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  • Nada do que tenho é meu
07
agosto

Nada do que tenho é meu

Escrito por  António Caetano
Publicado em António Caetano
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Neste mundo desgraçado

O que por mim tem passado

Sem pensar bem no futuro.

E assim fui andando 

Contra a maré remando

Para morte não seguro?

 

Há sessenta e um anos 

Que o pobre do Caetano 

Pelo quartel da morte entrou.

Com oitenta e um anos

De novo está o Caetano 

Há conta de Deus cá estou.

Da tropa já tenho saudades

E fiz tantas amizades

Que não mais esquecerei .

Às vezes fico pensando 

E outras vezes chorando 

Do tempo que passei.

 

Eram cento e tal recrutas

Alguns de memórias curtas

Eram como Deus lhes deu.

Alguns, ainda vou vendo

E de outros vou sabendo

Que a terra já comeu .

É assim que as coisas são

Prestem muita atenção

Sigam para Sul ou Norte.

E quem sabe bem nadar

Vá tomar banhos no mar

E vá pensando na morte.

 

Eu como não sei nadar

Já não vou experimentar

Desculpem a brincadeira 

Mas isto não tem a ver 

Eu até posso morrer 

Afogado na banheira .

 

Será o que Deus quiser

Ele é que tem o poder

Eu só trabalho na sua vinha.

Fui sempre trabalhador

Mas sou grande pecador 

Mas dizem que tenho alminha?

 

Eu confio em Jesus

O tal que levou a cruz

E lá esteve até morrer.

Mas muita gente não pensa 

E metem logo dispensa 

Só lá iremos saber?

Vejo nossa rica Nação 

Com tão grande solidão

Para os jovens idosos

Vejo tanta crueldade

E falta de caridade 

O que há muito são mentirosos.

 

Os idosos estão a sofrer

E mortos estão a aparecer 

Não vejo um bom futuro.

E os jovens que hoje são 

Para idosos lá vão

Estão pondo dinheiro a juro.

 

O Caetano vai terminar

Pedindo a todos perdão 

Se alguém não quiser dar 

Está tudo na vossa mão.

 

Se me quiserem perdoar 

Aceito com muito bom gosto

Prometo que vou orar

E a paz esteja convosco.

 

O Caetano não tem vaidade 

Nem quero estar em montras 

Mas quero dizer a verdade

Senão Deus pede-me contas.

 
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