A revolução demográfica e a longevidade que assistimos nas sociedades contemporâneas será concerteza umas das principais conquistas civilizacionais operadas nas últimas décadas. E para termos a verdadeira percepção dos ganhos de anos que almejamos viver, basta fazer o seguinte exercício comparativo: apurar a esperança média de vida (EMV) existente no ano em que nascemos e a existente atualmente que é em média 79 anos.
Pela perspetiva demográfica, facilmente constatamos que tivemos inequívocos ganhos em anos de vida, e ao longo das últimas décadas acrescentámos cerca de 30 anos, em que todos nós concerteza estaremos interessados em atingir o atual marcador de EMV (79 anos), e se possível superá-los com qualidade de vida. Contudo torna-se cada vez mais exigente aos indivíduos e às estruturas sociopolíticas otimizar o último terço de vida de forma competente e se possível bem sucedida.
Mas, estes ganhos foram sustentados em quê? Através da sobeja conhecida melhoria biotecnológica, de novos medicamentos, avanços na prestação de cuidados de saúde e da evolução do próprio sistema de segurança social. Não obstante e olhando ao histórico da despesa pública nacional deteta-se que o sistema de saúde passou de 8,4% para 9,2% do PIB entre 2001 e 2010, havendo uma evolução ainda mais exponencial no sistema de segurança social que, durante o mesmo período disparou de 10,3% para 18% do PIB. Esta prevalência crescente reflete de facto um extraordinário alargamento da provisão pública nestes domínios nos últimos anos. Por conseguinte, importa questionar: será que os ganhos em saúde e de proteção social foram acompanhados de ganhos de qualidade de vida sobretudo para as pessoas idosas? Os cuidados curativos, cuja maior incidência recaem sobre as doenças crónicas são eficientes? Haverá alguma estratégia orientadora para outros cuidados para além dos curativos?
Claro que sim. Através da terceira rede de cuidados – cuidados continuados integrados - que interage e complementa com as duas principais redes de cuidados (cuidados saúde primários e hospitalares), sendo que nos Açores é ainda inaceitavelmente incipiente ou inexistente. Interroga-se, esta evidência é motivada por razões de desequilíbrios das contas públicas regionais ou por razões de negligência na operacionalização de medidas revigoradas e avançadas de proteção pública sustentadas em eficiência e transparência?
A mítica reestruturação do serviço regional de saúde foi desenhada para entrecruzar com o apoio social permitindo atuar de forma efetiva e integrada, envolvendo potencialidades da sociedade civil e o principal “provedor de cuidados” – a Família, para prestar cuidados de longa duração e/ou paliativos?
Mas a realidade é incontornável, perdurando altos índices de envelhecimento nas ilhas do Faial (100), Pico (140), São Jorge (129), Graciosa (141), Flores (132) e Corvo (130), muito acima da média regional (74) e nacional (131), que espelham bem um envelhecimento demográfico estrutural. Onde a par destas são as que detém menores rácios de profissionais da saúde e as maiores taxas de mortalidade quer seja do aparelho circulatório ou de tumor maligno, ficando ambas abissalmente acima da média regional e nacional. Neste particular, estes fatores concorrem para alguma relação de causa-efeito?
Nesta conjuntura, a região também não vive imune às modificações económico-financeiras e às suas ondas de choque daí derivadas pelos programas de ajustamento “chancelados” por entidades internacionais.
Concerteza que, estes impactos atingem os vários setores da sociedade, mas estes inevitavelmente expõem ainda mais as fragilidades das pessoas com idade avançada, que as que vivem sós e em pobreza estrutural, ficam assim privadas ao acesso potencial de bens/serviços básicos de vida, vivendo estas múltiplas e verdadeiras austeridades.
Assumindo a evidência epidemiológica que pessoas idosas em posição social mais desfavorecida, duplicam a exposição ao risco de doença crónica ou diminuição de EMV sem incapacidade, precipitando por força destas circunstâncias infortúnias, chocantes abandonos moribundos ou fazem despoletar desumanas e atrozes distanásias prematuras.
Por tudo isto, atente-se na seguinte equação que envolve fatores já referidos: Equação Açores 2020: + população idosa – natalidade + > EMV – população ativa + despesa Estado Social – crescimento económico + prevalência de doença crónica e degenerativa – suporte familiar = défices multidimensionais.
Assim, perante desigualdades socioeconómicas e de acessibilidade em saúde, haverá ainda “autonomias” e bom senso suficiente desta “via açoriana” para ajustar tamanhas iniquidades?