Imprimir esta página
06
fevereiro

Quadrados mágicos místicos

Escrito por  Ricardo Cunha Teixeira
Publicado em Ricardo Teixeira

Existem muitos exemplos interessantes de quadrados mágicos com histórias curiosas. Desde logo, se recuarmos no tempo e viajarmos até à antiga China. Segundo reza a lenda, por volta de 2200 a.C., o imperador Yu terá avistado uma tartaruga a sair do Rio Amarelo. Essa tartaruga apresentava um intrigante padrão formado por pontos pretos e brancos, que se assemelhava a uma grelha 3x3, preenchida com os primeiros 9 números naturais (1-9), dispostos de uma forma curiosa. Recorrendo à atual numeração árabe, a grelha apresentava a configuração do quadrado mágico da figura A, em que a soma dos números de cada linha, de cada coluna e de cada uma das duas diagonais do quadrado é sempre a mesma (no caso concreto, 15). Que se tenha conhecimento, esta é a primeira referência histórica a um quadrado mágico.

Os chineses chamam Lo Shu ao quadrado mágico da figura A. Muitos utilizam-no como amuleto, pois consideram que o Lo Shu simboliza as harmonias interiores do Universo. Por vezes, é usado como objeto de adivinhação e de adoração. Se começarmos no 1 e ligarmos, com a ajuda de uma caneta, os números do quadrado mágico por ordem crescente (1-2-3-4-...), obtemos um emaranhado de linhas designado por yubu. Este padrão é utilizado por sacerdotes taoistas para se movimentarem no templo.

 

A China não é a única cultura a apreciar o lado místico dos quadrados mágicos. Estes têm revelado, ao longo da história, a sua importância espiritual para hindus, muçulmanos, judeus e cristãos. O seu uso já foi bastante criativo. Por exemplo, na Turquia e na Índia, as virgens eram obrigadas a bordar quadrados mágicos nas roupas dos guerreiros. E se um quadrado mágico fosse colocado no ventre de uma mulher em trabalho de parto, acreditava-se que facilitaria o nascimento da criança. Por sua vez, os hindus usavam amuletos com quadrados mágicos como talismãs para proteção.

Outro aspeto curioso prende-se com o facto de os astrólogos da Renascença usarem quadrados mágicos associados aos diferentes planetas do Sistema Solar. Hoje em dia é natural estranhar e duvidar do poder do oculto atribuído aos quadrados mágicos pelos nossos antepassados, mas a verdade é que também é fácil perceber o fascínio que estes podem despertar. Os quadrados mágicos são como mantras numéricas: fórmulas místicas que convidam à contemplação e que mostram uma harmonia surpreendente num mundo desordenado. 

Falemos um pouco dos quadrados mágicos planetários. O leitor pode utilizá-los para meditação. Para tal, deve construí-los lentamente numa folha de papel. Primeiro desenhe a tabela com N linhas e N colunas (diz-se que o quadrado mágico tem ordem N). Em seguida, comece por escrever o número 1 e, por ordem crescente, os restantes números (1-2-3-4...), todos nas suas posições corretas (as figuras A a D apresentam as configurações de quatro dos quadrados planetários). Vejamos qual a utilidade de cada um desses quadrados mágicos.

O quadrado de Saturno (figura A) tem ordem 3 e constante mágica 15. É utilizado, por exemplo, para compreender melhor experiências do passado ou para estimular a autodisciplina. O quadrado de Júpiter (figura B) tem ordem 4 e constante mágica 34. Permite estimular o sucesso e a expansão de negócios, o crescimento espiritual e o estabelecimento de novas alianças. Já o quadrado de Marte (figura C), com ordem 5 e constante 65, está relacionado com a tomada de decisões, com a coragem pessoal e a força física. Por sua vez, o quadrado do Sol (figura D), com ordem 6 e constante 111, está associado à perceção dos objetivos pessoais e abertura de novos negócios, à autoconfiança, à saúde e vitalidade. Os restantes quadrados mágicos planetários são os quadrados de Vénus, de Mercúrio e da Lua, com ordens 7, 8 e 9, respetivamente, e constantes mágicas dadas por 175, 260 e 369, respetivamente. O quadrado de Vénus é um convite ao amor e ao estabelecimento de laços para a vida. O quadrado de Mercúrio apela à concentração e a outros desafios intelectuais. Por fim, o quadrado da Lua está associado à intuição e ao instinto. 

Outro aspeto que pode ser considerado nestes quadrados mágicos planetários é a soma de todos os números que compõem o quadrado, que se designa por soma mística (esta soma obtém-se multiplicando a constante mágica pelo número total de linhas do quadrado, isto porque ao adicionar os números de qualquer linha, obtém-se sempre a constante mágica). Por exemplo, o quadrado de Saturno tem soma mística igual a 15x3=45; o de Júpiter, 34x4=136; o de Marte, 65x5=325; e o do Sol, 111x6=666. Num quadrado planetário de ordem N, utilizam-se todos os números naturais, do 1 ao NxN, uma e uma só vez. Por este motivo, e tendo em conta as propriedades das progressões aritméticas, a soma mística de um quadrado planetário de ordem N pode ser obtida da fórmula NxN(NxN+1)/2, sendo a constante mágica igual a N(NxN+1)/2.

Estes quadrados mágicos podem ter as mais variadas utilidades. Por exemplo, o leitor pode escolher um destes quadrados e ligar, com a ajuda de uma caneta, alguns dos seus números, obtendo interessantes padrões geométricos, que podem ser usados para efeitos decorativos, ou mesmo como inspiração para uma tatuagem! A escolha dos números e da ordem pela qual devem ser ligados fica ao seu critério. Tanto pode optar por recorrer à sua data de nascimento (ou a outras datas importantes), como também pode pensar numa palavra ou frase e converter as letras em números (recorrendo a uma determinada correspondência, por exemplo, A=1; B=2; ... ; Z=26 ou A=J=S=1; B=K=T=2; C=L=U=3; ...). A imaginação é o limite!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Lido 2252 vezes
Classifique este item
(0 votos)
Login para post comentários