Temos acompanhado de perto por notícias, artigos de opinião e por declarações de várias entidades (e infelizmente por razões decorrentes de um inesperado e triste acidente mortal) a longa e negra história recente do transporte marítimo de passageiros inter-ilhas, particularmente nas ligações nas ilhas do Triângulo.
Com os recentes e avultados investimentos realizados nas infraestruturas portuárias, nomeadamente no porto da Horta, da Madalena e das Velas, e a entrada ao serviço para o transporte marítimo de passageiros e viaturas, dos modernos navios Mestre Simão e Gilberto Mariano (há cerca de dez meses), julgou-se estarem abertas as portas para um novo e promissor ciclo de progresso nas ligações marítimas diárias nas ilhas do Triângulo, condizentes com as exigências de desenvolvimento do século XXI.
Mas, infelizmente, cedo se percebeu que, como diz o ditado popular, “nem tudo o que brilha é ouro”. Num curto espaço de tempo os problemas ocorreram e o pior aconteceu. Foram cabeços de amarração que rebentaram (novos e velhos) e um acidente mortal aconteceu. As causas de tudo isto continuam por apurar, como as responsabilidades também, comprometendo a confiança e a segurança de pessoas e bens, o que era, até aqui, um pilar consistente nas ligações marítimas no Triângulo (num passado com mais reduzidas infraestruturas portuárias e mais modestas embarcações).
Após quatro meses de inoperância foram retomadas as operações no novo cais da Madalena com as condicionantes divulgadas pela autoridade marítima, que cito: “O navio fez testes no local e baixaram-se os limites de operacionalidade, gradativamente, em função da segurança. Está aberta a possibilidade do navio atracar no terminal novo e, caso as condições de mar o exijam, não utilizar a rampa de popa, ou ainda atracar no cais antigo, como tem acontecido até agora” (o até agora é depois dos últimos quatro meses de inoperacionalidade, digo eu).
Não se pode omitir ou esquecer o avultado investimento feito no novo cais e terminal marítimo da Madalena, no valor de mais de vinte milhões de euros, cuja funcionalidade integral passa a partir de agora a estar condicionada com todos os incómodos e inconvenientes que daí advêm. Por outro lado pode ser colocado em causa o planeamento, a credibilidade dos estudos e dos ensaios técnicos que uma obra deste tipo e dimensão exigem, bem como pela opção da tipologia das novas embarcações. Este é sem sombra de dúvida um forte revés nas ligações marítimas modernas (?) no Triângulo (em São Roque a operação mantém-se condicionada) e na ligação Horta-Madalena-Horta, que anualmente movimenta cerca de quatrocentos e vinte mil passageiros.
Mas “para mal dos nossos pecados” e do erário público no que respeita a transportes marítimos de passageiros na região os problemas não são de agora, apesar dos muitos milhões já gastos, como se de uma região rica se tratasse: é brutal o prejuízo da Atânticoline na operação dos ferries nos meses de verão e perspetivam-se novos e duvidosos (quanto à opção) investimentos para a aquisição de mais navios de passageiros, viaturas e carga nas ligações inter-ilhas.
Se juntarmos a tudo isto os antigos e permanentes problemas associados à falta de segurança nos Estaleiros Navais da Madalena, onde continua a não ser possível arriar ou varar embarcações, o que condiciona a atividade económica, a vida e o rendimento de vários pescadores, e se foram tidas em conta as várias manifestações de contestação às opções tomadas na construção de alguns portos de pesca, nomeadamente na ilha de São Miguel, em que foram gastos vários milhares de euros, então os erros e o descalabro das opções politicas da governação socialista para as infraestruturas portuárias e o transporte de passageiros são gritantes e “de bradar aos céus”.
E a “cereja em cima do bolo” foi a atitude de prepotência levada a cabo pelos Deputados do PS na aparente tentativa de inviabilizarem, sem fundamentação credível, a constituição da Comissão Parlamentar de Inquérito ao Transporte Marítimo de Passageiros e Infraestruturas Portuárias.
É velho o ditado que diz “quem não deve não teme”, mas parece que o aparelho socialista, que julga ser “o dono disto tudo”, não queria mesmo que se fizesse luz e se viessem a conhecer todas as trapalhadas relacionadas com os transportes marítimos de passageiros e infraestruturas portuárias.
Finalmente a referida Comissão Parlamentar de Inquérito já está constituída e a trabalhar, sendo reposta assim a normalidade democrática, pelo que se espera agora que no prazo de cento e oitenta dias a Comissão possa apresentar ao plenário da ALRAA o seu relatório final e que das suas conclusões seja dado conhecimento público.
P.S. E o que dizer da demorada fusão da Transmaçor com a Atlânticoline, que se prolongou por mais de dois anos? Espera-se agora que a sede social da Atlânticoline passe efetivamente e sem delongas para a Horta, no cumprimento de uma recomendação aprovada por unanimidade pelo parlamento dos Açores.