1Assim se chama o livro de Guilherme Valente, dado à estampa no ano passado pela Editorial Presença e que devia merecer uma leitura atenta e crítica de toda a comunidade educativa, designadamente de pais e professores.
Como no livro escreve o Professor Carlos Fiolhais, da Universidade de Coimbra, “um dos maiores problemas que Portugal enfrenta é o da qualidade do seu sistema de ensino. Instalou-se nesta área um pensamento único, pretensamente igualitarista, baseado em ideias românticas sobre a educação, cujas consequências têm sido devastadoras, principalmente para os mais desfavorecidos. Como todas as formas de pensamento único, é totalitário: foi-se apoderando da máquina do Ministério da Educação para, através de engrenagens kafkianas, tomar conta dos professores e das escolas. Guilherme Valente foi uma das poucas vozes a apontar o absurdo e a opressão. Em várias intervenções públicas, a maior parte reunidas neste livro, apontou corajosamente quão grotesco e nefasto era um sistema que se expressa através do ‘eduquês’ (‘aprender a aprender’, ‘aprendizagem por descoberta’, ‘menos é mais’, etc.) para exercer o seu poder, mas que, conforme tão bem assinalou, não passa afinal de uma ideologia perigosa.”
2 Como reconhece no livro o seu autor, “começámos há mais de 20 anos a fazer o diagnóstico da educação e a prever os resultados do modelo imposto à escola portuguesa. Éramos então muito poucos, não mais de uma dúzia, e disseram tudo para nos calarem.
Distraída, a inteligência portuguesa, na sua esmagadora generalidade, não se apercebeu do que estava em curso. O terreno e o tempo foram favoráveis à pandemia. O facilitismo tornou-se uma vantagem para toda a gente.
Hoje as suas consequências terríveis não passaram a ser visíveis apenas nas crianças pobres e desfavorecidas. Tiveram efeitos gerais que afetam a vida do país.
«Porquê repreender um aluno que chega mais tarde à aula? Isso é um tipo de nazismo disfarçado […] Obrigar as crianças a obedecer a regras comuns […] é reduzir o ser humano a um animal social.» «Uma criança que não agride é possível que esteja a desenvolver uma patologia, é uma criança em perigo», escreveu e pregou uma das fontes inspiradoras do eduquês (Françoise Dolto).
Aceites ou cultivadas na escola, a ignorância, a permissividade e a agressividade – que induzem a violência – explodem no meio escolar e, em vez de aí serem enfrentadas, são catalisadas para todos os registos e manifestações da sociedade. Surgidas como reação a um ensino repressivo e autoritarista, igualmente condenável, estas teorias – o ‘ensino centrado no aluno’ -, centraram, afinal as crianças e os jovens em si próprios, desvinculando-os da responsabilidade para com os outros, que alimenta a consciência moral. Para os pais, o exercício da autoridade converteu-se numa fonte de dúvidas e de sentimentos de culpabilidade.
Como prevíramos, 30 anos de eduquês tornaram o país mais ignorante, incompetente, egoísta, pasto fértil dos corruptos, mentiroso, boçal e brutal. Uma evidência quotidiana.”, conclui Guilherme Valente.
3 Hoje, face à realidade e aos resultados, algumas coisas vão mudando nas escolas. “O eduquês não quer exames, nem metas verdadeiras, claras e adequadas, nem programas rigorosos e realistas, nem exigência, nem trabalho, nem desafios. Quer tudo fluido e indefinido para ninguém saber o que lhe é pedido, a frustração a destruir a vontade e a motivação de professores e alunos.”
À medida que se alargam os exames nacionais, se implementam as metas de aprendizagem, se exige mais trabalho, disciplina e empenho na escola, estão-se a dar passos no sentido de combater os efeitos de décadas de políticas erradas na educação em Portugal.
A leitura deste livro é um excelente pretexto para a discussão e para a análise dos caminhos que a educação percorreu em Portugal no pós -25 de Abril. E é também de grande utilidade para compreendermos muitas das opções que se tomaram.
Assumidamente cético sobre o futuro, Guilherme Valente reconhece, a terminar o seu livro que “é natural que nos primeiros anos o eduquês tenha deslumbrado e enganado muita gente, mesmo alguém com a inteligência brilhante de um bem-intencionado, mas deslumbrado, Roberto Carneiro. E quem, então não ficaria deslumbrado com a promessa ou a visão do paraíso? Os meninos aprenderem sem terem de estudar nada, “aprenderem a aprender” sem aprenderem nada, sem precisarem que ninguém lhes ensine nada, sem serem contrariados nos seus desejos e impulsos mais primários, eles mesmos a decidirem o que devem aprender (…), a sala de aula prolongamento do recreio, os paizinhos sem precisarem de os mandar estudar, de os acompanhar no estudo, etc. Flores e cantos celestiais. (…)
Mesmo para os que duvidaram terá sido difícil resistir à experiência. Mas hoje? Depois de mais de trinta anos de disparates tão óbvios, de resultados tão trágicos? Quem poderá apoiar tal delírio?”