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  • Toda a Gente – Faial ou a teatralidade
16
janeiro

Toda a Gente – Faial ou a teatralidade

Escrito por  Victor Rui Dires
Publicado em Victor Rui Dores
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Nesse acto de coragem que é fazer teatro nos tempos que correm, não poderia ter resultado melhor a co-produção Teatro Experimental do Porto e Teatro de Giz.
Fui ver e gostei incondicionalmente de Toda a Gente – Faial, com texto de Rui Pina Coelho e encenação de Gonçalo Amorim e João Miguel Mota. Esta peça devolve-nos a certeza de que o teatro é contrapoder, resistência, exorcismo, denúncia das verdades ilusórias e renúncia às máscaras de um quotidiano alienante. Uma peça que nos fala do destino daqueles que, emigrados por questões laborais, se sentem solitários, exilados, apátridas. Afastados dos familiares, dispersos por diferentes países e cidades, e a contas com a solidão extrema, as personagens vão comunicando via email, skype ou facebook, assistindo, perplexos, ao desconcerto do mundo e vivendo insatisfeitos, inadaptados, incompreendidos.
Durante a peça o espectador vai sendo puxado para a actualidade por elementos inesperados. Cabe aqui todo o drama do homem comum esmagado pelo rolo compressor do capitalismo. A peça não é para rir – é para reflectir.
Figurinos de Catarina Barros e Aline Désprès. Grande funcionalidade do dispositivo cénico (de Catarina Barros). Os 14 actores, sentados e/ou em movimentação cénica, em narrativas descontínuas e emaranhadas, vão trocando diálogos, dizendo monólogos e cantando a incerteza dos dias. Numa encenação despojada de artifícios, os encenadores agarraram, e bem, os propósitos do texto, recorrendo à eficáciado multimédia (da responsabilidade de Stephanne Sagaz e Tomás Melo) e a um desenho de luzes muito eficiente (Francisco Tavares Teles e Bruno Barata), de que resulta um espectáculo bastante visual e plasticamente muito belo.
Houve aqui muito trabalho de actor e o resultado está à vista: graça, magia, postura, gestualidade, modulação de vozes… E que assombrosas representações de João Miguel Mota e Catarina Gomes, actores imensos. Surpreendentes as interpretações de António Braga e Ana Pinto. Registo muito positivo para o cada vez mais histriónico Pedro Afonso e para as muito expressivas Maria do Céu Brito, Orlanda André e Cláudia Viegas. Bem conseguidas contracenas de Gina Macedo, Isabel Areosa, Isabel Encarnação e Janete Chaves. Excelentes prestações dos músicos Zeca Sousa e Rui Martins, que não estão ali só para dar fundo musical à peça, mas são parte intrínseca da ação cénica. Estamos perante uma teatralidade plena.
Que o Teatro de Giz continue a renovar-se e a prestar esse serviço público que consiste em levantar os véus da alma.

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