1 É incompreensível que, volvidos mais de dois meses sobre os vários acidentes com os cabeços de amarração nos portos da Horta, Madalena e S. Roque do Pico, continue por se conhecer não só as causas de tais ocorrências, mas também o que se vai fazer para a remediação do problema, de forma a garantir aos utentes das ligações marítimas Faial-Pico-S. Jorge (mais de 400 mil pessoas por ano!) o sentimento e as condições de segurança que aqueles acidentes ameaçaram profundamente.
2 É incompreensível que, volvidos mais de dois meses sobre o trágico acidente ocorrido na noite de 14 de novembro de 2014, que vitimou um passageiro da Transmaçor no porto de S. Roque do Pico, ainda, até à data em que escrevo esta crónica, não tenha havido ninguém a assumir a responsabilidade pela série de acidentes similares que culminaram no daquela noite trágica. Como judiciosamente escreveu Lizuarte Machado no Jornal do Pico, “tratando-se de um acidente de grande gravidade, envolvendo meios de duas empresas públicas tuteladas pelo mesmo governante, seguindo aliás os bons exemplos que, em circunstâncias similares outros governantes deram, o mesmo se devia ter demitido e, a não ter tido o discernimento suficiente para tal, devia ter sido demitido”.
3 É incompreensível que o Governo continue a gastar milhões em estudos e planos que, na prática, de nada servem. Vejamos, a este propósito, o exemplo do PIT – Plano Integrado de Transportes, que estabelece nos seus grandes princípios orientadores a “maior qualidade, comodidade, segurança (…), frequência e regularidade” nas ligações entre as ilhas do Triângulo. Pois esse objetivo da frequência nas ligações já foi colocado de parte, uma vez que, desde outubro passado, o número de ligações diárias no canal Faial-Pico foi reduzido de 5 para 4, um retrocesso comparativamente com os tempos anteriores ao PIT!
4 É incompreensível que o Governo tenha definido um novo modelo de transporte marítimo de passageiros, que realiza simultaneamente o transporte de viaturas e, dois meses depois de se ter iniciado em plenitude, esteja suspenso.
Com efeito, o novo modelo de transporte marítimo assenta, no caso das ilhas do Triângulo, em:
a) Novos navios. Compraram-se o Mestre Simão e o Gilberto Mariano, num investimento de 19 milhões de euros, para realizar o transporte de passageiros e viaturas.
b) Infraestruturas portuárias adequadas: 1 - Construção de rampas roll on, roll off, nos portos da Horta, Madalena, S. Roque e Velas, num investimento que ascendeu a largas dezenas de milhões de euros; 2 – Construção de novas Gares Marítimas, para já, na Horta e Madalena, num investimento de cerca de 20 milhões de euros.
Mas o que acontece no presente, depois dos milhões de euros investidos, é que os navios, construídos para poderem transportar viaturas, não o fazem, e as infraestruturas não estão em utilização ou apresentam deficiências preocupantes. É o caso das rampas que não estão todas em uso no presente, por razões de segurança, ou das gares marítimas que não se mostram capazes, uma de resistir à chuva em mais abundância e outra à forte rebentação do mar de Oeste, que galga o seu interior.
5 Independentemente dos benefícios e dos aspetos inegavelmente positivos que estes investimentos trouxeram ao transporte marítimo nas ilhas do Triângulo, a verdade é que, depois de tantos milhões investidos, há aqui, em tudo isto, muito de incompreensível e inaceitável.
E, mais uma vez, tudo parece preparar-se para não haver responsáveis!
19.01.2015