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21
novembro

São Miguel, ilha do esplendor

Escrito por  Victor Rui Dores
Publicado em Victor Rui Dores
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Vim visitar a maior e mais populosa ilha dos Açores, terra abençoada que pariu nomes incontornáveis como Antero de Quental, Teófilo Braga, José Bensaúde, José do Canto, Roberto Ivens, Jácome Correia, Afonso Chaves, José Joaquim de Sena Freitas, Ernesto Canto da Maia, Armando Côrtes-Rodrigues, Natália Correia, Eduíno de Jesus, Cristóvão de Aguiar, João de Melo, Onésimo Teotónio Almeida, entre muitos outros. 

Neste dia de calor abafado, estou na ilha do ananás, do chá, do tabaco, do inhame, da espadana, da chicória, da beterraba e do açúcar mantidos pelos métodos de produção tradicionais. Aqui se situa mais de 50% do tecido empresarial do arquipélago.

Há quem visite São Miguel para contemplar a paisagem. Eu vim cá para sentir atmosferas e rever os amigos. Emudeço perante a beleza avassaladora desta natureza-mãe. Quando chego ao miradouro da Vista do Rei, e vejo todo aquele imenso e luminoso êxtase de beleza e tranquilidade, ecoam-me as palavras de Raul Brandão: “Um ah de assombro, um sentimento novo, um vago sentimento de surpresa… Pela primeira vez na minha vida não sei descrever o que vejo e o que sinto. (…) Desconfio que as Sete Cidades é também a alma duma paisagem. As grandes paisagens que morrem a alguma parte hão-de ir ter… É por isto que eu lhe sinto não sei o quê de estranho. Pertence à vida espiritual – é um fantasma de paisagem” (As Ilhas Desconhecidas, 1926).

A mim também todo este vulcanismo da terra me parece irreal. Considerada uma das Sete Maravilhas Naturais de Portugal, a Caldeira das Sete Cidades, com as suas lagoas adormecidas e cismáticas (uma é azul, a outra é verde), dá-me sempre uma ideia de perfeição e sinto a pairar aqui um sopro do divino… Por isso os poetas adjetivam tamanha beleza dizendo que estamos perante o paradisíaco, o edénico, o celestial… O meu olhar abismado de visitante sente o mesmo quando contempla a solidão mágica do Pico da Vara, o ponto mais alto de São Miguel. Ou a idílica Lagoa do Fogo, onde vejo cores de um outro mundo quimérico. Ou a esplêndida Serra da Tronqueira, onde habita o priôlo, ave endémica que só existe neste sítio. Ou o misterioso Vale das Furnas. 

Sim, as Furnas são um mistério esplendoroso. Com as suas 21 fontes termais, constituem uma das regiões hidrológicas mais ricas da Europa. Não escondo que tenho um fraquinho por piscinas termais. De manhã tomei banho na Poça da Dona Beija e à tarde deliciei-me na piscina de água férrea do Parque Terra Nostra. E, das minhas várias viagens a São Miguel, já tive a oportunidade de banhar o meu corpo na zona balnear da Caloura, na Caldeira Velha (Ribeira Grande) e na piscina natural do ilhéu da Vila Franca do Campo (“o anel da princesa”).

Mas hoje é nas Furnas que quero estar. Encho o peito de ar e olho as caldeiras que vomitam jatos impetuosos… A água ferve em cachão, borbulhando gases e jatos de lama. A Caldeira de Pêro Botelho, com seu barulho cavo e côncavo, causa temor e mete respeito. O ar está impregnado de gás carbónico e enxofre. Não me apetece saborear o cozido saído das entranhas dessas caldeiras sulfurosas. O que sei é que nesta respiração da terra sinto o carácter precário da existência humana… 

Esta é uma ilha marcada pela fé do seu povo laborioso. Dores. Promessas. Carga penitencial. Tristeza. Romeiros. E uma multidão de fiéis que venera a imagem piedosa do Senhor Santo Cristo.

Reafirmo: vim a São Miguel para sentir atmosferas. Sinto o silêncio e a força telúrica da Serra da Tronqueira e das lombas da Povoação. Esta foi a primeira terra de São Miguel com ocupação humana. E sinto uma enorme alegria por estar em Vila Franca do Campo, a primeira capital de São Miguel. E sigo depois para a Ribeira Grande, onde se erguem as únicas plantações de chá da Europa – porto Formoso e Gorreana. A oeste localiza-se a mais importante e conhecida vila piscatória de São Miguel – Rabo de Peixe, onde o falar é mais “cerrado”… E no Nordeste (a “décima ilha”, dizem alguns) respiro largos horizontes a partir os miradouros da Ribeira Despe-que-te-Suas, da Ponta do Arnel, da Ponta do Sossego e da Ponta da Madrugada. Assisti neste último ao mais fantástico nascer do sol de toda a minha vida. E a Lagoa é muito mais do que cerâmica.

Percorro a “ilha verde” e vejo plátanos, criptomérias, acácias, metrosíderos, dragoeiros, araucárias… E, por todo o lado, as vacas pastam nos cerrados e em lugares íngremes, ou então vagueiam livremente pelas estradas.

Regresso a Ponta Delgada, cidade sentada na esplanada e no muro da avenida marginal. A torre imponente da Matriz. E a vida de Antero de Quental que todos os dias se esvai à sombra dos muros do Convento da Esperança. Ruas estreitas. Portas da Cidade (passado). Portas do Mar (presente). Uma praça com arcadas, de traça neo-pombalina, serviços públicos… Gosto do luxo romântico destes parques e destes jardins botânicos. (Viva a família Hickling!). E gosto destas casas solarengas e senhoriais (de brasão e armas), destes palácios (o da Conceição, e o de Santana que alberga a presidência do Governo Regional), erguidos durante o período de oitocentos. A aristocracia fundiária e a burguesia comercial deixaram estas e muitas outras marcas. Ponta Delgada (que há cinco séculos começou por ser uma povoação de pescadores) é um estado de alma.

 Amanhã vou deixar São Miguel. E já sinto a corisca de uma saudade… 

 

 

 

 
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