Encontrei –a casualmente. Nem a reconhecia. Ela, mais perspicaz ,parou, olhou, chegou à minha beira e interrogou –me. Eu, encabulada, olhei-a por momentos. Por entre rugas e olheiras, as meninas d ´ontem tornam-se irreconhecíveis, antidiluvianas. E ali ficámos trocando galhardetes. Elogios mentirosos. Patéticos. Caridosos, Absurdos. Até que as máscaras caíram.
Assim ficámos algum tempo. Numa terra de lembranças e esquecimentos. Primeiro receando cometer qualquer indelicadeza, até que uma gargalhada pôs ponto final, dando lugar às colegas d´então. E aí, as salas d´aula, as chamadas, os exercícios, a professora de matemática, tecendo muralhas de cárcere contra a liberdade de jovens inocentes . As aulas de físico-química. Educação musical. Logaritmos e sistemas. Arquimedes e Lavoisier. Péricles. Triunviratos. Peripécias de adolescentes encurraladas na ilha. Sonhando com novos mundos. O meu caso de amor com a história.
E, pescando e repescando o passado ali permanecemos. Buscando nas dobras do tempo alegrias e tristezas. Montão de felicidades absolutas e totais. Cores delas, já esmaecidas. Viajantes a caminho de diferentes paragens. Longínquas . Paragens agora entupidas de neuroses, artroses, osteoporoses, milhões de oses.
E o barco chegou. Separámo-nos, mas durante a meia hora de viagem eu fiquei urdindo esta crónica, começando por recordar a frase do poeta : “ O mestre acende a luz e vai embora,mas ela continua acesa, brilhando para sempre. Acredito. Eles, os mestres, os pais, acenderam as nossas luzes e partiram. Elas ficaram. Quisera ter a capacidade de deixá-las acesas, passar o fio condutor a fim de não se esgotar.
Isso tenho tentado. E sofrido. Sofrido na medida que receio não ser possível haver um milagre, quando o mundo se torna cada vez mais caótico, menos digno, menos fraterno, menos compreensivo. Um mundo em que gente detesta gente. Só pensa em si, como se fosse eterno. Como se não houvesse amanhã.
Naquele barco, fiquei pensando quão absurda é a vida. Ela é tão curta. Passa por nós, correndo, desenfreada. Implacável. Lança um apelo de quando em vez, mas não retrocede um milímetro. E, enquanto ela corre, nós quedamos à busca dum lugar mais ensolarado. E não lhe ligamos. Não respondemos. Distraídos. Ávidos de mais e mais. Esperando algo que não virá. Viramos uma espécie louca, escondendo-se atrás de desejos, ambições, ninharias. Colocando máscaras. Tirando máscaras.
Um belo dia acordamos. E sentimo-nos traídos. E ficamos remoendo remorsos. Como pode ter sido? Ela desapareceu. E agora? A infância, a adolescência, a maturidade e agora o Agora. E ficamos chafurdando num baú de lembranças e recordando gostos e acções não cumpridas, com laivos de arrependimento. E dói!
Mas, coragem, há que enfrentar o Agora. Para trás ficou muita coisa. Sobrou a nostalgia do passado. A separação antes do encontro. A festa que terminou antes de começar. O desgosto de ter empurrado um dia, buscando o outro. O amor que bateu asas e voou. O beijo que se não deu. A carta que se não escreveu. A viagem que foi adiada. A pressa… a maldita pressa em ir, vir, chegar, fazer, partir… A intolerância. As palavras de carinho que engolimos . O colo que tivemos e não lhe demos o valor merecido. O olhar sem ver. E não ter amado pessoas com coração saudável. Porque nas rimas da vida, andamos à cata de sujeitos e predicados, esquecendo mundos, gentes…
Assim sendo, a vida, cansada, incompreendida, deixou-nos uma herança macabra: palavras escavas, metáforas, cores, sons, gritos, choros, fugas, adeuses, mofos, teias ,cotões que nem soubemos espanar, odor póstumo de flores e o nada sempre e o sempre nada! A vingança da maldita! E agora temos que aproveitar o nosso Agora!
O barco começa a atracar. Gostaria de passar uma esponja sobre isto, mas não pode! Talvez mais nítidas ficassem as teias do sonho. Há que contentar com o meu Agora.
Leitor, quando ler esta crónica, pense bem e corra. Corra atrás dela . A vida. Vá em frente não a perca por um momento só. Ganhe a corrida. A única. Convém não parar na curva do caminho. Carpindo desgostos, lamúrias e mandando pontos de interrogação. Mesmo nos momentos mais tristes há que pensar grande, e que agora está vivo é o seu Agora. O palco da vida está lá. A peça não terminou. Você está em cena. Seja feliz! Agora|
Não termino sem aqui deixar transcritas umas frases que certo dia estavam escritas num mural no Rio de Janeiro. O seguinte : “ Esta vida é uma viagem pena eu estar só de passagem”,´. “ Não discuto com o destino o que pintar eu assino”. “P´ra quê cara feia na vida ninguém liga meia”. “Inverno primavera feliz é quem se considera”. Quem escreveu isto por certo sempre aproveitou o seu Agora.
N.B. Este ano deixei o 25 de Abril em paz. Como dizem os brasileiros “Estou de saco cheio”.