A efervescência multipartidária da vida política portuguesa motivava a implantação das diferentes tendências políticas nas ilhas açorianas, sobretudo a partir das respetivas capitais de distrito. Na cidade da Horta, por exemplo, tanto se movimentava o Grupo Democrático Faialense como se organizava o Partido Popular Democrático.
As reuniões eram mobilizadoras e participativas, à medida do Ginásio do Liceu, como se depreende deste comunicado do Grupo Democrático Faialense, já então especialmente dinamizado por José António Martins Goulart:
“O Grupo Democrático Faialense, inspirado no espírito da revolução, promove uma reunião pública, pelas 19 horas do dia 29 do corrente mês, no Ginásio do Liceu Nacional da Horta, a fim de que, por voto secreto, seja conhecido o desejo popular. Ordem dos trabalhos: 1 – Leitura de um trabalho explicativo dos propósitos do Grupo Democrático Faialense, pelo Engº Martins Goulart. 2 – Votação dos membros para a formação da Comissão Administrativa da Câmara Municipal da Horta. 3 – Indicação dos nomes das pessoas com cargos públicos que se desejem substituídas. Viva Portugal! A Comissão Organizadora” (Correio da Horta, 28 de junho de 1974).
Enquanto o Grupo Democrático Faialense já enchia o Ginásio do Liceu, o PPD ainda dava os primeiros passos com a constituição do Núcleo Regional da Horta. A reunião fundacional ocorreu a 7 de julho e a informação posterior foi assim dirigida ao diretor do jornal O Telégrafo:
“Sr. Diretor: No dia 7/7/74 reuniu-se nesta cidade um grupo de pessoas que, depois de se identificar com as “Linhas para um programa do Partido Popular Democrático – PPD” decidiu constituir o Núcleo Regional da Horta do PPD, pelo que pedimos se digne publicar no jornal que dirige as “Linhas para um programa” do PPD. A Comissão Promotora: Augusto Goulart Sequeira (Funcionário D.G. Aeronáutica Civil), Avelino Santos Silva (Empregado da Previdência), Francisco da Silva Ávila (Empregado bancário), Jaime Pereira dos Santos (Funcionário D.G. das Alfândegas) e João Resendes Corvelo (Funcionário D.G. Aeronáutica Civil)” (O Telégrafo, 10 de julho de 1974)
E enquanto se iniciava o processo de implantação dos novos partidos políticos portugueses, questionava-se a permanência dos distritos autónomos de Ponta Delgada, Angra do Heroísmo e Horta que teimavam em repartir o arquipélago por três diferentes grupos administrativos.
O Correio da Horta, agora dirigido por Fernando Faria Ribeiro, ‘pôs o dedo na ferida” em Editorial de 17 de julho, sugestivamente intitulado “Açores – Região unida ou ilhas divididas?”:
“Ilhas do fim do mundo, durante várias centúrias divididas e terrivelmente isoladas, tempo se vai fazendo de caminharmos de mãos dadas para a prossecução das nossas necessidades mais urgentes. Conhecer as realidades desta Região, parece-nos ser de inadiável premência. E temos de ser nós, açorianos, os primeiros a sentirmos tal preocupação.” (Correio da Horta, 17 de julho de 1974).
Aliás, o vespertino faialense vai ainda mais longe numa edição da semana seguinte, com um texto assinado por “J.P.” que insere na sua capa sob o título “Autonomia administrativa”:
“Três distritos, dividindo cerca de 300.000 almas. Dezanove concelhos, retalhando as nossas ilhas. Três Juntas Gerais, aplicando com critérios diferentes as magras verbas de que dispõem para fomento económico. Três Governadores Civis, assegurando uma presença firme do Governo Central a impor-se sobre as populações. Toda uma máquina administrativa ultrapassada que urge rever em termos de dar resposta às nossas necessidades e aspirações.” (Correio da Horta, 26 de julho de 1974)