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27
março

Cantigas ao Desafio

Escrito por  Sofia Ribeiro
Publicado em Sofia Ribeiro
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Há políticos que são verdadeiros cantadores ao desafio. Regra geral com um grupo de cantares bem afinado (se pertencerem à máquina do Governo, os instrumentos são mais requintados), a sua estratégia consiste na provocação, dado que a única certeza é a imprevisibilidade da resposta do adversário e, consequentemente, da forma como reagir a seguir. São verdadeiros entertainers, provocadores, mestres do desafio e do improviso, que se vangloriam dos seus “extraordinários” feitos, como se não lhes fosse exigido nada mais para além da resposta imediata.

De cantigas destas (que as populares são sempre apreciadas e fazem parte da nossa cultura) está o povo farto. Hoje a música é outra. As exigências que se nos colocam requerem não somente capacidade de resposta, mas um planeamento bem definido, atinente às nossas capacidades e constrangimentos.

Como me disse um amigo, estamos a chegar à tempestade perfeita. O termo das quotas leiteiras, a redução de efectivos da Base das Lajes, a precária situação financeira da SATA, da SINAGA, da Conserveira Santa Catarina, das Cooperativas de Queijo e de Lacticínios podem destruir todo o tecido económico da Região. Como se já não bastasse termos dos piores indicadores de desenvolvimento humano do país e da Europa (os índices de desemprego, o número relativo de indivíduos que dependem do rendimento social de inserção e o insucesso e abandono escolares constituem alguns exemplos), está a formar-se um conjunto de situações que pode conduzir a uma degradação acentuada dos nossos padrões sociais. Ao contrário do que sucede com a maioria das catástrofes naturais, estas vieram com pré-aviso. De vários anos, na maioria dos casos. 

Que fizemos nós? Improvisámos, injectámos dinheiro (Europeu, o que é comummente ocultado, por conveniência política), criámos diversões para entreter o povo, apostámos no combate partidário e não temos estratégia de desenvolvimento. Ficámos à espera que o problema se resolvesse por si e não soubemos criar as provisões para enfrentar as tempestades. Uma genuína vontade de alterar o actual estado da arte requer vontade de encontrar consensos, de passar do desafio à orquestra sinfónica, em que todos (Governo, partidos da oposição, Deputados Regionais, Nacionais e Europeus, associações de Sindicatos e de Empregadores) contribuiriam para o desenrolar da peça, assumindo cada um deles o seu papel muito próprio, mas essencial para o espectáculo.

Na realidade regional, lamento que não haja real vontade de estabelecer parcerias. Apesar do discurso ser sempre da total disponibilidade para o diálogo e a concertação, na prática assiste-se a um despique, em que o Governo Regional usufrui de uma máquina que lhe confere uma vantagem significativa. Lamento que tenham marcado um fórum para discutir o termo das quotas leiteiras numa segunda-feira, dia em que os Eurodeputados têm sempre trabalho em Bruxelas ou Estrasburgo, quando têm disponível no seu calendário as sextas-feiras para trabalharem no seu círculo eleitoral. Neste caso em especial, a segunda-feira escolhida coincide com uma semana de Estrasburgo. Apesar de convidada, estar presente nessa conferência implicaria faltar, no mínimo, a dois dias de sessão plenária e abdicar de participar nas discussões e votações finais dos documentos trabalhados pelo Parlamento Europeu. Não houve real vontade de incluir os representantes dos Açorianos que estão a trabalhar na linha da frente para mitigar os efeitos negativos para a RAA de um modelo sem quotas leiteiras. 

Ou talvez tenha havido uma intenção sub-reptícia de excluir a Eurodeputada do partido da oposição, sabendo que esta nunca poderia faltar a uma sessão plenária em que um seu relatório iria ser votado. Quiçá? A única certeza que tenho é que continuarei a trabalhar em articulação com os intervenientes na fileira do leite, facultando-lhes meios para poderem singrar na competição desregulada que se avizinha, pela qualidade dos nossos produtos e fortalecimento da fileira.

 A introdução da venda de leite francês a 52 cêntimos o litro foi só um pequeno aviso. Seja pela adesão a programas europeus que apoiam a promoção dos nossos produtos lácteos, o que estranhamente nunca aconteceu, quando a UE dispõe de 4 milhões de euros anuais para esse programa; seja pela criação de uma interprofissional que fortaleça toda a fileira e em especial o seu elo mais fraco, os lavradores, e constitua um verdadeiro lobbie junto das instâncias europeias; seja pela construção de uma estratégia regional europeia. 

Nessa estratégia que delineei e em que comecei a trabalhar em Julho passado, mês em que tomei posse, incluí sempre o Governo Regional. E continuarei a fazê-lo, porque o que importa é salvaguardar os interesses da fileira. Sem improvisos. Sem cantar ao desafio.

 

 

 

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