mil euros. O mesmo valor é apontado a Francisco Agatão. (…) O Operário irá receber 18.250 euros por cada um.

Paulo Barreto, do Ribeirense do Pico, tem o contrato com 20.277,80 euros. (…) Para o clube bicampeão nacional de voleibol feminino vai 18.250 euros.

Ainda na casa dos 20 mil euros (20.100), está Carlos Luz, treinador do Judo Clube de S. Jorge. O valor destinado ao clube é de 18.090 euros.

As equipas de ténis de mesa destinam aos seus técnicos verbas que variam entre os 15.600 euros (Casa do Povo da Madalena, que terá 13.950 para a época na I Divisão feminina) e os 18 mil euros. Esta verba está destinada para os treinadores das equipas masculina e feminina de “Os Toledos”, ambas militantes na I Divisão. 13.950 euros é quanto o clube da Vila da Madalena receberá por cada técnico.

Em relação ao Desportivo do Juncal, o treinador da equipa feminina tem um contrato com um custo previsto de 18.403 euros (13.950 para o clube) e Francisco Santos, da equipa masculina, tem previsto receber 15.400 euros (13.860 euros).

Para encerrar o lote de 12 equipas, máximo previsto na portaria que determina estes apoios para treinadores qualificados, encontra-se Carlos Silveira do Clube K. O custo é de 9.750 euros (8.775 euros para o clube). No entanto, é bem possível que receba do clube uma outra verba porque tem na equipa de voleibol a dupla função de treinador e de jogador. (…)”

2.A leitura desta notícia e a realidade que ela espelha, merecem-me algumas interrogações. Reconheço a clareza da regulamentação da DRD (o mesmo não se poderá dizer dos apoios dados pela Direcção Regional de Turismo a alguns clubes sob a mais que discutível capa de “promoção dos Açores”). Reconheço os bons resultados desportivos de algumas das equipas que são citadas na notícia. Reconheço a boa gestão de muitas dessas equipas. E reconheço que esta legislação foi produzida em época de abundância de dinheiros públicos, o que sendo um contexto, não justificará tudo.

Os tempos, porém, mudaram radicalmente. Os recursos públicos sempre deviam ter sido usados não só com parcimónia, mas sobretudo com a preocupação de serem canalizados para aquilo que é verdadeiramente estruturante e impulsionador do desenvolvimento sustentado.

Justifica-se, neste período de crise em que vivemos e em que os recursos públicos são cada vez menores, a manutenção deste tipo de apoios? É que não são só os apoios que existem para os clubes pagarem treinadores. Há também os apoios para os transportes. Há os apoios às deslocações, pagos à razão de 75 euros diários por cada atleta. E se somarmos ainda a estes apoios governamentais, aqueles que muitas autarquias por essas ilhas fora atribuem a equipas do seu concelho, então os verdadeiros números dos dinheiros públicos que circulam no desporto profissional dos Açores atinge números verdadeiramente significativos.

E isso sempre nos devia ter obrigado a avaliar os resultados desta política. E agora ainda mais se impõe e se exige que se faça essa avaliação, de forma justa, equidistante e desapaixonada. Que impacto teve esta política de subsidiação no desenvolvimento desportivo dos nossos jovens? Que percentagem de atletas açorianos, formados nos Açores e nas equipas açorianas, é titular e joga habitualmente na equipa principal? A realidade desportiva dos Açores é a das equipas que participam nos nacionais ou é outra diversa? Justifica-se este altíssimo nível de subsidiação para manter um equívoco profissionalismo desportivo, que possui pés de barro e que é absolutamente insustentável sem os apoios oficiais? E que profissionalismo queremos ou podemos ter nos Açores? Não seria mais eficaz canalizar os apoios oficiais maioritariamente para a formação das nossas crianças e jovens?

3.Dir-me-ão alguns: esta movimentação de equipas estimula a economia local. É verdade que sim. Mas estamos sempre no mesmo círculo vicioso: o dos dinheiros públicos a alimentar de forma artificial a economia em projetos que, embora desportivos, são profissionais, envolvem orçamentos significativos, pagamentos a uma legião de jogadores e de técnicos que só cá estão de passagem, e que só se sustem com os apoios públicos e que sem eles não teriam sequer nascido!

Prezo muito o desporto e a prática desportiva. Tenho grande consideração pelos inúmeros dirigentes que retiram tempo ao seu descanso e às suas famílias para se dedicarem aos seus clubes e aos seus atletas. Entendo que todo o dinheiro que é aplicado no desenvolvimento desportivo e na formação desportiva das crianças e jovens é um investimento do qual retiraremos o devido retorno na saúde e na sã formação que é dada aos atletas.

Mas o profissionalismo desportivo é outra coisa. E é esse que exige ser repensado e avaliado.

E urgentemente. É que há distorções inaceitáveis: quem compreenderá que, para apoiar a deslocação de um atleta numa competição desportiva, o governo regional atribua ao clube, por cada atleta, uma diária de 75 euros; mas esse mesmo governo, apenas concede a um doente que se tem deslocar da sua ilha de residência uma diária que vai até 25 euros?

Não será altura de rever tudo isto?


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