Se o famoso herói de banda desenhada Lucky Luke era mais rápido que a própria sombra, o Trimaran Actual, um multi-cascos de 50 pés, não lhe fica atrás. O veleiro do skipper francês Yves Le Blevec foi concebido para ser uma máquina de velocidade, e consegue velejar mais depressa do que o vento. Uma espécie de “magia”, como lhe chama Le Blevec, que faz com que barcos como este dêem vontade de estabelecer recordes. E foi precisamente para estabelecer um tempo de referência do maior número de milhas náuticas percorridas em 24 horas que Yves Le Blevec trouxe o Actual até ao Faial, de onde, ao início da tarde de quarta-feira, largou em direcção à França para cumprir o seu objectivo. Antes da partida, no entanto, o skipper convidou os jornalistas a bordo e levou-os para uma viagem no Canal, para “um cheirinho” daquilo que o barco é capaz de fazer.
Com cerca de 15 metros de comprimento, o Actual pesa 4.200 kg e tem uma superfície de vela de 270 m2. Inscrito na classe Multi50, destaca-se de todos os restantes barcos ancorados na Marina da Horta. Se assim, em “cativeiro”, nos impressionamos com a sua imponência, quando passa ao seu meio natural, que é como quem diz ao alto mar, não conseguimos deixar de ficar boquiabertos, independentemente de sermos apreciadores de vela ou não.
O seu aspecto e a forma como rasga as ondas fazem-no parecer uma gaivota gigante, colorida e rápida. Muito Rápida. O Actual consegue a proeza de velejar mais depressa que o vento, como comprovou durante a sua estadia no Faial, num dia em que, com o vento a 18 nós, o trimaran atingiu os 25.
Com a cidade mar a servir de cenário, a baía repleta de barcos da vela ligeira e vela de cruzeiro e um dia radioso de Verão, o enquadramento não podia ser melhor. E se é bom observar este espectáculo tão bem conjugado, melhor ainda é fazer parte dele, a bordo do Actual.
O trimaran não foi concebido para navegar. Foi concebido para voar sobre as ondas. O espaço reservado à acomodação da tripulação é mínimo, e sem grandes confortos. O Actual não foi feito para passear. Foi feito para competir. E quanto mais desafiante for a competição, melhor. Talhado para grandes regatas oceânicas, a viagem entre a Horta e a França serve de preparação para esse tipo de provas. No entanto, a viagem entre o Faial e o porto de La Trinité-sur-Mer tem ainda outro objectivo, mais especial: Le Blevec quer estabelecer o maior número de milhas náuticas percorridas em 24 horas. Para isso, conta chegar à França no espaço de três dias, o que implica percorrer uma média de 500 milhas por dia.
No porto da Horta, o skipper esperou pelas condições meteorológicas ideais para esta façanha, que no entanto não chegaram. A necessidade de estar em França na próxima semana fez com que Le Blevec acabasse por partir, e o dia escolhido foi a quarta-feira, pelo facto das condições se aproximarem das ideais.
Para além de Le Blevec, integra a tripulação do Actual Sandrine Pelletier, para quem o trimaran já não tem segredos. A velejadora também conhece bem o mar dos Açores, já que há dois anos participou na regata Les Sables/Les Açores/Les Sables, em barcos da classe dos 6,5 metros, prova cuja edição de 2012 passa por estes dias pela Horta. Também Le Blevec, que já venceu as regatas Jacques Vabres e Mini Transact, conhece bem estas águas.
Le Blevec destaca a importância da Horta para a vela oceânica, não apenas pela sua posição estratégica no Atlântico mas pela forma como recebe os velejadores: “somos magnificamente acolhidos pelo Armando Castro e a sua equipa”, refere.
Para o skipper, seria proveitoso utilizar rotas entre a França e o Faial para dinamizar novas regatas oceânicas, principalmente no que aos multicascos diz respeito, que serviriam de preparação para as grandes competições internacionais.