Se excluirmos o restrito grupo de privilegiados que vai escapando à austeridade através da aplicação do regime de “excepção”, toda a restante população vai sentido na pele, uns de forma mais intensa outros menos, os efeitos da severidade que nos é imposta de várias formas e em muitas frentes. Muitos são os intelectuais dos vários quadrantes da sociedade que são perentórios em afirmar que Estado, famílias e cidadãos andaram durante muitos anos a viver acima das suas possibilidades, o recurso ao crédito/endividamento foi a via mais fácil, só que neste momento a factura está a ser paga e pelos vistos com juros de mora. Muitas são as vozes que vão tentando “injectar” ânimo e positivismo no seio das famílias e dos cidadãos, para que os sacrifícios sejam aceites de forma menos penosa. Inclusivamente há já quem vislumbre no fim do túnel a tal curva ascendente da retoma e os consequentes dias em que a austeridade começará a abrandar. Pois bem, sou céptico e afirmo que o pior ainda está para chegar. Do mesmo modo que sou pragmático em afirmar que os cortes nos apoios financeiros às Instituições Desportivas na Região Autónoma dos Açores tinham de acontecer, como não tenho dúvidas que os apoios nunca deveriam ter atingido os montantes a que chegaram. Se tal tivesse acontecido, muito possivelmente algumas Instituições teriam sido mais comedidas na sua gestão financeira, não chegando a situações insustentáveis e de quase estrangulamento financeiro. É evidente que fruto da actual conjuntura económica, nos últimos três anos, os cortes nos apoios foram-se acentuando, o que deixa muitas Instituições/Colectividades num sufoco financeiro tremendo, perspetivando-se que o futuro próximo seja mesmo uma incógnita.
A solução passa claramente por apostar num processo de disciplinarização na gestão dessas mesmas Instituições/Colectividades, processo esse que só poderá ser levado a cabo se realmente quem dirige os destinos destas mesmas Instituições/Colectividades (Associações, Clubes, Agremiações, etc.) arrepiarem caminho, optando por políticas de compromisso, tendo por base uma gestão realista/rigorosa/apertada coadunada com o actual panorama sócio-económio da Região e do País.
“Não há vício que se não esconda atrás de boas razões; a princípio, todos são aparentemente modestos e aceitáveis, só que aos poucos vão-se expandindo.” Séneca
Impõe-se uma rutura com o passado recente, que assentou em políticas desportivas claramente irrealistas e insustentáveis do ponto de vista económico, urge mudanças de atitude, comportamentos, de forma a permitir que a essência do desporto continue bem patente nas Colectividades desportivas açorianas, podendo assim manter o seu papel primordial, que é exactamente o de contribuir para a formação do atleta em si, mas principalmente do atleta enquanto homem.