Nascido no lugar da Fazenda, freguesia e concelho de Lajes das Flores em 13 de Março de 1915, era filho de José Pereira Gomes e de Maria da Conceição Gomes, ele agricultor e ela doméstica, respectivamente. Entre outros irmãos e irmãs, era também irmão do Padre Fernando Vieira Gomes*, falecido na cidade de Ponta Delgada, na ilha de S. Miguel, e de Luís Vieira Gomes* que, durante vários anos, exerceu as funções de Tesoureiro da Fazenda Pública de Lajes das Flores.
Depois de efectuar a instrução primária naquela localidade, já então elevada a freguesia em 1919, ingressou no Seminário de Angra do Heroísmo em Outubro de 1929, onde foi um aluno aplicado e disciplinado.
Foi ordenado sacerdote na Sé de Angra em 11 de Junho de 1939, tendo celebrado a sua Missa Nova na igreja do Senhor Santo Cristo dos Milagres da sua terra natal em solene cerimónia levada a efeito em 9 de Julho desse mesmo ano. Nessa cerimónia actuou, para além do coro da capela daquela igreja, a filarmónica “União Portuguesa da Califórnia”, dessa freguesia.
Em 10 de Janeiro de 1940 deu início à sua vida sacerdotal na pequena ilha do Corvo, onde se manteve até Novembro de 1942, data em que foi transferido para a freguesia de Ponta Delgada, concelho de Santa Cruz das Flores.
Aí se manteve durante cerca de sete anos onde, para além de efectuar com elevado nível a vida sacerdotal nessa localidade, se dedicou à recuperação dos coros da capela, quer do masculino, quer do feminino, já que era um músico de grande mérito, tendo em conta os poucos estudos que possuía sobre essa arte.
Para além disso, foi regente da Filamónica da mesma freguesia, a qual foi criada em de 1942, prestando-lhe como tal relevantes serviços, que muito contribuíram para o prestígio da freguesia e para elevar o nível cultural da sua população.
A 28 de Novembro de 1949 viria a ser colocado na sua freguesia natal, a Fazenda das Lajes, funcionando ainda como curato.
Nessa localidade desenvolveu importante actividade na elevação da mesma a paróquia, a qual teve lugar em 10 de Novembro de 1959, conforme alvará assinado pelo Bispo de Angra e Ilhas dos Açores, D. Manuel Afonso de Carvalho. Nesse sentido, contou também com o apoio do então Governador Civil da Horta, o Dr. António de Freitas Pimentel* um ilustre florentino que nascera nessa freguesia.
Aí esteve também temporariamente como regente da Filarmónica local, tendo ensinado música a um grupo de jovens com vista à renovação dos quadros dessa banda e dos grupos corais da igreja. Empenhou-se e ensaiou esses grupos corais, masculino e feminino, demonstrando neles os seus elevados conhecimentos musicais.
Entretanto, em 1961 e durante cerca de três meses, foi pela primeira vez aos EUA e ao Canadá, onde visitou familiares e amigos que haviam emigrado para esses países.
A seu pedido viria a ser transferido, em 30 de Junho de 1965, para a paróquia de Santa Clara, na ilha de S. Miguel, onde paroquiava o irmão, Padre Fernando Vieira Gomes, mantendo-se aí, como vigário-cooperador, desenvolvendo assim a sua actividade sacerdotal numa das maiores freguesias dos Açores. Nessa ocasião visitou pela segunda vez os EUA e o Canadá, onde voltou a confraternizar com os familiares e amigos que lá tinha.
Em 8 de Outubro de 1973 foi nomeado pároco da freguesia da Vila Nova, concelho da Praia da Vitória, onde gozava de grande simpatia, tendo deixado uma excelente impressão, devido ao seu feitio simples e cativante.
Aceitando o convite que hierarquicamente lhe foi feito, em 6 de Fevereiro de 1978 era colocado na paróquia de Santo Amaro, concelho das Velas de S. Jorge. Aí voltou a ter um excelente ambiente de trabalho sacerdotal e de convívio popular que muito o sensibilizaram, tendo deixado a saudade, designadamente nas crianças e também nos adultos, quando um dia partiu para mais uma etapa de sua vida.
Em 3 de Julho de 1986 era colocado novamente na ilha das Flores, desta vez na paróquia da vila das Lajes, onde assumiu também o serviço paroquial da freguesia da Lomba. Era certamente a concretização de um desejo, uma vez que na ilha também deixara a saudade dos seus familiares e amigos.
Dela havia saído de mãos a abanar, mas agora trazia o seu automóvel adquirido em estado de uso, em face da forma humilde como sempre vivera, o qual era já para ele um instrumento indispensável ao exercício do seu múnus sacerdotal, quando o exercia em mais de uma freguesia.
Fazia transparecer uma grande satisfação quando se encontrava com muitos dos seus antigos paroquianos e amigos, parecendo gozar de uma excelente saúde para a sua idade, dando um aspecto jovial e alimentando sempre ideias para a realização de projectos na sua nova paróquia.
E foi assim que, num curto espaço de tempo, a sua morte ocorreu a 17 de Janeiro de 1989, surpreendendo todos os que conheciam o seu dinamismo e a normalidade da sua vida sacerdotal em Lajes das Flores, onde demonstrava jovialidade nas acções que conseguia desenvolver.
Era, como referimos, um grande conhecedor de música, pelo que nas localidades por onde passou na sua actividade sacerdotal sempre se empenhou em ter bons coros das capelas das respectivas igrejas.
Mas outra das suas grandes qualidades, desconhecida da generalidade das pessoas, encontrava-se na caridade e no amor que sentia pelos pobres e pelas crianças.
Para além dos muitos factos que nos foram contados, alguns foram por nós testemunhados, já que com ele aprendemos catequese e música e tivemos muito convívio durante a nossa juventude, o qual nos propiciou a obtenção de muitos conhecimentos de cultura geral. O mesmo aconteceu certamente com outros jovens de todas as localidades onde ele exerceu a sua acção pastoral.
Por onde passou deixou sempre marcas de caridade e de generosidade que definiam a sua bondade, não obstante a forma humilde como vivia.
Assim, conseguimos apurar que nas casas de famílias pobres da freguesia surgiam, de quando em quando, introduzidas durante a noite por debaixo das portas umas notas de dinheiro, umas vezes de 20$00 (que no tempo equivalia a um dia de trabalho), outras chegavam a ser de 50$00. Ninguém sabia donde vinham. E, em surdina, a notícia desse facto espalhou-se entre as pessoas, nomeadamente das que beneficiavam dessas esmolas periódicas. Deste modo, uma delas decidiu tentar ver se descobria o autor de tal proeza. Num dia, de madrugada, antes de amanhecer, ao escutar passos nos seus pátios, espreitou sem ser notada e verificou que quem se aproximava da sua porta “era o sr. Padre José Vieira, transportando a sua bengala numa mão e uma nota na outra que deixou debaixo da sua porta”. Este facto foi-nos contado pela pessoa que o espreitou, cerca de vinte anos depois de ter ocorrido, mas que pude ainda confirmar com outras duas beneficiárias.
Chamava para a realização do trabalho agrícola do seu quintal o ancião mais pobre e talvez mais idoso da freguesia, sentando-o à sua mesa e pagando-lhe o dia como a qualquer outro trabalhador. Para quem ainda se lembre, o seu nome era João José Luís, mais conhecido por “tio João Matias”, numa altura em que não faltavam trabalhadores agrícolas com grande capacidade para “darem” um dia de trabalho.
O seu singular humanismo era ainda evidenciado na assistência à saúde que dava aos seus paroquianos. Visitava os doentes, recomendando-lhes ou receitando-lhes os medicamentos ou os chás caseiros mais adequados. Por vezes até lhes oferecia esses medicamentos. Aplicava-lhes as injecções e via-lhes a tensão arterial, num tempo em que a carência de médicos e de enfermeiros na ilha era quase total.
As crianças gostavam muito dele em face do carinho que a todos dedicava, quer expresso em palavras, quer com ofertas de guloseimas que geralmente mantinha nos bolsos, sobretudo no tempo em que a sua situação financeira havia melhorado.
Nas freguesias por onde passou ensinou música a jovens, quer para as filarmónicas, quer para os grupos corais das respectivas igrejas. Foi com ele que aprendi música. Na Fazenda das Lajes chegou a dar, gratuitamente, aulas do Ensino Primário a um grupo de jovens que com ele se juntava na sacristia da igreja.
Abria-nos as suas portas (aos jovens da freguesia), sempre com simpatia, para que do seu rádio ouvíssemos notícias e outros programas, numa altura em que na freguesia da Fazenda poucos aparelhos desses existiam. Comentava connosco, paciente e pedagogicamente, as diversas notícias ou actualidades que ouvíamos. Levara largos meses a fazer economias para poder adquirir esse seu primeiro aparelho de rádio, conforme nos afirmou na ocasião em que estava a amealhar para esse efeito.
Viveu pobre e humilde, despido de rancores e evidenciando uma invulgar capacidade de compreender os problemas dos outros, pelo que estava sempre pronto a ajudar todos os que dele careciam, “fazendo-o com uma mão, sem que a outra o visse”, conforme a doutrina evangélica.