A organização da Associação Cultural Música Vadia está a organizar, durante estes quatro fins-de-semana, na cidade da Horta, o Múma - Música em Março. Os concertos decorrem na sala do Sporting com o bar sempre muito por perto. É, sem dúvida, uma iniciativa bastante promissora e valiosa, contendo muitos e bons ingredientes para se tornar num polo aglutinador e promotor da música nova que se faz em Portugal e, quem sabe, para repetir em futuras edições. Refira-se que a organização contou também com o inexcedível apoio do Sporting da Horta, que está de parabéns pela abertura e iniciativa e a co-produção do FAZENDO.
A abrir esta primeira edição do Múma que, por sinal começou em Fevereiro, a presença do músico J.P.Simões que contou com uma sala bem composta e primorosamente decorada para assistir a um concerto de um músico que é conhecido pela sua cadência melódica romântica. Dotado de um distinto timbre vocal, com uma entoação arrastada e muito marcada pelas letras aguçadas e certeiras, é revelador de algumas canções marcantes até ao momento com influências do outro lado do Atlântico – há quem lhe chame o Chico Buarque português. Já passaram, no entanto, mais de dez anos sobre os “Quinteto Tati” e houve, entretanto, o disco “1970”, e um trovador em dueto com Márcia (a canção chamava-se “A Pele que Há em Mim (Quando o Dia Entardeceu”), que ajudou a elevar-se ao trono da popularidade. Para trás ficou a participação enquanto cantor dos "Belle Chase Hotel" e várias “óperas musicais” levadas ao palco em forma de canção. Questionado sobre um possível regresso dos autores de “Sunset Boulevard”, J.P.Simões é perentório: “naturalmente, já não tenho saudades da primeira namorada”. Passam quase dois anos sobre a edição de “Roma” e, após quatro discos a título pessoal, J.P.Simões afirma que “muito embora tenha três discos prontos, está na altura de “regressar ao rock, à formação elétrica e eletrizante, pois tenho saudades do lado excessivo deste género musical”. Talvez, por isso, este espetáculo tocou ao de leve em “Roma”, álbum editado em abril de 2013, tendo o músico se concentrado essencialmente nas canções que fez para a peça “A Boa Alma”, de Bertolt Brecht, numa encenação de Mónica Calle, bem como em algumas canções novas que fez após “uma leitura entusiasmada e apaixonada dos álbuns de Nick Drake e as alterações à afinação da guitarra”. Depois, refere com a sua habitual ironia mordaz: “canto sempre as minhas versões de “Eleanor Rigby”, dos Beatles, “Gota de Água”, de Chico Buarque, e “Inquietação”, de José Mário Branco, essencialmente para verem que eu roubei”.
Quem quis muito assistir ao concerto na sala do Sporting da Horta, no último dia 28 de Fevereiro, não pôde aceder à plenitude deste cantor revelada e demonstrada em anteriores concertos, já que este tipo de canções requer concentração e, se possível, total silêncio, para ouvir e compreender as letras, coisa que na realidade esteve muito longe de acontecer. Na verdade, foram poucas as trovas que se elevaram ao estatuto de comunhão e fruição plena, com o “cantautor” a assumir algum cansaço físico, ironizando consigo próprio, referindo que mais parecia um típico baladeiro caído em desgraça, ao apresentar-se em palco sem a habitual e desconcertante energia, “muito por culpa de ter subido o Pico de costas”.
Sozinho em palco e com as suas canções que, segundo J.P.Simões, são de “uma melancolia excruciante”, o músico afastou-se das profícuas dissonâncias e ousadias aquando da apresentação do disco “Roma”, na sede do Alpendre, na Ilha Terceira, em Maio de 2013. O fogacho ainda acendeu um pouco na parte final, quando regressou ao “que é considerado por muitos o seu melhor álbum” e para cantar: “Gosto de me drogar/de beber como um louco/acho sempre que é pouco/quero engolir o mar/só assim me suporto/e então não me importo/de ouvir cantar o fado/e ficar deslumbrado com.../sei lá o quê”. Foi pena, pois, por muito boa vontade que se tenha, este género de concerto está longe de se enquadrar num ambiente festivo de descompressão de fim-de-semana, próximo da festa popular, o que desvirtuou em grande medida a atenção e capacidade de envolvimento com estas canções melancólicas e ácidas do músico. A organização tudo fez para minimizar a proximidade e ruído proveniente da proximidade do bar, mas terá sido infrutífero. Não foi fácil, não é fácil…muito menos subir o Pico de costas, ainda por cima de bicicleta e com tanta gente ruidosa a atropelar-se. Venham, portanto, os Virgem Suta.