Tribuna das Ilhas

Infinity 8
  • Início
  • Local
  • Triângulo
  • Regional
  • Desporto
  • Cultura
  • Política
  • Opinião
  • Cartoons
Últimas :
Investimento privado no Faial – realidade ou utopia?
Educação - Escola Secundária Manuel de Arriaga ocupa o 496.º lugar do ranking a nível nacional
Eleições - Carla Dâmaso assume a presidência do OMA
Agricultura - Trybio organiza cursos de instalação de pomares e de poda de fruteiras no Faial
BTT – ESMA ATIVA Primeiro encontro de BTT da ESMA junta professores e alunos
“Eco Freguesia, freguesia limpa” - Candidaturas ao programa abertas até 15 de março
Saúde - Hospital da Horta assina protocolo com Câmara Municipal da Madalena para criação de Unidade de Hemodiálise
Efeméride - Azores Trail Run® regista 4000 inscritos em 5 anos
Faial - Governo Regional assina contrato para reabilitar Solar e Ermida de São Lourenço
  • Início
  • Opinião
  • Susana Garcia
Susana Garcia

Susana Garcia

04
fevereiro

O 1.º grande azar de Salazar foi há 50 anos

Publicado em José Trigueiro
Sê o primeiro a comentar

O ano de 1961 foi tido como um ano de grande azar para Salazar. Nele deu-se início ao desmoronar do Império Português, que o antigo Presidente do Conselho Português, Prof. Dr. António de Oliveira Salazar (1889-1970), apesar de contrariado, não soube evitar. Foi mesmo o principal culpado. Na sequência do Golpe do Estado de 28 de Maio de 1926, com a alteração constitucional em 1933, foi instituído o Estado Novo. Por outro lado, na sequência da II Guerra Mundial, foi criada a Organização das Nações Unidas, cuja Carta, aprovada em 1945, estabeleceu a obrigação de todos os países, detentores de colónias, dar-lhes as suas independências. Para o efeito, deviam desenvolver os seus povos e prepará-los para se autogovernarem. A pouco e pouco todos o fizeram. Porém, Salazar, fazendo “vista grossa” dessa disposição, alterou a Constituição, acabando com as Províncias com que era dividido Portugal Continental, e passou a designar de Províncias as antigas Colónias que o País possuía no Ultramar. Assim, na sua ideia (que ele procurava ensinar ao País), Portugal deixara de ter Colónias. Contudo, mantinha nelas a mesma política de subdesenvolvimento dos negros, designadamente a falta de instrução. O Mundo e a ONU, porém, não viam as coisas assim e ajudavam a contrariar essa farsa política. Portugal entrara nas Nações Unidas apenas em 1955. Os azares atrás referidos são temas sintetizados em artigos que oportunamente desenvolvemos ou desenvolveremos em efemérides.

1. O Assalto ao paquete “Santa Maria” (Janeiro de 1961)

No dia 22 de Janeiro de 1961, dias depois de recuperar de uma ligeira pneumonia, Salazar e o Mundo tomaram conhecimento que o importante paquete português “Santa Maria”, havia sido assaltado, cheio de passageiros, conforme referimos no último artigo deste jornal de 21 de Janeiro.

2. O Início da Guerra em Angola (Março de 1961)

Depois dos primeiros distúrbios causados em Luanda pela guerrilha angolana do MPLA de Agostinho Neto em 7 de Fevereiro de 1961, onde terão ocorrido várias mortes, entre os dias 13 e 15 de Março desse ano, a UPA, de Holden Roberto, causava elevada mortandade de brancos em “fazendas” no Norte de Angola.

            Dava-se, assim, início à guerrilha nacionalista – ou terrorista como afirmavam os defensores do regime – contra as tropas Portuguesas. Essa guerrilha, que se propagou a Moçambique, através da FRELIMO, e à Guiné (Bissau), com o PAIGC, só viria a terminar com a descolonização, depois do Golpe de Estado do “25 de Abril de 1974”.

Para uns essa descolonização foi “exemplar”, mas, para outros – talvez os mais realistas – foi considerada uma desgraça para os povos dessas antigas colónias portuguesas de África, quer portugueses, quer africanos. Deu origem à saída apressada da maioria dos portugueses e causou muitas mais mortes de africanos negros do que aquela guerrilha. Os principais culpados disso, para além de alguns responsáveis pela descolonização, foi Salazar! A esses quero juntar todos os que se opuseram aos projectos de Norton de Matos e de António Spínola.

3. O Golpe de Estado Frustrado de Botelho Moniz (Abril de 1961) O Presidente Americano, John F. Kennedy (1917-1963), que havia tomado posse do cargo em 22 de Janeiro (2 dias antes do ataque ao “Santa Maria”), parecia disposto a não tolerar qualquer tipo de colonialismo. Por esse motivo foi sempre um adversário terrível das políticas de Salazar. Este despresava o novo Presidente Americano, situação ainda hoje patente na aversão de muitos continentais portugueses relativamente aos americanos. Assim, a administração Kennedy, com a ajuda do embaixador americano em Portugal, Elbrick, procurava uma solução para retirar Salazar do poder, caso ele recusasse a libertação das várias colónias portuguesas. De resto, quase todos os países que haviam possuído colónias já tinham procedido à sua libertação. Em 1961 Portugal e a França eram praticamente os últimos colonizadores e, na ocasião, já o Presidente De Gaulle sabia que tinha de libertar a Argélia, facto que veio a ocorrer no ano seguinte. Assim, nas reuniões da ONU, até a França, que havia estado ao lado de Portugal, passara a abster-se quando se tratava de discutir o colonialismo português.     

 Elbrick passou a desdobrar-se em reuniões com os diversos representantes do Governo Português, onde as votações na ONU começavam a causar as suas crises estruturais. Outros governantes americanos vieram a Lisboa nesse sentido, alguns encontrando-se com o Presidente do Conselho Português. Depois das sugestões do seu Ministro da Defesa, o General Júlio Botelho Moniz (1900-1970), Salazar continuava irredutível. Assim, foi Botelho Moniz, homem inteligente e culto que, depois de diversas diligências, se propôs a chefiar o Golpe de Estado para forçar Salazar e Américo Thomaz a deixarem o poder. Moniz contava para o efeito com o apoio de vários altas individualidades, incluindo membros do Governo, e o grupo comprometia-se a preparar a independência das Colónias dentro de 10 anos, e os americanos ajudariam financeiramente Portugal a desenvolver os problemas do seu atraso. O Golpe de Estado estava a ser preparado para o dia 13 de Abril. Nesse dia, após denúncia traiçoeira, todos os membros do Governo envolvidos foram demitidos dos seus cargos e substituídos, quando faziam no Ministério da Defesa a última reunião preparatória do “golpe palaciano”. Nem já carros oficiais do Estado tiveram para regressar nesse dia a suas casas. Com aviões já preparados para levarem Salazar e Américo Thomaz para a Suíça, a notícia da sua demissão chegou-lhes pela rádio, surpreendendo-os nessa reunião.

E, apesar de todas essas peripécias, a grande maioria dos portugueses nem soube nesses dias que o poder havia estado por um “fio”. A censura, sempre fiel, conseguira “abafar” tudo. Deste modo, a “Raposa” havia vencido o “Leão”, graças à ingenuidade de Botelho Moniz e à traição de alguém que fora sondado para entrar no seu grupo, como referiremos oportunamente.

4. Goa, Damão e Diu são ocupados pela União Indiana (Dezembro de 1961)

Mas o desastre mais grave desse ano para Salazar, de que ele se mostrou politicamente incapaz, foi a perda do Estado Português da Índia, Goa, Damão e Diu, que ocorreu em 18 de Dezembro. Nesse dia tropas da União Indiana tomaram esse Estado, depois de bombardearem e prenderam as tropas portuguesas que lá existiam. Estávamos naquelas paragens há cerca de 500 anos, e as ameaças de ocupação vinham há muito tempo a ser feitas pela União Indiana, sobretudo através do seu presidente Pandita Nehru, mesmo nas Nações Unidas.

O próprio Governador-Geral, General Vassalo e Silva (1899-1985), e o Arcebispo ou Patriarca dos territórios, o nosso Bispo açoriano, D. José Vieira Alvernaz – também feitos prisioneiros – haviam diligenciado para que o Governo Português dialogasse com o Governo da União Indiana. Procuravam recomendar uma saída honrosa, que evitasse bombardeamentos e perdas de vidas.

Salazar, que forçara o primeiro-ministro inglês W. Churchill a invocar a “Velha Aliança de Portugal com a Inglaterra” para os “Aliados” entrarem nos Açores no tempo da II Guerra Mundial, pedira, em vão, ajuda aos ingleses, invocando essa aliança, ajuda solicitada também aos americanos. Cumprindo a Carta das Nações Unidas nenhum país esteve disponível para ajudar Portugal.

No seu último telegrama Salazar escrevia ao Governador-Geral que “O Governo confia que todos saberão cumprir o seu dever”…

Bibl: “Antunes, José Freire, “Kennedy e Salazar-o leão e a raposa”, (1992), Círculo de Leitores; B. da  S., “Dossier” Goa – Vassalo e Silva, a recusa do sacrifício inútil”, (1975), Edição: LIBER. 

Ler mais
21
janeiro

Administração Pública – Posicionamento do Faial

Publicado em Parque Natural do Faial
Sê o primeiro a comentar

 Há consenso relativamente ao fato de que ter uma administração pública dinâmica numa ilha tem efeitos muito positivos no seu desenvolvimento económico e social, porque, ao nível da organização e amplitude de serviços, vem dotá-la de quadros profissionais que, para além do nível remuneratório acima da média geral dos vencimentos, na sua maioria têm que ter uma visão arquipelágica e nacional, saindo das suas fronteiras de ilhéu.

Estes quadros são, assim, agentes que, devido à sua modernidade, impõem uma presença de liderança na sociedade, servindo em muitos casos de modelo profissional a seguir. Em suma, ter altos quadros da administração regional numa ilha como o Faial supostamente terá um efeito positivo na restante sociedade.

O Faial teve e tem uma administração pública considerável, tendo em conta a sua população. Só a título de exemplo, possui muitos mais cargos públicos do que a ilha do Pico, que possui a mesma população, encontrando-se justificação em fatores históricos de geopolítica económica.

A visão de distrito e a dispersão territorial das ilhas dos Açores dotou o Faial de infra-estruturas públicas que permitiram que se gerasse um status de desenvolvimento social e económico acima do que seria esperado para a dimensão da ilha, daí que se tenha tido ao nível de massa crítica, quer pública, quer privada, alguma importância ao nível regional e nacional.

Após o 25 de abril e com os governos autonómicos, houve numa primeira fase a manutenção desta geopolítica de descentralizar as infra-estruturas da administração pública regional, o mesmo acontecendo ao nível do executivo governativo, tendo dado ao Faial, mais uma vez, e talvez sem grande esforço, uma importância e desenvolvimento acima da média.

Mas os tempos mudaram, as realidades são outras, os gestores políticos de hoje são pressionados com outras questões, a de vencer eleições para os seus partidos, de controlar o deficit das contas públicas, de modernizar a administração pública, entre outros.

Para um gestor político que observa que a ilha do Faial está com um nível de administração pública acima da média, a tendência será a de nivelá-lo para a média, reduzindo.

Ao nível da eficácia da administração regional, a centralidade de serviços tem efeitos muito positivos e geradores de sinergias; o atual governo irá construir no parque tecnológico de São Miguel infra-estruturas governamentais, centralizando e racionalizando a sua máquina.

Ao nível dos gestores políticos de topo, o Faial já levou o corretivo, pois é o mais fácil de atualizar. Assim, o Faial, que por razões de força geopolítica teve desenvolvimento económico e social, agora vê-se privado e ameaçado no seu status, com as consequências negativas que daí advêm.

Esta posição de fragilidade requer que a ilha do Faial se reencontre ao nível das políticas e estratégias para corrigir esta ameaça presente, pois está à vista de todos que poderíamos estar a desenvolver-nos mais do que estamos.

Para que tal aconteça, existe apenas um caminho, que consiste na união e na reivindicação e em jogar sabiamente com esta adversidade.

Mas não é fácil, com os agentes políticos que temos, pois os eleitos têm como primeira preocupação servirem-se e frequentemente não assumem o cargo para que foram eleitos se o seu índice de remuneração (em muitos casos obtidos graças ao partido do poder) é mais vantajoso do que os cargos populares que iriam ocupar.

Assim, sem visão regional nesta matéria, sem a perceção de que o mundo e a região estão a mudar e de que o Faial precisa de defesa e renovação neste contexto; com a obediência cega ao poder central (leia-se, a São Miguel e à Terceira), comprada a troco de uns euros, a preocupação de que a administração pública local está ameaçada é, infelizmente, uma realidade.

 

                                                                            Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

Ler mais
07
janeiro

Administração Pública

Publicado em Parque Natural do Faial
Sê o primeiro a comentar

 Para haver desenvolvimento económico, o factor público é de primordial importância, por várias razões, desde logo pelo gasto público, que é gerador de riqueza em qualquer que seja a ilha açoriana. E se a Região desempenhasse de uma forma eficaz as suas competências, se fosse para além do discurso dos investimentos reprodutivos e os aplicasse na prática, definindo estratégias claras de desenvolvimento, criando infra-estruturas que efectivamente incentivassem e alavancassem a iniciativa privada empreendedora, aliado a uma disponibilização de serviços eficiente e eficaz, teríamos a administração pública de sonho.

Contudo, abrindo os olhos para a realidade, esta ainda é bem diferente. Em primeiro lugar, vemos uma Região a intervir na economia como agente económico, em muitos casos distorcendo as leis de mercado e, pior ainda, com políticas distintas de ilha para ilha, sem transversalidade.

Mas, para além deste erro crasso e por muitos mais estudos e fóruns da administração pública que haja, a produtividade da máquina pública (incluindo a nacional) deixa muito a desejar, fruto de uma burocracia real que emperra o seu bom e ligeiro funcionamento, com repercussões directas no desenvolvimento económico.

Para criar um bom clima económico e social, a administração pública deve responder aos requisitos mínimos exigidos, isto é, os conhecidos sistema educativo, sistema de saúde e o enquadramento político e legal em gestão que permita criar dinâmica de desenvolvimento.

Mas frequentemente o setor privado e os seus utentes veem as empresas públicas do Estado e da Região pouco produtivas, cheias de regras, complicadas no seu funcionamento e muitas vezes com “gestores”, que, em muitos casos, são mais moços de recados do poder político do que verdadeiros homens do leme das organizações que supostamente lideram.

De uma forma geral, a maioria desta máquina administrativa pública é geradora de custos, alimentados pelo dinheiro dos impostos que nos sai do bolso, e não são exemplo para os empreendedores.

Sim, os tais empreendedores que não saem da boca dos políticos, que parecem esquecer-se de que foram eles que criaram uma conjuntura não propensa a esse próprio empreendedorismo, e os exemplos são mais que muitos.

Em primeiro lugar, há um emaranhado de legislação e regulamentação, que quase requer que se tenha um curso de direito para as entender, depois há uma constante mudança de legislação, acarretando, na sua maioria, o aumento das obrigações para os empreendedores.

Note-se que estas obrigações exigidas pela administração pública têm custos administrativos para os empreendedores, a quem se exige que dêem resposta a um conjunto quase infindável de burocracia, antes mesmo de abrirem a porta.

Esta situação torna-se ainda mais grave face ao atraso no pagamento da administração pública aos privados, o qual, nos dias de hoje, com a redução da capacidade financeira, leva muitos empresários a terem de recorrer à banca para cumprir os prazos com os seus fornecedores, enquanto esperam que a pesada máquina administrativa pública se digne pagar a tempo e horas.

Outro exemplo gritante do mau funcionamento da administração pública que temos consiste nos prazos quase infinitos de respostas e de decisões, e a quantidade de organismos públicos que têm que ser ouvidos para que um empreendedor faça algo pela sua terra.

Por fim, e mais grave ainda, é o receio de quem protesta ver o seu processo ficar emperrado numa ou noutra secretaria regional ou ficar esquecido na prateleira de alguma câmara municipal, situação que envergonha os propósitos de Abril de há 36 anos…

Em resumo, esta máquina administrativa pública que temos não ajuda nem contribui para a competitividade da nossa economia, e nós, faialenses, cada vez mais longe do poder, sentimos isso na pele.

                                                                             fEste endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

Ler mais
07
janeiro

O Naufrágio no Lajedo do Navio “Slavonia” (V)

Publicado em José Trigueiro
Sê o primeiro a comentar

FACTO HISTÓRICO DAS FLORES

(Continuação do n.º 446)

Norberto Trigueiro, a respeito das múltiplas memórias que o nafrágio deixou na ilha, escreve em 1960 que “a população florentina continua a recordar o desastre do “Slavonia” e essa recordação é mais concreta quando se encontram (e há em muitas residências da ilha) roupas, louças, talheres, móveis e madeiras do navio sinistrado, assim como fotografias e postais ilustrados com a sua maquete”. Diremos que ainda hoje essa recordação é patente na mente dos florentinos, que preservam tudo o que sirva para manter a sua memória do naufrágio, designadamente com objectos e fotografias do navio.  

Por sua vez, Félix Martins refere em 2001 que “dos muitos artefactos e peças de arte deste naufrágio ou a ele ligados, e ainda existentes na ilha das Flores, quer em locais públicos ou na posse de privados, convém aqui recordar as pratas que constituem o património da Igreja Matriz de Lajes das Flores: - o lampadário do santíssimo, um antigo ostentório e um cálice de prata, oferecidos pelo Papa Pio X, ‘em penhor de gratidão pelo bom acolhimento que os povos desta freguesia fizeram aos náufragos do Slavonia, arrojado à costa desta ilha em 10 de Junho de 1909’”. Embora tenha havido quem duvidasse desta afirmação de Félix Martins, ninguém conseguiu provas convincentes da negação desta história sobre as origens destes equipamentos religiosos da matriz de Lajes das Flores. Todavia, D. Antónia de Freitas Fraga, confirmou-me essas ofertas, que eram por ela observadas, quando ainda jovem, ajudava a fazer as suas limpezas, na companhia de outras idosas dessas alfaias religiosas.

Alexandre Monteiro, que nos apresenta uma descrição muito completa e ilustrada com fotografias do acidente, escreve que “Já em Londres, o capitão Dunning foi levado a tribunal para apuramento das causas do naufrágio. Consta da sentença que ‘o encalhe e a consequente perda do Slavonia foi provocado por erro de julgamento do seu capitão, por este ter estimado uma rota tão incerta e uma velocidade tão elevada em tais condições climatéricas e tão próxima de terra, e por este ter feito confiança em demasia em duas leituras de bússola, manifestamente erradas, que admitiu não ter sido ele próprio a determinar. O Tribunal, em consideração pelo seu trabalho anterior, que foi excelente, e pelos denodados esforços que promoveu para salvar vidas, logo após o desastre, coíbe-se de lhe retirar a sua licença, mas repreende-o severamente e avisa-o para ser mais cauteloso, de futuro’”. Refere ainda que do lado português a imprensa da época “recriminou a entidade governativa de então por não ter procedido à finalização do farol que dominava o local do naufrágio e que apenas carecia das máquinas e da lanterna”. Efectivamente nessa ocasião, o Farol das Lajes, cuja construção se iniciara em meados da década de 1890 ainda não havia sido concluído, o que só veio a acontecer em 1910, como refere Francisco Gomes. Recorda-se que o barco navegava debaixo de nevoeiro, embora este ali seja raríssimo, ao nível do mar, como afirmam os lajedenses.

Há anos atrás vimos uma excelente reportagem na televisão onde, para além de se entrevistarem alguns florentinos (não contemporâneos) sobre o referido naufrágio, se mostravam vários móveis provenientes daquele navio existentes em casas da ilha das Flores.

Já nas décadas de 1940/50, partes significativas das chapas de cobre de diversos locais do “Slavonia” foram recuperadas por empresas da especialidade que as transportaram para Lisboa no navio “Carvalho Araújo”, como pudemos então verificar pessoalmente, designadamente por intermédio do mergulhador José da Silva. Durante vários anos vinham mergulhadores ao local. Levavam dentro de um barco das Lajes bocado de ferro vindos do fundo do mar. Também de terra se chegava a ver no fundo do mar uma caldeira que anos depois já não era visível, supõe-se que, por haver muitas algas.

A partir da data daquele acidente, sempre que navios da Companhia Cunard Line cruzavam os mares das Flores, aproavam à Baixa Rasa e, num gesto de saudação e de agradecimento pelos bons serviços prestados ao “Slavonia”, apitavam três vezes, seguindo depois o seu destino, como já referimos. Era um sinal de reconhecimento que, por se ter mantido durante vários anos, sensibilizou várias gerações florentinas do Lajedo. Aí ainda hoje, 100 anos depois daquele acidente, ninguém nas Flores desconhece a perda do “Slavonia” nas costas marítimas dessa freguesia.

Efectivamente, na ilha das Flores, especialmente na freguesia do Lajedo e lugar da Costa poucas eram as casas que em meados do século XX não possuíssem uma ou mais recordações do “Slavonia”. Eram louças ou talheres de prata, com as marcas do navio, ou mesmo outros objectos mais úteis e valiosos, tais como sejam portas de camarotes, espelhos ou outros objectos, legal ou ilegalmente obtidos.  

                                                                                                                                                                                                                      (Fim)

 BIBLI: Gomes, Francisco António Nunes Pimentel, “A Ilha das Flores: Da redescoberta à actualidade (Subsídios para a sua História)”, (2003, pp. 423 e 445, 2.ª edição da Câmara Municipal de Lajes das Flores; Trigueiro, Norberto, artigo publicado no jornal “Correio da Horta”, Horta, de 22-10-1960; Martins, Félix, artigo no jornal “As Flores”, Santa Cruz das Flores, de 21-06-2001; Freitas, Álvaro Monteiro de, artigo publicado no “Jornal do Ocidente” de Lajes das Flores, de 10-12-1991; Monteiro, Alexandre, “O Naufrágio do Paquete ‘Slavonia’  (Ilha das Flores, 1909)”, (2009), Internet; Correia, Luís Miguel, “Paquetes Portugueses”,  pp. 83 e  215, 1992,  Edições INAPA, de Lisboa; Antunes, 1.ª Sargento Domingos (presumido autor), “Esboço Histórico da Guarda Fiscal das Ilhas das Flores e do Corvo (1885-1985)”;  jornal “O Telégrafo”, de 19-06-1909; jornal “O Faialense” de 27-7-1909; Trigueiro, José Arlindo Armas, “Retalhos das Flores - Factos Históricos”, 2003, pp. 27-34, Ed. da Câmara Municipal de Lajes das Flores.

 

 

                                       

Ler mais
17
dezembro

O Faial e a Coesão

Publicado em Parque Natural do Faial
Sê o primeiro a comentar

 Acabei o último artigo questionando qual era o posicionamento do Faial no âmbito dos sistemas de incentivos, se esta ferramenta de desenvolvimento económico estaria a dar os resultados pretendidos, isto é, o aumento da nossa riqueza, mais produção de bens e serviços, mais emprego, um sector privado dinâmico, sustentável e autónomo, em suma, se o Faial está a dar o melhor contributo para que a Região deixe de ser uma das mais pobres.

Importa saber se o Faial está maximizado com esta política, se caminhamos para a riqueza ou, pelo contrário, se não estamos a encontrar o norte e a divergir, ou mesmo se pendemos para a estagnação.

Um factor primordial para convergir e criar riqueza são os sistemas de incentivos, que atualmente têm uma configuração que requer uma análise.

Verifica-se que os sistemas deram uma pedrada no charco, pois pela primeira vez reconhecem que as micro economias de ilhas com ritmos distintos e contingências particulares necessitam de incentivos diferenciados, tendo-se introduzido uma diferenciação pela positiva para as chamadas ilhas da coesão.

Assim, há, e muito bem, majorações nas subvenções e na prioridade aos projectos de investimentos oriundos de Santa Maria, Graciosa, São Jorge, Flores e Corvo.

Quer isto dizer que o Faial está, desde já, num cenário regional algo particular, pois encontra-se num patamar de maior exigência, a par de São Miguel (com quase 10 vezes a nossa população), da Terceira (com 4 vezes a população do Faial) e do Pico.

Registe-se que o Pico, cuja densidade e dispersão populacional dificulta o crescimento económico, e considerando que não tem conseguido crescer, tem tido por parte dos agentes políticos uma atenção digna de muitas ilhas de coesão juntas.

Considero que, perante este cenário, o Faial se encontra no limbo dos sistemas de incentivos, pois não é da coesão e está no tabuleiro de jogo perante São Miguel e Terceira, com ritmos de desenvolvimento muito distintos do do Faial.

Deste modo, e acrescido o facto do Faial não ter ninguém neste governo regional para fazer uma análise rigorosa e defender que somos capazes de crescer, de ser sustentáveis, de sair deste patamar de desenvolvimento pela positiva, o Faial tem sido votado ao abandono.

Os casos estão à vista de todos. A título de exemplo, o governo além-mar investe no termalismo e aluga aos privados, aqui, para o Varadouro, os privados que invistam; nas ilhas com governantes apoia campos de golfe, aqui culpabiliza a incapacidade do investidor; faz uma placa de estacionamento no aeroporto de São Miguel, cujo impacto de crescimento económico é nulo, e que dava para ampliar a pista do aeroporto da Horta, com impacto significativo, para além da segurança, no desenvolvimento do Faial. Apoia o encerramento de uma conserveira na Horta, dá 11 milhões de euros de subvenção a uma empresa de transportes marítimos para transportar 100 000 passageiros, enquanto que à empresa que opera no Triângulo, transportando 400 000 passageiros, apenas 1,7 milhões de euros de apoio…

O único contrapeso do prato da balança é a obra do Porto, mas que mesmo assim é criticável, primeiro pela prioridade, segundo pela dimensão e, por último, pelo desconhecimento do projecto global e continuação da sua execução como projecto único (só faz sentido ser assim).

Em suma, no que se refere ao crescimento pelos sistemas de incentivos, o Faial está estagnado, os maiores já lá vão, desde o investimento da cooperativa de lacticínios já se passaram muitos anos, o último hotel foi construído há 5 anos, estando o Faial entregue aos empresários locais e limitado a projectos à dimensão destes. A agência de promoção dos investimentos dos Açores não tem o Faial no mapa, a empresa Ilhas de Valor idem e, assim, sem as sinergias nem sinais de projectos âncora, muitos nem se aventuram, pois os empresários faialenses não sentem estímulos conjunturais, ao verem este abandono fácil. É, assim, urgente alterar este estado de coisas, a bem do Faial!

Aproveito para desejar aos leitores do Tribunas das Ilhas umas Boas Festas!

                                                                             Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

Ler mais
  • Anterior
  • 36
  • 37
  • 38
  • 39
  • 40
  • 41
  • 42
  • 43
  • 44
  • 45
  • Seguinte
  • Fim
  • Perdeu a senha?
  • Esqueceu-se do nome de utilizador?
  • Registe-se!
  • Contatos
  • Pesquisa
  • Assinatura
Copyright © Tribuna das Ilhas 2026 All rights reserved. Custom Design by Youjoomla.com
Opinião