1.Vi um vídeo da RTP-A com declarações de Francisco César, um alto dirigente regional do partido do governo. Nelas, esse dirigente afirma, textualmente, que aprecia uma determinada pessoa e a considera “uma pessoa séria, mas nem de seriedade exclusivamente se vive na política.”
Anote-se que o dicionário define “sério”, neste contexto, como sinónimo de “digno”, “honrado”, “verdadeiro”, “honesto”.
2.Em novembro passado, o Presidente da SATA, aqui na Horta, disse à Comunicação Social que, de outubro de 2015 a setembro de 2016, “tivemos cerca de 95 voos com uma taxa de ocupação abaixo dos 50 por cento”, que “há voos a transportar menos de 80 passageiros”, e que isso “é muito pouco para a capacidade que estamos a oferecer”! No contexto do tema das reuniões que estava a ter com os presidentes da Câmara e da Câmara de Comércio sobre a reivindicação do aumento de voos no Verão na rota da Horta, estas declarações tinham um objetivo e um efeito muito concretos: levá-los a desistir, pela força dos números revelados, daquela reivindicação.
Agora é oficial e comprovado que esses números foram claramente manipulados e que não refletem toda a verdade da operação da SATA Internacional na rota da Horta.
3.É inevitável associarmos uma coisa à outra. Quando um alto dirigente do poder afirma em público que na política a seriedade não é tudo, então, neste relativismo, cabe o que se quiser, incluindo a aceitação da manipulação dos dados estatísticos feita pelo Presidente da SATA. Essa manipulação não foi séria, mas como a verdade e a honestidade são reconhecidas como não sendo tudo na vida política, então, para quem assim pensa e age nessa conformidade, as declarações do Presidente da SATA são aceitáveis e não censuráveis.
4.Este pântano pouco recomendável do relativismo ético em que se está a transformar a vida política e o exercício do poder, em boa medida reflete a sociedade atual, onde valores éticos como a seriedade, a honestidade e a verdade são vistos como coisas “fora de moda” ou de importância relativa, em função dos fins que se pretendem atingir.
5.Mas se estes políticos e estas ações são, de algum modo, o espelho da sociedade atual, isso não as torna aceitáveis nem legítimas. Espanta-me, por isso, algumas coisas. Espanta-me, desde logo, quando são os políticos que assim pensam e agem, a vir, depois, pateticamente, admirar-se da abstenção e do progressivo afastamento de muitos quadros e pessoas da vida política. Quem torna a política um pântano de valores e de princípios como pode querer torná-la em algo recomendável e onde as pessoas se disponham a nela participar cada vez mais?
6. Espanta-me também, por exemplo, ter visto num outro programa de Televisão, pessoas que considero, defenderem o Presidente da SATA “porque está a fazer um bom trabalho”, e simplesmente não ligarem à gravidade ética que está por detrás do ato deliberado de um gestor que publicamente manipula a informação e distorce a verdade para atingir um fim político.
7. Espanta-me ainda o silêncio das entidades que foram enganadas aqui no Faial pelas declarações do Presidente da SATA e que, contritas, lá acabaram, na altura, por reconhecer, face à força dos números invocados, que “a ocupação da rota da Horta era baixa.”
Já lá vão duas semanas depois de terem sido divulgados os números oficiais que provam a manipulação de que foram vítimas e ainda não lhes ouvi em público uma reação de condenação do logro e da afronta que sofreram.
É que, diz o ditado, quem não se sente…
Jorge Costa Pereira