2. Subjacente a esta ideia peregrina parece estar um problema grave no actual sistema educativo português: o excesso de reprovações, que importaria combater. Nada mais falso! O que se verifica, de facto, nas escolas do País é bem diferente dessa ideia que se quer insinuar. E o que se passa nas nossas escolas como norma é a quase ausência de reprovações na maior parte das turmas do ensino básico. E aqueles alunos que reprovam são situações muito excepcionais e que exigem aos docentes uma enorme carga burocrática de justificações, de tal modo que são mesmo casos sobre os quais os docentes maduramente reflectiram e para os quais não encontraram solução diferente.
4. Então se o problema dos "chumbos" não tem a importância nem a expressão que lhe querem dar na escolaridade obrigatória, porquê a Ministra levantar agora a questão? Porque daqui a dois anos lectivos teremos os primeiros alunos da escolaridade obrigatória de doze anos. E a estratégia dos defensores do eduquês é clara: criar já as condições para fazer no 10.º, 11.º e 12.º anos aquilo que foi feito no ensino básico, isto é, uma rede de obstáculos e de dificuldades administrativas que artificialmente reduza as reprovações que, essas sim, são muito significativas a partir do 10.º ano. A seguir virá a redução do número de exames nacionais. E depois diminuir-se-á o peso da nota dos exames nacionais. E no fim o Estado poupará mais de 600 milhões de euros se eliminar as reprovações durante toda a escolaridade obrigatória de 12 anos!
5. Com graça e verdade, João Miranda fez o seguinte balanço às medidas entretanto já tomadas pelos últimos governos com vista a acabar-se com os "chumbos" nas escolas portuguesas:
1. Encurtar e reduzir a dificuldade dos programas (feito).
2. Reduzir a dificuldade dos exames (feito).
3. Permitir que os alunos passem com 7 negativas (feito).
4. Criar vias alternativas de ensino mais fáceis, e.g. CEFs e ensino profissional (feito).
5. Criar as Novas Oportunidades (feito).
6. Encher o horário com disciplinas a que não se reprova, e.g. Área Projecto, Estudo Acompanhado, Formação Cívica (feito).
6. Os defensores do eduquês querem convencer-nos de que a reprovação de ano não tem valor pedagógico. Mas isso colide objectivamente com a realidade. A nossa história está cheia de casos de figuras ilustres que, numa qualquer altura do seu percurso escolar, reprovaram. E foi essa reprovação que lhes deu o sinal para mudarem de atitude face à escola. Conforme exemplifica o Ionline de 2 de Agosto passado, "é a um chumbo - e também a uma expulsão do liceu - que Portugal deve um dos seus mais extraordinários romances. Vitorino Nemésio foi expulso do Liceu de Angra, onde reprovou no antigo 5º ano. Aos 16 anos, Nemésio é enviado para a ilha do Faial, para se preparar para os exames do "Curso Geral dos Liceus" (equivalente ao actual 9º ano) e é nessa estada na Horta que começa a desenhar os elementos do "Mau Tempo no Canal". No dia 16 de Julho de 1918, com 16 anos, Nemésio termina o curso geral dos liceus, com a mortificadora média de "10 valores". O mau aluno virá a ser professor universitário e um dos melhores escritores portugueses. Talvez o pior argumento antimudanças seja o chumbo "exemplar" de Cavaco Silva: o actual Presidente da República chumbou no 3º ano do liceu - actual 7º ano de escolaridade - e o pai obrigou-o a trabalhar na terra e ajudar no negócio da família. Na sua autobiografia, o Presidente da República considera esse chumbo - e a "lição" do pai - um marco na sua vida, que o tornaria depois um estudante aplicadíssimo. "
Mas esta realidade não é tida em conta e o que verdadeiramente se pretende impor e generalizar é uma visão da escola onde não seja necessário o esforço, o trabalho e o empenhamento dos alunos, e onde tudo se há-de conseguir brincando e jogando.
O problema é que as verdadeiras vítimas desta enormidade são sempre os alunos!
03.08.2010