1. Só não vê quem não quer e só não se preocupa quem está cego. Na passada semana, foi o Banco de Portugal a rever as previsões para a economia portuguesa para este ano, projetando um crescimento de 1,3% contra os 1,8%, apontados pelo Governo. Simultaneamente, o Banco de Portugal alerta para a possibilidade de serem necessárias "medidas adicionais" para cumprir os objetivos orçamentais, bem como para a "perda de dinamismo" das reformas estruturais e para a "permanência de riscos" no setor financeiro. Mais: o banco central prevê mesmo a maior queda das exportações desde 2005.
O Primeiro Ministro, António Costa, reagiu da forma que vem sendo habitual: “há quem prefira previsões. Eu prefiro os factos”. Essa resposta levou o insuspeito Nicolau Santos, diretor adjunto do jornal Expresso a concluir: “Pois, mas isso é o que se diz quando as previsões dos outros começam a contradizer de forma sistemática as nossas próprias previsões. Já o ministro das Finanças, que se encontra em Nova Iorque a tentar convencer investidores a apostar em Portugal, afirmou com aquele ar sofrido que tem que não vê razões para alterar o quadro macroeconómico em que foi construído o Orçamento do Estado para este ano. Olhe que quando FMI, OCDE, Banco Mundial, Comissão Europeia e Banco de Portugal apontam num sentido e Vexa. noutra é mesmo capaz de haver razões para mudar as previsões, dr. Centeno…”.
2. Outro economista, João César das Neves, escreve com desassombro que “vivemos hoje em Portugal uma das situações mais terríveis e perturbadoras da humanidade: a lenta gestação de uma catástrofe. No futuro, quando olharem para o nosso tempo, as pessoas terão muita dificuldade em entender a apatia nacional que conduziu ao colapso de 2017-2018. Nessa altura muitos perguntarão como foi possível tal cegueira, ignorando os verdadeiros problemas até se cair na ruína? (…). Tal como no governo de José Sócrates, a ilusão vai manter-se até ao colapso final. Só então vão cair os mitos e se tomarão as medidas desesperadas. Nessa altura, as culpas serão atribuídas à crise mundial, Europa, austeridade, exploração capitalista; a tudo menos aos governantes que, quando ainda havia alguma coisa a fazer, ignoraram as dificuldades, envolvidos que estavam nas suas intrigas e projetos.”
3. Frequentemente, a nossa memória é muito curta e seletiva. E neste mundo atual, onde vivemos condicionados pela força da comunicação social, a nossa capacidade de recordar está adormecida na modorra de quem nos apresenta a informação já digerida e pronta a usar.
Mas era muito útil e pedagógico a todos um recuo ao ano de 2008. A Portugal de 2008. Ao governo de José Sócrates, que estava a um ano de concluir a sua primeira legislatura, com maioria absoluta. O mundo já dava sinais claros da crise que aí vinha: a falência do Lehman Brothers, a crise dos subprimes, a “bolha” imobiliária. À crise que se anunciava, José Sócrates, para o ano eleitoral de 2009, respondia com um Orçamento de Estado que, no dizer do Diário de Notícias, incluía “o maior aumento à função pública desde 2001” e garantia, igualmente, que “as prestações sociais têm a maior subida desde 2003.” O deficit previsto era de 2,2% (quando, na realidade, acabou por ser 9,8%).
O resto da História foi simples: em setembro de 2009, José Sócrates venceu as eleições com maioria relativa e, até 2011, quando, sem dinheiro sequer para pagar os ordenados aos funcionários públicos, se viu obrigado a pedir ajuda internacional, tudo se resumiu à sua recusa em assumir a verdadeira situação das nossas finanças e à tentativa de a mascarar com sucessivos e falhados Planos de Estabilidade e Crescimento (os famosos PEC).
Também por causa dos seus erros, omissões e teimosias, os portugueses sofreram na pele as medidas de uma austeridade severa, mas necessária.
E, agora, sem que as nuvens das dificuldades nos tenham deixado completamente, voltamos, pelas mãos de António Costa, à velha cartilha governamental do tempo de Sócrates. Até, por ironia, o deficit previsto pelo seu governo para 2016 é o mesmo que Sócrates previa para 2009: 2,2%!
A cartilha repete-se com a inclusão no Orçamento de Estado para 2016 das famosas “reposições”, que, no fundo, são coisas muito semelhantes ao que se prometia em 2008. Por isso, teme-se com razão, que o resultado para 2016 não possa ser muito diferente daquele que foi para 2009!
Como lucidamente escreveu João César das Neves, “quando os analistas internacionais dizem que vamos repetir 2008, estão a formular uma ameaça, algo que não querem que aconteça, mas que tomam como provável. Por cá, porém, esse regresso é assumido, constituindo mesmo o ponto central da estratégia política. Foi para conseguir o retorno à situação insustentável de 2008 que muitos votaram em outubro, e é precisamente isso que o governo promete no seu programa, chamando-lhe “fim da austeridade”. O que ainda não é explícito, mas em breve ficará claro, é que não se pode regressar numas coisas e não noutras. Não se podem ter os benefícios, sem a respetiva falência.”
E conclui premonitoriamente aquele economista: «A 15 de Maio de 2006, escrevi neste jornal: “Portugal está como o homem que caiu do arranha-céus e quando, a meio da descida, um amigo da janela lhe pergunta como está, ele responde: ‘Até agora, tudo bem!’”. Nestes dez anos o país já bateu no fundo, já se levantou e está de novo a cair. No Congresso do Partido Socialista do fim de semana, a mensagem de António Costa foi: “Até agora, tudo bem!”. Desta vez, a queda será mais curta, pois o fundo está mais perto.”
13.06.2016