Começou esta semana, em Santa Maria, o Festival de Música dos Açores, iniciativa da Associação Cultural Jazzores que conta com o apoio do Governo dos Açores, bem como do Teatro Micaelense enquanto co-produtor. O Festival decorre até 4 de Novembro e tem no cartaz oito concertos distribuídos por quatro ilhas: Santa Maria, São Miguel, Faial e Pico, além de iniciativas pedagógicas e um concerto informal.
Destes, a cidade da Horta recebe dois, por sinal os últimos do programa, a realizar em ambos os casos no Teatro Faialense. O primeiro será um recital de piano solo por Marino Formenti, no dia 3 (21.30).
Marino Formenti é um intérprete absolutamente consagrado mundialmente e sem dúvida um dos maiores pianistas atuais no âmbito da nova música e do repertório das vanguardas do segundo pós-Guerra. Basta olhar para a sua discografia, distribuída por etiquetas como Kairos, Wergo, Winter&Winter ou col legno, para aferir a dimensão deste artista. Mas ele é acima de tudo um artista aventuroso, que gosta de surpreender, improvisar e cruzar-se com outras artes/artistas, além de ser um incansável experimentador de novas fórmulas de comunicação do acto musical que envolvam mais de perto o público, o que tem posto em prática nos principais centros mundiais da música. Por exemplo, na Primavera participou num projecto nos jardins da Fundação Gulbenkian, em Lisboa, que envolveu ele habitar durante três semanas uma casa construída para o efeito, passando a quase totalidade das horas de vigília a tocar piano, sendo que qualquer um poderia entrar e fica a escutá-lo pelo tempo que quisesse, além de que o projeto era ‘livestreamed’ em contínuo!
Nos Açores ele também fará algo de inesperado: logo após o seu recital em Ponta Delgada (no dia 31), Formenti rumará a um bar no centro da cidade, onde se propõe tocar noite dentro com quem quer que apareça e se disponha. Um gesto típico do artista-no-mundo Formenti!
Ao Faialense ele traz um programa que cruza a música do importante compositor húngaro György Kurtág (n. 1926) com a de Johann Sebastian Bach, programa ao qual chamou ‘Kurtág’s Ghosts vol. 2’ (‘Os fantasmas de Kurtág’) e que tem estreia absoluta aqui nos Açores. O título remete para um CD desse título (que será o ‘vol. 1’) editado na Kairos e onde cruza Kurtág com muitos outros autores da história da música de tecla. Formenti diz-se “muito entusiasmado por estrear este novo projeto nos Açores, sendo que espero vir a tocá-lo doravante em muitos outros lugares”.
O segundo concerto será no dia 4 de Novembro (21.30), pelo Alban Berg Ensemble de Viena. É a primeira vez que este Ensemble toca em território português. Eles são os continuadores da tradição deixada pelo famoso Quarteto Alban Berg, um dos mais marcantes quartetos de cordas do século XX, sendo que foi a própria Fundação Alban Berg (Viena), guardiã da memória do famoso compositor austríaco, a propor-lhes que tomassem o “testemunho” de haver (de novo) um ensemble com o nome Alban Berg.
Vêm aos Açores na formação de quinteto com piano, com um programa também concebido especialmente para o Festival, com obras de Franz Schubert, Anton Webern, Lukas Haselböck (n. 1972) e, como prato-forte, o magnífico ‘Quinteto com piano, em fá menor’, de Brahms, uma grande obra-prima da música de câmara do século XIX. Um programa que antes de mais celebra a cidade de Viena como capital da música, desde o tempo de Schubert até aos tempos actuais.
As ações pedagógicas associadas ao Festival decorrem no Conservatório Regional de Ponta Delgada.