Em 2015, durante 33 dias consecutivos, Benjamim e outros companheiros de viagem tocaram Auto Rádio em todo o lado: varandas, esplanadas, coretos, cafés, festivais de música, auditórios, janelas de casas... mas não em cima de um calhau, no meio do mar. Aconteceu sábado passado, no Sporting Clube da Horta. O primeiro concerto da segunda edição da MúMa – Temporada de Música em Março trouxe ao Faial um rapaz novo, de olhar inquieto e profundo, com um caminho ao contrário das tendências dominantes – talvez por isso, a maioria das pessoas que foram ao concerto mal o conheciam. Benjamim, que já foi Walter Benjamin (o filósofo) e na verdade é Luís Nunes, trocou a cidade grande (Londres) pela vila (Alvito, no Alentejo). Trocou porque queria escrever e cantar canções em português, “uma experiência absolutamente transformadora e libertadora”, que se entranhou na sua vida e na sua música. As canções de Benjamim falam de coisas que não podem ser escritas em inglês: histórias do Ultramar, pessoas como o Quinito, que encontra todos os dias no café e todos os dias lhe fala da Guiné. Então, Auto Rádio (Pataca Discos, 2015) é um disco político? “Eu acho que é um disco de consciência, tem a ver com a nossa identidade, com aquilo que nós somos. Ainda hoje há não-sei-quantos ‘quinitos’ espalhados por aí e não há canções sobre isso”. É neste mundo real que Benjamim quer estar, perto das pessoas, onde há espaço e liberdade para escrever canções que chegam a elas: “nós fomos este Verão que nem loucos por todo o país para levar música às pessoas, para ‘nós’ falarmos com as pessoas e para as conhecermos. E, portanto, o único sítio onde eu quero chegar é onde estou agora, é onde posso fazer isso”. No “agora” da MúMa, Benjamim, acompanhado por António Dias, criou um ambiente de salão de baile dos tempos modernos, com canções densas e notas de ternura, num concerto em que misturou doses cáusticas de electrónica com rasgos quase românticos de guitarra, para afirmar, sem preconceitos, a raiz urbana da sua música mas também para construir o tal espaço de proximidade que lhe permite comunicar com as pessoas – coisas tão importantes e necessárias como “a vergonha política absolutamente aterradora que se está a passar na Europa”, de que fala Terra Firme, uma canção inédita sobre o problema dos refugiados, que Benjamim ofereceu ao público, na primeira das 5 noites da MúMa 2016. Coisas raras, que projectos como este, nascido no Faial pela mão da Associação Cultural Música Vadia, promovem e que, por serem especiais, são, acrescenta energicamente Benjamim, “absolutamente essenciais!”. “O facto de virmos aqui tocar encheu-nos de felicidade! É essencial para mim, enquanto músico, que haja um sítio assim, porque isto também forma a minha música. Eu espero que continue a haver espaços destes, não só aqui mas por todo o país”.
O Sporting (da Horta), que é como quem diz o Faial, ganhou na liga MúMa - um campeonato em que só joga a boa música portuguesa e em que ganham todos os que forem capazes de abrir o coração (e a cabeça) ao que é novo.