Este ano celebrou-se pela primeira vez em Portugal, o Dia Nacional da Gastronomia. No ano passado a Assembleia da República aprovou por unanimidade um projeto de resolução, que instituíu que a partir de 2016, o Dia Nacional da Gastronomia se assinala em cada último domingo do mês de maio. Este ano o Dia Nacional da Gastronomia celebrou-se a 29 de maio.
A gastronomia dos Açores é uma das imagens de marca do arquipélago, apesar de existirem traços muito comuns com a gastronomia nacional, os sabores açorianos distinguem-se por um cunho próprio. Quer nas entradas que contemplam os vários queijos açorianos, começando pelo queijo fresco servido com a pimenta da terra, ao queijo de São Jorge, ou mesmo os chicharros com molho vilão.
O peixe e marisco dos Açores são uma das imagens de marca do arquipélago. Na cozinha açoriana o peixe fresco apanhado em águas abertas é o mais procurado. À mesa dos açorianos serve-se o atum no forno ou grelhado, os chicharros servidos com o molho crú, passando pela abrótea e o espadarte que também são peixes comuns nas mesas dos açorianos, bem como as caldeiradas e os caldos de peixe.
O marisco é conhecido pela sua frescura: as lapas, servidas ao natural, em Molho Afonso, na grelha ou ainda em arroz, a lagosta, os cavacos, as santolas, o caranguejo e ainda as cracas deliciam os paladares dos açorianos e de quem os visita. É possível ainda saborear ameijoas frescas na ilha de São Jorge, o único local onde estes moluscos bivalves crescem.
A carne de vaca dos Açores é um produto com IGP (Indicação Geográfica Protegida) e é base de um dos pratos mais conhecidos dos Açores: a alcatra da Terceira, a molha de carne e do conhecido bife à regional, temperado com alho e malagueta.
A carne de porco também faz parte da tradição açoriana, desde os enchidos como a linguiça e a morcela acompanhada com inhame, laranja ou ananás, respetivamente.
Os doces que compõem a gastronomia açoriana são na sua maioria de tradição conventual e podem ser acompanhados de vinho verdelho ou dos vários licores e aguardentes feitos pelas ilhas.
Por esta altura do ano celebram-se as Festas do Espírito Santo e uma das especialidades dos Açores são as sopas do Espírito Santo, a massa sovada e o arroz doce.
Todas estas iguarias açorianas estão presentes nos restaurantes açorianos. No Faial são vários os restaurantes que contemplam nas suas ementas os pratos regionais. Outros há que apostam em pratos mais ousados.
Os proprietários dos restaurantes A Árvore, Canto da Doca e Genuíno aceitaram falar com o Tribuna das Ilhas acerca do panorama da restauração na ilha do Faial.
O restaurante “A Árvore” é um dos restaurantes mais antigos da ilha do Faial. Isaura e José Manuel Rodrigues, proprietários do restaurante, estão há 33 anos na área da restauração. Primeiro tiveram o seu estabelecimento na Lombega, em Castelo Branco, e há 23 anos mudaram-se para a Conceição.
Os proprietários do restaurante “A Árvore” especializaram-se no buffet de comida tradicional regional e nacional. José Manuel Rodrigues explicou que os clientes nacionais e estrangeiros quando visitam o Faial querem experimentar a comida típica e tradicional do local onde estão de visita, e diz que “é esta a nossa aposta”. No entanto salientam que têm em atenção outras opções, tanto para os mais novos, como para os vegetarianos. Isaura Rodrigues salientou “hoje em dia aparecem cada vez mais pessoas que só aderem a este tipo de alimentação e temos sempre isto em atenção”.
Em relação à situação do negócio José Manuel Rodrigues diz que a grande alteração notada foi aquando da alteração da moeda, - do escudo para o euro, - e frisou “a entrada do euro baixou muito a economia da restauração. O turismo nacional baixou muito fruto da crise económica que se instalou no país.
Segundo os proprietários, a época baixa é a fase mais complicada da restauração, porque os locais cada vez menos saem de casa para ir a um restaurante, e cada vez menos fazem festas em restaurantes. Na época alta são os estrangeiros quem mais procura o restaurante.
Isaura Rodrigues revelou que o prato mais procurado no seu restaurante é a molha de carne, um prato tradicional do Faial, a par da linguiça assada, o feijão e os pastéis de carne e o arroz doce, que não falta nas sobremesas.
Na sua cozinha, Isaura Rodrigues dá preferência aos produtos locais e regionais mas na falta destes recorre aos produtos nacionais.
Isaura Rodrigues também consagrou as suas receitas num livro de culinária “As receitas da Isaura”, onde compila uma série de receitas tradicionais, deixando o seu cunho pessoal na história da gastronomia faialense.
O “Canto da Doca” é um restaurante que tem a particularidade de todos os pratos, de carne ou peixe, serem confecionados na pedra. O cliente é o próprio cozinheiro o que permite que, enquanto a porta do restaurante estiver aberta, a cozinha também esteja.
Hélder Castro, proprietário do restaurante “Canto da Doca”, abriu portas há quase 25 anos. Depois de vários anos emigrado nos Estados Unidos da América regressou ao Faial e notou que, naquela altura, não havia nenhum local para comer depois das 20h30, e decidiu abrir um local onde pudesse servir tardiamente refeições, inicialmente não fazia ideia do que ia servir, mas explicou que quando estava a preparar o espaço com o arquiteto da obra foram a um restaurante no continente onde serviam nacos de carne na pedra. Gostou da ideia e transportou-a para o seu espaço. Pode servir sempre uma refeição quente e não estar completamente dependente de um cozinheiro. Inicialmente o “Canto da Doca” era um bar e restaurante, mas passados seis anos passou somente a restaurante devido à grande afluência das pessoas.
No restaurante são servidas travessas que podem ser compostas por atum, espadarte, peixe porco, lapas, lulas, camarões, bifes de frango, de porco ou de vaca, cozinhados pelo próprio cliente e acompanhados de molhos especiais.
As sobremesas com mais saída são o pudim de ananás e o de bolacha e ainda o gelado de manteiga de amendoim. Hélder Castro diz que compra sempre produtos regionais e que recorre apenas aos nacionais na falta dos primeiros.
Confessou que, para si, enquanto empresário, o panorama da restauração “não está muito mau” e disse ainda que “o pior que aconteceu nos últimos anos foi o aumento do IVA” e que as perspetivas para o futuro são boas.
Em relação à procura os turistas são os clientes predominantes na época de verão, mas o proprietário diz que os locais procuram muito o restaurante, e disse ainda que o facto de ter uma modalidade diferente de serviço leva a que muitos locais quando recebem visitas de amigos ou família levem-nos ao restaurante para mostrar algo diferente.
Hélder Castro diz que o segredo do sucesso do seu restaurante é: Pedras quentes, comida fresca e empregados simpáticos.
Falamos ainda com o proprietário de um dos restaurantes que abriu recentemente na cidade da Horta “Genuíno”, de Genuíno Madruga. A 6 de junho celebra o segundo aniversário da abertura ao público.
Genuíno Madruga classifica o seu restaurante de “muito singular” porque as pessoas vêm comer peixe açoriano que como diz “é um peixe de excelência e altamente apreciado fora dos Açores”. O proprietário diz que havia uma lacuna na confeção especializada de peixe, e decidiu apostar na confeção do peixe dos açores, e aliou à comida a sua história enquanto o único navegador solitário dos Açores a dar duas voltas ao mundo e refere “as pessoas não vêm só comer, vêm ver coisas e ouvir as minhas histórias”. Toda a decoração do restaurante é composta das recordações que Genuíno trouxe das suas viagens.
O proprietário considera que a localização do seu restaurante é uma mais valia, estando a “meia dúzia de metros do mar” e considera que o seu restaurante tem tudo para ser diferente.
Ao longo destes dois anos o restaurante tem ganho uma grande fama, devido aos amigos que fez durante as suas viagens e que o visitam e que passam a palavra e outras que voltam, destacando os iatistas, e disse que também há muitas pessoas que acompanharam as suas viagens pelo mundo fora.
Genuíno Madruga salientou ainda que o seu restaurante, a par de outros na ilha, é uma mais valia, e espera que o seu espaço contribua para o salto que se pretende dar a nível do turismo nos Açores e no Faial.
Além dos turistas, “Genuíno” tem vários clientes locais e todas as sextas-feiras há Noite de Fados.
Em termos de gastronomia a grande aposta de Genuíno Madruga é o peixe do Mar dos Açores e procura aproveitar algumas espécies que não tinham grande valor no mercado como a veja, o peixe porco e o chicharro do alto. Os pratos com mais saída são o bife de atum grelhado, os filetes de abrótea com migas e as almôndegas de atum com puré de batata doce.
Genuíno Madruga considera que apesar da recente experiência na área da restauração foi uma “aposta ganha e para ficar”.
Além destes três restaurantes são muitos mais os que fazem as delícias de locais e turistas.