Ao contrário dos concertos anteriores, a sede do Sporting da Horta não se encontrava repleta para assistir ao terceiro concerto desta primeira edição da Múma-Música em Março. A associação Musical Música Vadia, com a co-produção do FAZENDO, apresentou desta vez PZ-Paulo Zé Pimenta, sozinho em palco, conhecido por “mestre das máquinas de fazer sons”, acabadinho de sair do seu quarto com o seu sampler, sintetizador e música de computador com a promessa de mais uma vez variar o género e o ambiente. O dito programa cultural já tinha começado algum tempo antes com as leituras no jardim de São Francisco, organizadas pelo Teatro de Giz e, no início da noite, com a peça “Bzura” dos Palmilha Dentada, no Teatro Faialense, em mais um promissor momento teatral disponibilizado à comunidade.
Algumas horas antes, PZ já tinha apalavrado que surgiria em palco com a sua indumentária preferida: o pijama, daí que não tenha sido surpresa quando este se mostrou às cerca de cem pessoas presentes que compraram o bilhete. A explicação é que grande parte dos temas foram compostos com este vestuário a altas horas da madrugada e, por isso, PZ apresentou-se com a sua música eletrónica e muitos beats, aliados a variadíssimos efeitos sonoros e ainda o seu arrojo e liberdade criativa na composição dos temas e das letras, para além de um humor directo e simples para captar a atenção dos mais jovens que quiseram, assim, também estar presentes, inclusive com um cartaz alusivo a um dos temas do cantor. Assim, o terceiro concerto deste Múma teve como principal condão de apontar o foco para esta música electrónica divertida q.b e descomplexada, com laivos de intervenção social e política, permitindo a outro tipo de público, sobretudo, mais jovem, constatar e assistir ao vivo a este tipo de atitude e género musical em terras lusitanas. Essencialmente, a particularidade de ficar a conhecer que se pode cantar em português temas como a corrupção, o compadrio ou o desaparecimento dos croquetes, como quem não quer a coisa. PZ tinha, portanto, a tarefa ardilosa de pontuar de luz e diversão uma noite por si só sombria e chuvosa.
Desta feita, PZ perfilou, para este seu primeiro concerto em terras faialenses, canções do primeiro álbum -“Anticorpos”, gravado em 2005, continuando o seu trabalho de divulgação de “Rude Sofisticado”, de 2012, tendo levantado ainda a ponta do véu do terceiro disco pronto a ser lançado em Setembro, ao cantar o tema “Dinheiro”, mas ainda com alguma indefinição quanto ao título do disco já pronto. Começou a sua prestação com “Outro Lado”, cantando logo de seguida o tema “O que me vale és tu!”, retirado do disco “Rude Sofisticado”, atacando depois o seu canto de intervenção ao colocar o dedo na ferida com “Autarquias”, sobretudo num refrão directo e desassombrado. Seguiu-se o desencanto em “Mundo”, para logo depois dar azo ao tema mais esperado e curioso da noite “Croquetes”, num refrão surrealista: “De pernas afastadas/ sento-me à mesa/Baterias apontadas aos croquetes/olho para o lado e tiro um ou dois/ Não há todos os dias que há croquetes/Olho à minha volta/ mas quem é esta gente?/ querem-me roubar os croquetes/olho para o lado e tiro três ou quatro/croquetes”. O público incrédulo não acreditava no que ouvia e por isso PZ prosseguiu com “Horários Marados”, voltando à carga interventiva com “Grande F.D.P”, uma letra sem medo e com a intenção declarada de chamar os “bois pelos nomes”. Ainda na parte final, cantou as suas colaborações sobre os beats de dB, temas que lhe granjearam fama e reconhecimento extra no mundo do “you tube”: “Tu és a Minha Gaja” e “Cara de Chewbaka”, onde neste último tema o cantor aborda com ironia e sarcasmo o delicado assunto da perfeição feminina que tanto recai hoje em dia sobre as mulheres que procuram o ideal de beleza: “É fixe, é boa, decente e não fuma crack à toa./ Não mente, é inteligente e diferente, / mas tem cara de Chewbacca.”. Serviu, portanto, para ganhar balanço e energia com “Passeio” e terminou esta sua hora musical de refrões acessíveis, directos e humorísticos com “Introdução Maligna”, que abriu o seu último disco. Regressou, por fim, ao palco para cantar ainda mais dois temas, um sobre “uma rapariga atrasada mental” e ainda o já badalado tema “Croquetes”, mas já sem letreiro por parte do público, por sinal feliz com a prestação do músico.
Antes do concerto foi abordado em diálogo o que está por detrás da construção destes temas e do início deste projecto musical, falou-se também d`”A Meifumado” que é um projeto de PZ com o irmão, Renato Araújo e o Sérgio Freitas, que são também elementos da Zany Dislexic Band, tendo começado tudo por aqui. Falou-se ainda de estar surpreendido com estes Açores, por si desconhecidos: “uma surpresa muito positiva que vai da arquitectura ao acolhimento”. O cantor referiu, inclusive, com espanto: “Não sinto falta de nada aqui, não me importaria de ficar por aqui a viver e a criar família”, com o seu sotaque portuense, aliás, bem tripeiro. Orgulhoso por voltar aos Açores e pela primeira vez no Faial, reconhece que foi por preguiça que desconhecia este Portugal em que “está tudo tão bem conservado, as coisas têm outro ritmo e as pessoas são verdadeiramente hospitaleiras”, afiançou.
Por fim, uma nota para referir que se aguarda com grande expectativa o último concerto do Múma com o duo Tocha/Pestana! Será que a sede do Sporting será capaz de conter tanta expetativa?