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04
novembro

Devaneio sobre a Burocracia

Escrito por  Eugénia Ávila Ramos
Publicado em Artigos de opinião
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Atílio, personagem da novela " O Casarão" emitida a.t.p (antes da Televisão Privada), era extraordinário. Passava o dia em pé a mexer estrume numa banheira, porque acreditava poder transformá-lo em ouro. Tinha uma " pancada" e deixavam-no tê-la. Enquanto mexia, acreditava, e, enquanto acreditava suportava o cheiro da deceção abafado pela expetativa. Alimentava-se dela e nada o fazia desistir.
É muito do espelho da vida, onde se mexe como se pode, ou se mexe mesmo sem poder, na senda de atingir a meta… atingir, porque para cortar a meta tem que se chegar em primeiro, tal qual como na Maratona.
Se da atividade de "Mexer Estrume", viesse sequer um vislumbre de algo dourado, eventualmente, talvez e após exames e análises rigorosas feitas por uma entidade independente, ela morreria.
Em primeiro lugar, seria altamente regulamentada, a começar pelo tipo de banheira, o tipo de pau, a densidade do estrume e ainda a massa muscular do trabalhador. Depois ter-se-ia que dominar pelo menos 4 línguas, ser pródigo em sistemas, ter capacidade de análise, forte apetência por falar sozinho, ser vegan, ter garra para mexer e finalmente (saltando alguns outros requisitos) provar que a força não advém da toma de substâncias ilegais.
Em segundo lugar, uma parte do ouro, em função da gramagem conseguida seria absorvida por um Fundo Nacional de Reserva de Minerais.
Em terceiro lugar, seria obrigatório que da parte remanescente, (e não de outra proveniência qualquer), fosse instalado um exaustor absolutamente fantástico, que garantisse que o ar permanecesse inodoro. Aqui entra o Grupo de Estudo Científico para determinar os valores de referência em termos de "Cheirete".
Em quarto lugar, assistir-se-ia a um debate profundo alargado à Sociedade Civil, sobre a ameaça da escassez de estrume que obviamente prejudicaria e faria retroceder a atividade agrícola.
Na verdade, esta nova atividade criaria mais emprego, mais comentadores, polémicas a rodos, raiva tal, capaz de partir as redes sociais, até que um dia chegaria a bela da petição pública para que, se não fosse pedir muito, se legislasse com brevidade.
E enquanto o Chico ia e vinha da areia, alguém criaria o seu império do “Estrume de Ouro”, já que, por enquanto é uma modalidade não homologada. E quando fosse mudava-se a sede social para a Conchinchina e pronto. Estava feito.
Não tornando o meu conselho demasiado público, aconselho que o melhor é semear e acreditar que a natureza de cada um, proporcionalmente direta ao seu esforço, se encarrega de fertilizar, fazer crescer e por fim, dourar a aparentemente inócua pílula “Acreditar”, um belo remédio.
Por isso mexam, mexam muito. Mexam sem olhar para trás, como se não houvesse amanhã, mas recusem-se trabalhar para a contratura. Dói um bocadinho e impede-nos de mexer.

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