Tribuna das Ilhas

Infinity 8
  • Início
  • Local
  • Triângulo
  • Regional
  • Desporto
  • Cultura
  • Política
  • Opinião
  • Cartoons
Últimas :
Investimento privado no Faial – realidade ou utopia?
Educação - Escola Secundária Manuel de Arriaga ocupa o 496.º lugar do ranking a nível nacional
Eleições - Carla Dâmaso assume a presidência do OMA
Agricultura - Trybio organiza cursos de instalação de pomares e de poda de fruteiras no Faial
BTT – ESMA ATIVA Primeiro encontro de BTT da ESMA junta professores e alunos
“Eco Freguesia, freguesia limpa” - Candidaturas ao programa abertas até 15 de março
Saúde - Hospital da Horta assina protocolo com Câmara Municipal da Madalena para criação de Unidade de Hemodiálise
Efeméride - Azores Trail Run® regista 4000 inscritos em 5 anos
Faial - Governo Regional assina contrato para reabilitar Solar e Ermida de São Lourenço
  • Início
  • Cartoons
  • Susana Garcia
Susana Garcia

Susana Garcia

29
abril

(Des)Igualdades

Publicado em Parque Natural do Faial
Sê o primeiro a comentar

Vivemos num estado de direito e político, de direito porque estamos sujeitos a regulamentação, quer emanada da União Europeia, quer do Estado português, quer da Região, e grande parte desta tem cariz político, espelhando a orientação de quem governa.

Ao mais alto nível, é natural que a preocupação seja, entre outras, a da universalidade, isto é, que a todos os cidadãos sejam proporcionadas as mesmas oportunidades. A nível nacional, somos também sujeitos a acções políticas e económicas, em que vivemos todos os dias.

A política regional também deverá ter este cariz, isto é, legislar política económica que seja de maior abrangência e aplicabilidade em todo o território açoriano, aplicando os princípios de igualdade, de criação de riqueza e, principalmente, o da sua redistribuição.

Por isso, são efetuados estudos e projectos de desenvolvimento, em que o ordenamento do território é potencializado, tendo em conta as especificidades de cada ilha. Aqui, quebra-se, de algum modo, os princípios de transversalidade de medidas, pois há ilhas com capacidade de desenvolver determinados projectos e outras onde se sabe de antemão que aqueles, embora implementados, não são sustentáveis.

Nestes instrumentos de planeamento e ordenamento, o golfe está inscrito como sendo de interesse estratégico para a ilha do Faial, dentro duma política transversal açoriana de circuito, onde são necessários vários campos classificados para constituir um ponto forte de atratividade, para justificar fluxo turístico com este produto.

No que concerne a este assunto, obviamente existem políticas e políticos nada interessados em que este investimento se realize no Faial, incluindo aqueles que acham que o golfe irá artificializar a nossa oferta, há ainda os ambientalistas, cheios de dúvidas, e os – claro está – comodistas.

E há aqueles que compreendem que há ciclos de riqueza e o turismo é das poucas da Região e quiçá a mais importante para o futuro desta ilha, e no seu ciclo de vida é importantíssimo diversificar a oferta turística do Faial, com produtos turísticos para a diminuição da sazonalidade e pelo posicionamento que este turismo traz, nomeadamente turistas com maior poder de compra, o que a todos beneficia.

Assim, o golfe valoriza o Faial apenas no planeamento, no papel; na prática, a eficácia da tal política de transversalidade que se pretende é verdadeiramente desastrosa e parece que, mais uma vez, temos um governo que faz os possíveis para descartar o Faial.

De facto, não se percebe que trate o mesmo problema de formas diferentes, e apenas me refiro às questões mais recentes (pois é longa a novela do golfe no Faial!), quando se percebeu que a empresa adquirente do campo de golfe em S. Miguel, com o compromisso de construir o campo do Faial, não iria cumprir o acordo.

O tratamento diferenciado ocorre a diversos níveis, tanto na continuação na aposta no golfe, mesmo nos tempos em que vivemos, como na forma de resolução do problema. Na verdade, o golfe continua a ser uma aposta do governo, ao dar a mão para a gestão do campo de S. Miguel, ao apoiar as infraestruturas do campo da Terceira e evidente no bom desenrolar do processo de construção pública de um campo em Stª Maria.

E para o Faial a decisão é a inacção!!?? E este governo nem chama a si os seus direitos, reivindicando a restituição dos terrenos, lesando, deste modo, o património regional? Não cumpre aquilo que colocou no papel, concretamente nos planos de ordenamento do território!? Os dito princípios de transversalidade e redistribuição caem por terra, revelando-se um governo de além mar para muitas questões económicas desta ilha, que escreve uma coisa e, na prática, executa outra.

Mais uma vez, os Faialenses têm de olhar por si, têm que ter consciência das políticas regionais de desenvolvimento, saber aquelas que verdadeiramente diversificam e fortificam a nossa economia e, para além de reivindicarem, têm de ser igualmente empreendedores e começar a oferecer o produto golfe com iniciativas empresariais locais com maior grau de qualidade, de modo a continuarmos a ter futuro.

                                                                            Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

Ler mais
15
abril

GUILHERME ARMAS DO AMARAL

Publicado em José Trigueiro
Sê o primeiro a comentar

FLORENTINO QUE SE DISTINGUIU

Secretário do Consulado Português em San Francisco e Vice-Cônsul de Portugal

Nasceu na vila de Santa Cruz das Flores, em data que não pudemos precisar, apesar das pesquisas que fizemos nos livros de registos de nascimento da freguesia existentes na Biblioteca Pública da Horta. Era filho de Laureano Armas do Amaral e de sua Exm.ª esposa, conforme se escreveu no “Jornal Português”, da Califórnia à margem identificado. Porque em 1938 já tinha quase 30 anos de prestações de serviço no Consulado de Portugal em San Francisco, na Califórnia, calculámos que tenha nascido aí por volta da década de 1880. Também não conseguimos obter a data nem o local do seu falecimento, mas terá sido depois de 1938. Sabe-se, contudo, que foi um distinto florentino.  

Depois de ter concluido o Ensino Primário, na sua terra natal, frequentou na cidade da Horta o ensino secundário, onde fez o respectivo exame «com distinção e muitos valores, tendo manifestado sempre um amor e uma predilecção descomunal pelos livros e pela literatura clássica», escreveu-se no jornal abaixo indicado (1).

Pouco sabemos da sequência desses estudos, já que os elementos que dispomos dos seus registos biográficos são muito poucos. Em data que não pudemos precisar, sabemos que emigrou para os Estados Unidos da América. Também sabemos que seria tio do Dr. José Leal Armas, que me disse que, em criança, chegou a receber dele encomendas com brinquedos e doces. 

Em 1938 Guilherme Armas do Amaral era Vice-Cônsul de Portugal, em San Francisco, e integrou a Edição Especial do “Jornal Português”, comemorativa do 50.º aniversário (1888-1938), onde na página 4 consta a sua fotografia e um pequeno texto que sintetiza os seus elementos curriculares. Antecede uma fotografia e uma comunicação escrita pelo Dr. Jordão Maurício Henriques, Cônsul de Portugal, em San Francisco, nessa ocasião (2). 

Daquele texto respigamos os seguintes excertos, que dão uma ideia das suas características biográficas: «Bem queríamos, como merece, traçar aqui uns dados biográficos dum vulto que, pela sua ilustração e nobreza de carácter ocupa hoje um lugar de destaque entre a Colónia Portuguesa da Califórnia, e exerce as funções que a poucos é dado exercer num país estranho. Vamos, porém, em resumidas palavras dizer algo dum cavalheiro, que, com suas qualidades peregrinas, tem-se sabido elevar entre os portugueses durante a sua longa permanência entre nós».

«Guilherme Armas do Amaral, salvo os primeiros tempos da sua estada na Califórnia, tem exercido as funções de secretário do Consulado de Portugal em San Francisco, e, na sequência do respectivo funcionário consular, as de Cônsul. E tão bem desempenhou essas funções que mereceu do Governo Português a categoria de vice-cônsul. E durante o período de quase trinta anos, que ele se encontra ao serviço do Governo Português nunca houve uma única queixa, um único reclame, um único “reproche” contra o seu procedimento, sempre recto, exacto e cortês. E por isso soube grangear a estima não só duma parte da Colónia Portuguesa, mas sim de toda ela. E por isso também já reconheceu o Governo Português, que se não esqueceu de agradecer o Exm.º Sr. Vice-Consul Armas do Amaral».

 Depois de evidenciar a sua naturalidade e filiação, menciona que ele «Fez exame da escola superior do Distrito da Horta, com distinção e muitos valores, tendo manifestado sempre um amor uma predilecção descomunal pelos livros e pela literatura clássica; e graças a essa feliz inclinação, os seus conhecimentos literários são vastos. Nos seus discursos numerosos, proferidos em todos os lugares que é chamado, bem o tem dado a entender, e a sua linguagem, dum português puro e rendilhado das mais belas figuras de retórica, encanta e extasia os seus ouvintes».

A este propósito, recorda-se que Felix Martins Trigueiro, natural da Fazenda das Lajes das Flores, emigrado na Califórnia desde os últimos anos do século XIX, onde foi banqueiro e bancário do Portuguese Bank, em San Francisco, com as funções de encarregado da caixa forte, chegou também a exercer o cargo de Vice-Cônsul do Consulado Português nessa bonita cidade do Pacífico, em regime de substituição (3). Outros florentinos também exerceram nos Estados Unidos da América o cargo de Vice-Cônsul de Portugal, na última metade do século XIX, nomeadamente: Manuel Borges de Freitas Henriques (1826-1873), natural de Santa Cruz das Flores, na cidade de Bóston, aí por volta da década de 1870; o Visconde do Vale da Costa (Lajedo das Flores), isto é, Manuel Pedro Furtado de Almeida (1845-1???), nascido na freguesia de Ponta Delgada das Flores, no mesmo Consulado da cidade de Boston, por volta da década de 1890 (4).  

 Por se tratar de cargos de escolhas governamentais, sabemos que eram exigíveis aos titulares vários elementos essenciais, tais como: instrução mínima, honestidade e inteligência, e um cordial e interessado relacionamento com as comunidades que serviam.  

(1).“Jornal Português”, Número Especial (do 50.º Aniversário) 1888-1938, p.4, editado

em Oakland, Califórnia, de Pedro Laureano Claudino da Silveira. Nas investigações que fizemos nos Registos de Nascimento de Santa Cruz das Flores não encontrámos o nome de Guilherme filho de Laureano, embora de saiba que neles existem algumas omissões.

(2). “Jornal Português”, Número Especial (do 50.º Aniversário) 1888-1938, p. 4, editado em Oakland, Califórnia, de Pedro Laureano Claudino da Silveira.

(3).“Jornal Português”, Número Especial (do 50.º Aniversário) 1888-1938, 29, editado em Oakland, Califórnia, de Pedro Laureano Claudino da Silveira; Trigueiro, José Arlindo Armas “Florentinos que se Distinguiram”, 2004, p.112, ed. da Câmara Municipal das Lajes das Flores.

(4). Trigueiro, José Arlindo Armas, “Florentinos que se Distinguiram”, (2004), 1826-1873, pp. 69-73, ed. da Câmara Municipal das Lajes das Flores e “O Lajedo das Flores e as Suas Gentes”, (2010), pp. 111-115, ed. da Junta de Freguesia do Lajedo.  

 

 

Ler mais
15
abril

Manter e Desenvolver

Publicado em Parque Natural do Faial
Sê o primeiro a comentar

 Há ciclos económicos, uns de crescimento e outros de recessão, os primeiros estão associados a maior investimento e abundância, quer do Estado/Região, quer das empresas e das famílias; nos segundos, há contração financeira e menor existência e menor circulação de moeda destes agentes.

A economia açoriana tem assistido, nos últimos anos, a um ciclo de crescimento, numa primeira fase da democracia, com infraestruturas pesadas, como por exemplo portos e aeroportos, hospitais, escolas, entre outras, mas apesar de se ter gasto muitos milhões, o crescimento não é imediatamente sentido.

Depois destes investimentos basilares, seguiu-se uma segunda fase de investimento público açoriano, em que se apostou no turismo, com políticas de crescimento hoteleiro, com a internacionalização da capacidade aérea, promoção e animação.

Neste ciclo açoriano de vacas gordas, obviamente que o Faial conseguiu, em certa medida, crescer. É verdade, subimos de patamar, temos mais camas, mais voos, contudo é necessário questionarmo-nos se não poderíamos ter ido mais além, se estamos sólidos, se diversificamos as atividades económicas e se estamos preparados para o atual cenário macro-económico de restrição.

O Faial, nesta fase de desenvolvimento regional, teve constrangimentos ao seu crescimento, em alguns setores, principalmente por políticas que dividiram a potencialidade do Triângulo, pois cada ilha per si é uma micro, para não dizer uma nano, economia. Assim, os argumentos de que não seríamos sustentáveis e que o nosso crescimento viria depois de se investir e de se consolidar em S. Miguel e na Terceira fez com que alguns investimentos fundamentais não tenham sido realizados no Faial.

Isto é, no cenário das vacas gordas, não tivemos a ampliação do aeroporto da Horta, não tivemos o campo de golfe, não tivemos a ampliação do porto, como lógico e merecido, porque tivemos que esperar… Agora que há ameaças de cortes nas verbas do orçamento de estado para os Açores, dificuldades de financiamento do estado, das empresas e das famílias, o Faial, para além de não se ter desenvolvido como deveria, e de ter perdido indústria, comércio e serviços, vai entrar nesta fase menos preparado para enfrentar as dificuldades.

Mas aceitar que ficámos aquém, na altura em que havia abundância, e aceitar manter essa situação e não crescermos na crise não é justo, temos que ter argumentos, ser assertivos e perseverantes, a bem desta ilha.

A primeira obrigação é de não cair mais, há que manter os atuais níveis de desenvolvimento, para não pôr em causa a nossa própria sustentabilidade. Para isso, não pode haver argumentos brandos, “Sim, senhor secretário”, mas sim de afirmação de direitos, uma autêntica luta para defender o Faial.

Outro aspecto que temos que ter presente é o facto de, apesar de todos os constrangimentos, os orçamentos regionais e camarários serem sempre obrigados a manter a componente investimento, por isso não podemos aceitar desculpas!

 Não podemos aceitar que nos digam que há investimento pesado de muitos milhões de euros, como se não os merecêssemos, sem saber se plurianualmente pode ser repartido e nesse caso suportado, sem saber da reprodutividade e mais valias geradas em emprego, da necessidade e, nalguns casos, da imprescindibilidade desses investimentos.

Nem devemos ter medo de apontar o dedo aos investimentos noutras ilhas, pois somos contribuintes da mesma região e não duma ilha só. Por exemplo, é legítimo criticarmos os investimentos de dezenas de milhões de euros em cultura em São Miguel, quais cerejas em cima do bolo de desenvolvimento e riqueza, quando no Faial se fecham fábricas e fecham serviços…

E, principalmente, não podemos deixar de denunciar que se tenha resolvido de forma distinta o mesmo setor de investimento, isto é, que para o mesmo problema as soluções sejam diferentes de ilha para ilha, parecendo que os faialenses são açorianos de segunda.

Certo é que quem teve competências reivindicativas e executivas ao nível político no Faial e não o conseguiu desenvolver no tempo das vacas gordas dificilmente o conseguirá nestes tempos difíceis…

Novos ventos, nova esperança, novas oportunidades e novos protagonistas são necessários, para que se crie confiança para manter e fazer crescer e desenvolver o Faial.

                                                                               Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

Ler mais
01
abril

O Golpe de estado frustrado de Botelho Moniz foi há 50 anos

Publicado em José Trigueiro
Sê o primeiro a comentar

EFEMÉRIDE

1. A preparação

 O Golpe de Estado frustrado do General Botelho Moniz, então Ministro da Defesa, também conhecido por “Abrilada”, foi preparado para o dia 13 de Abril de 1961. O General, depois de fazer sugestões a Salazar e a Américo Thomaz para que aceitassem uma mudança política, sobretudo para as Colónias Portuguesas, aceitara chefiar o movimento então idealizado para os afastar do poder. Era, portanto, um “Golpe de Estado Palaciano” que contava com o apoio tácito do governo americano do Presidente Jonh F. Kennedy. Visava provocar o afastamento daqueles ditadores do poder, uma vez que estes não se dispunham a mudar de política, conforme lhes fora sugerido, enveredando pela democracia e preparando as independências das Colónias.

O General Botelho Moniz, foi um distinto oficial do Exército Português. Foto da Internet, com a devida deferência, e desculpas pela pouca qualidade da cópia.   

Portugal comprometer-se-ia a, dentro de dez anos, preparar a independência das suas Colónias e os Estados Unidos da América dariam apoio a essas políticas e ajudas financeiras para as concretizar. Seriam abertas as trocas comerciais entretanto interrompidas com Portugal desde a posse do Presidente Kennedy.

Botelho Moniz, que era um dos militares mais inteligentes do País, segundo afirmava o Marechal Costa Gomes, entendia que era tempo de Portugal mudar a sua política ditatorial e de seguir uma política adequada de descolonização (1). Júlio Botelho Moniz (1900-1970), havia ocupado altos cargos militares e fora Ministro do Interior entre 1944 e 1947 (2). Ele próprio estivera com Salazar, aconselhando-o à mudança de políticas. Houve também conversações do embaixador americano em Lisboa, Elbrick, e de outros governantes americanos com Salazar, com vista a que promovesse uma alteração à sua política. Os americanos sabiam da existência dos movimentos nacionalistas que há anos se preparavam para a guerra com Portugal e ajudavam a UPA de Hulden Robert, como referimos em artigo de Março. A situação em Angola, onde nesse mês ocorreram graves acções contra os brancos, parecia difícil de vencer pelas Forças Armadas Portuguesas. Assim, como Salazar não aceitara os vários aconselhamentos do seu Ministro da Defesa e de várias outras entidades, Botelho Moniz decidiu avançar com o Golpe de Estado.

 Este foi preparado com a colaboração de quase todas as chefias militares, com excepção do General Kaúlza de Arriaga, que era Subsecretário de Estado da Aeronáutica, em quem eles não confiavam. O mesmo acontecia com o Ministro da Marinha, o Contra-Almirante Quintanilha de Mendonça, embora ambos fossem dependentes do Ministro da Defesa. Todavia, eram poucos os comandos de unidades militares que não lhe tivessem dado o seu apoio, embora com grande receio das consequências vingativas e implacáveis de Salazar. Para o efeito, havia um avião ou dois aviões preparados para levar Salazar e Américo Thomaz para a Suíça.

2. O Fracasso do Golpe de Estado

O grupo era constituído por vários militares e civis, nomeadamente, por Ministros, Secretários de Estado e Subsecretários de Estado, como, por exemplo, Botelho Moniz (o ideólogo e chefe), Almeida Fernandes, Viana de Lemos e Costa Gomes: para Presidente da República, os revoltosos contavam com o Marechal Craveiro Lopes (que havia sido corrido da Presidência da República por Salazar e se opunha à sua política). Para Primeiro-Ministro, contavam com Marcelo Caetano, Pinto Barbosa ou Adriano Moreira, que terá chegado a ser sondado na preparação do Golpe. Alguns ainda não haviam sido contactados e outros foram apenas sondados, sem convites formais.

A reunião final do grupo revoltoso, onde estavam presentes os elementos mais importantes do Golpe, incluindo Craveiro Lopes, estava a realizar-se entre as 15 e as 17 horas do dia 13 de Abril, no Ministério da Defesa. Contudo, por intermédio do ajudante de campo, que estava a ouvir a rádio, cerca das 15:30 horas souberam que todos tinham sido demitidos e substituídos por outros militares. Até os carros oficiais lhes foram tirados e todos os ex-governantes tiveram de regressar a casa em carros de amigos (3). O Marechal Craveiro Lopes, que havia ido no seu carro, tinha a farda militar de gala dentro do porta-bagagens.

Quem terá sido o traidor ou conselheiro de Salazar? Para Costa Gomes, terá sido Kaulza de Arriaga (4). Parece que, depois de Américo Thomaz ter sabido do Golpe, informado certamente por Kaulza de Arriaga, foi logo avisar Salazar que não perdeu tempo. O Presidente da República, por sua vez, procurou logo desmobilizar vários comandos de unidades militares. Kaulza de Arriaga, Secretário de Estado da Força Aérea, deverá ter tido conhecimento do Golpe de Estado por intermédio de Adriano Moreira, face à amizade que existia entre ambos. De resto, na remodelação que Salazar fez, Adriano Moreira foi presenteado com o lugar de Ministro do Ultramar, em vez do cargo de Subsecretário de Estado que vinha exercendo, recebendo então muitos elogios. Acabaria por ser afastado do Ministério no ano seguinte.   

Alguns dos oficiais golpistas foram passados à reserva, enquanto que outros, os mais novos, foram transferidos. Por exemplo, Costa Gomes, depois de passar por Beja onde esteve “na prateleira” cerca de um ano, foi colocado em Elvas como comandante de uma unidade, nela recebendo louvores e aí permanecendo mais de um ano (4). Popularmente, passava “de cavalo para burro”, como, com o devido respeito, se diz.    

 Questionado sob quem teria sido o conselheiro ou “mexeriqueiro” de Salazar ou de Américo Thomaz, Costa Gomes afirmou não ter dúvidas de que teria sido Kaúlza de Arriaga (5). Sabe-se que terá funcionado aí a sua amizade com o professor Adriano Moreira, seu amigo capaz de sustentar adequada “conspiração” contra Botelho Moniz.  

Com algumas excepções, os revoltosos estavam contando com a maioria das unidades militares, situação que foi conhecida pelo Presidente da República quando Botelho Moniz ingenuamente o informou de parte dos seus projectos.

Na sequência do falhanço daquele Golpe de Estado, Salazar, que havia assumido o Ministério da Defesa Nacional, afirmaria, relativamente à política ultramarina e aos acontecimentos verificados em Angola no mês de Março: “Vamos dar caça aos terroristas por todo o lado… Não temos alternativa senão o extermínio”.      Essa remodelação governamental, para além de ter envolvido os militares revoltosos, promoveu Adriano Moreira de Subsecretário de Estado a Ministro do Ultramar, como referimos.

Para Kaúlza de Arriaga a promoção de Adriano Moreira terá sido a forma de Salazar o compensar pel“o grande serviço que lhe tinha prestado” e que, como atrás referimos, teria sido o possível “traidor” do Golpe de Estado frustrado.

 Após aquela remodelação ficou célebre no primeiro discurso de Salazar a justificação do seu novo Ministério da Defesa: …“numa palavra, e essa é Angola… Andar rapidamente e em força é o objectivo que vai pôr a nossa capacidade”… (6). Efectivamente, a partir daí intensificou-se o envio de tropas para Angola e para outras colónias portuguesas. Por outro lado, “abriu-se as portas” à emigração portuguesa para esses territórios. A política de Salazar foi “desembocar” numa extensa e dispendiosa guerra de Portugal contra as guerrilhas africanas, na independência das colónias, e noutra guerra civil entre os próprios povos descolonizados.

Foram treze anos de guerra, perdidos em milhares de mortes e de gastos totalmente inúteis para Portugal e para as respectivas colónias. É por isso que alguns homens da “Revolução do 25 de Abril” de 1974 pretendiam julgar Salazar e o regime, mesmo depois de ele ter falecido em 1970.

 Estamos convictos que se o Golpe de Estado de Botelho Moniz tivesse resultado, ter-se-ia certamente evitado a grande mortandade que as diversas guerras provocaram e poupava-se o elevado esforço financeiro que o País foi forçado a fazer. Por outro lado, poder-se-ia ter evitado o regresso dos portugueses estabelecidos naqueles territórios, alguns deles já lá nascidos.  

Bibl: Cruzeiro, Maria Manuela (entrevista), “Costa Gomes – O último Marechal”, (1998), p.p. 89-107, edição do Círculo de Leitores; Antunes, José Freire “Kennedy e Salazar – o leão e a raposa”, (1992), pp. 207 e 229,  edição Círculo de Leitores. 

(1). Cruzeiro, Maria Manuela (entrevista), “Costa Gomes – O último Marechal”, (1998), p. 98, edição do Círculo de Leitores; 

(2). “Quem é Quem – Portugueses Célebres” (2008), p. 367, edição do Círculo de Leitores;

(3). Cruzeiro, Maria Manuela (entrevista), “Costa Gomes – O último Marechal”, (1998), pp. 96 e 97, edição do Círculo de Leitores; 

(4). Cruzeiro, Maria Manuela (entrevista), “Costa Gomes – O último Marechal”, (1998), pp.  96 e 106, edição do Círculo de Leitores; 

(5). Cruzeiro, Maria Manuela (entrevista), “Costa Gomes – O último Marechal”, (1998), pp. 96 e 97, edição do Círculo de Leitores. 

(6). Antunes, José Freire “Kennedy e Salazar – o leão e a raposa”, (1992), pp. 226  e 227, edição do Círculo de Leitores. 

 

 

 

 

Ler mais
18
março

Fernando Gonçalves Emigrante de sucesso como empresário no Canadá

Publicado em José Trigueiro
Sê o primeiro a comentar

FLORENTINO QUE SE DISTINGUIU

Também conhecido por Fernando Gonçalves Capitão, nasceu na freguesia da Fazenda, concelho de Lajes das Flores, em 18 de Fevereiro 1933, filho de Maria do Rosário Gonçalves.

 No ano de 1943 concluiu a instrução primária com excelente aproveitamento, tendo tido como professores, para além da fazendense Isaura Gomes Vasconcelos, o regente escolar Francisco Ermelindo Machado Ávila, natural das Lajes do Pico.

 Trabalhando duramente na lavoura dos tios e da mãe, aí se manteve até ir cumprir o serviço militar, na Bateria de Costa da Horta, entre 1954 e 1955. Regressando às Flores, voltou para os mesmos trabalhos rurais da família.

 Depois de adequado namoro, casou em 1957 com Maria Salvador Viveiros, natural de Santa Cruz das Flores, onde nasceu em 2 de Outubro de 1933, também residente na freguesia da Fazenda, visto os pais terem fixado aí residência, já que eram naturais da vila de Santa Cruz. Estes, que tinham uma extensa família, viviam muito pobremente do trabalho do pai, que era essencialmente caiador.

 Em 1959 o casal emigrou para o Canadá, rumando para Vancouver, onde ela já tinha alguns irmãos, nomeadamente o José Viveiros. Fixou residência em Richmond City, localidade muito próxima daquela cidade do Pacífico.

Do casal nasceram os filhos Fernanda V. Gonçalves, nascida a 27 de Abril de 1963, Cristina V. Gonçalves, nascida a 25 de Dezembro de 1964, José V. Gonçalves, nascido a 27 de Abril de 1967, e Roy V. Gonçalves, nascido a 2 de Junho de 1973. Destes, a filha mais velha, que domina muito bem a língua portuguesa, é a que revela maior interesse pela ilha das Flores, onde passa algumas das suas férias.

 O seu primeiro trabalho no Canadá foi num “rancho” de vacas leiteiras, cujo patrão, como tinha vivido no Brasil, conhecia a língua portuguesa e cedo se apercebeu das excelentes qualidades do Fernando Gonçalves como homem inteligente, honesto e trabalhador. Assim, quando surgiu próximo à venda um terreno com cerca de 40 alqueires de terra, esse seu patrão insistiu com ele para o comprar a fim de nele estabelecer o seu primeiro negócio. Para o efeito emprestou-lhe o dinheiro necessário para essa compra, a juros acessíveis.

Feita essa aquisição, e embora mantendo o emprego, Fernando, juntamente com a mulher, antes e depois das horas de serviço, trabalhava os seus terrenos. Neles produziam batatas e hortaliças que, com grande sacrifício, vendia pelas portas, essencialmente a emigrantes portugueses. Todos esses serviços, embora com características semelhantes àqueles que ele fazia nas Flores, garantiram-lhe uma grande aprendizagem nos negócios do Canadá.  A honestidade foi sempre a sua grande “arma”.

Mais tarde, como o patrão quis acabar com a sua empresa, tomou-lhe de renda 400 alqueires de terra, mesmo junto dos seus terrenos, formando a sua própria empresa – a “Fernandos Farms Company”. O casal trabalhava diariamente das 4:00 horas da madrugada até às 10:00 horas da noite, produzindo, praticamente, todo o tipo de hortaliças. Para além da ajuda preciosa da mulher, tinha vários homens a trabalhar na empresa, havendo períodos em que lá trabalhavam mais de 50 homens, sobretudo no Verão, por ocasião da recolha dos produtos.  

O Fernando produzia, deste modo, grande variedade e quantidade de horticultura, enquanto que a esposa, Maria Viveiros, que era o seu braço direito dirigia, com cerca de 8 homens, as respectivas vendas. Essas vendas eram essencialmente feitas a fábricas, para onde iam camiões e camiões de produtos, como matérias-primas, nomeadamente pepinos, batatas e outras variedades de hortaliças e legumes. Em estabelecimento da empresa eram feitas vendas permanentes a consumidores e a outros estabelecimentos de retalho de todo o tipo de hortaliças e legumes nela produzidos.

A sua empresa tinha advogados e escritórios de contabilidade contratados para as suas necessidades legais. Consta que chegou a ter anos em que o volume de negócios ultrapassava um milhão de dólares, dimensão pouco frequente no domínio de um emigrante, cuja escolaridade era apenas a 4.ª classe do Ensino Primário, embora desfrutando de uma privilegiada inteligência e de uma grande experiência de vida. O domínio da língua inglesa, que de início estudara com dedicação, era o necessário para dirigir com eficiência os seus negócios.

Depois de tantos anos de trabalho árduo, quer dele, quer da mulher, Fernando Gonçalves foi acometido de doença grave e fatal, um cancro nos pulmões, que o vitimou em escassos meses, vindo a falecer a 25 de Abril de 2006.

Assim, quando faleceu era um dos emigrantes portugueses mais ricos e mais realizado que existia na província de Bristish Columbia, Canadá. Deste modo, depois de cerca de 40 anos de actividade, a “Fernandos Farms Company”, fechou nesse ano de 2006, em virtude de nenhum dos filhos ter tido a coragem de a manter, apesar da muita instrução que possuem, se comparada com a dos pais.

Voltando aos anos da sua juventude, recordámo-nos que Fernando Gonçalves jogou futebol no Grupo Desportivo Fazendense, onde só as botas o incomodavam, em virtude de não estar habituado a andar calçado. Como acontecia com a grande maioria dos florentinos desse tempo, andava descalço e, antes de emigrar, salvo algumas excepções, os sapatos só terão ido aos seus pés em dias de festa ou para cumprir o serviço militar.

Por ter jogado futebol no Fazendense, quando vinha cá de visita chegou a acompanhar as “velhas-guardas” da equipa e dos dirigentes em alguns dos seus jantares de confraternização que realizávamos nas Flores, onde eu entrava, geralmente, como organizador.

 Durante a sua vida não terá viajado muito, essencialmente por falta de tempo, mas veio às Flores com a esposa, por várias vezes, onde na freguesia da Fazenda vinha visitar a irmã, Zulmira Gonçalves e os amigos. Aí tinha casa de habitação, adquirida aos herdeiros de Luís José Armas Gomes, conhecido por Luís d’Avô, casa essa que mantinha conservada para nela viver quando viesse a férias. Essa habitação fica na Rua Padre Francisco Cristiano Korth, precisamente ao lado da casa onde a mulher viveu a sua juventude. Trata-se de um património que as filhas desejam manter para o mesmo fim. 

De feitio introvertido e sério, a sua honestidade e o seu trabalho intenso, comuns à esposa, foram a base essencial de todo o seu sucesso, nos arredores da cidade de Vancouver, onde o visitei em 1984. Embora sentindo orgulho pelo êxito obtido como emigrante, era humilde e prestável para com todos os que dele careciam. 

___________

 BIBL: Currículo remetido pelo cunhado do biografado, Francisco Armas Trigueiro, elaborado em 29-11-2006, que arquivo nos meus documentos; Trigueiro, José Arlindo Armas Trigueiro, “Fazenda das Flores – Um Século de Sucesso 1900-2000”, (2008), pp. 354-356), ed. da Junta de Freguesia da Fazenda.  

 

Ler mais
  • Anterior
  • 34
  • 35
  • 36
  • 37
  • 38
  • 39
  • 40
  • 41
  • 42
  • 43
  • Seguinte
  • Fim
  • Perdeu a senha?
  • Esqueceu-se do nome de utilizador?
  • Registe-se!
  • Contatos
  • Pesquisa
  • Assinatura
Copyright © Tribuna das Ilhas 2026 All rights reserved. Custom Design by Youjoomla.com
Cartoons