É imprevisível e incerto o tempo em que vivemos, daí a dificuldade que sentimos em analisar os problemas que surgem na educação, mas também na sociedade, na política, na economia, na ciência e, seguramente, noutras áreas do conhecimento. É certo que os problemas que irrompem na vida e na organização humanas não se conhecem por antecipação. Basta centrarmo-nos na História do último século. Quem teria previsto que o atentado cometido em Sarajevo, em 1914, originaria uma guerra mundial que faria milhões de mortos? Quem imaginaria que, na sequência da degradação do exército russo, um pequeno partido marxista, em 1917, daria origem a uma revolução que marcaria irrevogavelmente a história do século XX? Quem vislumbrou no próspero ano de 1927, a catástrofe económica iniciada em Walt Street, em 1929, que semearia o desemprego e a miséria por toda a Europa? É pouco provável que alguém acreditasse que Hitler pudesse chegar legalmente ao poder em 1933, que dominaria a Europa em 1942, e que seria responsável pelo extermínio de milhões de seres humanos. Impevisíveis foram os ataques ao World Trade Center, em 2001, e todos os acontecimentos que se seguiram., assim como as migrações em massa para a Europa, em 2015-16, na sequência da Guerra na Siria e dos conflitos que alastram no Médio Oriente e África., com efeitos desconhecidos. E o que dizer da fratura provocada pelo Brexit?
Algumas destas questões são colocadas por um dos pensadores mais marcantes do século XX, Edgar Morin, num pequeno texto, escrito a pedido da UNESCO, em 1996, intitulado "Os sete saberes para a educação do futuro". Nesse pequeno texto, o autor reflete sobre os saberes que são necessários à educação, na atualidade, para enfrentar a imprevisibilidade do século XXI. E quais são esses sete saberes fundamentais?
Primeiro: Reconhecer as cegueiras do conhecimento, o erro e a ilusão. Entende por reconhecimento das cegueiras do conhecimento, a capacidade de assumir o conhecimento como um processo de interpretação da realidade que não é isento de erro. Não há verdades imutáveis em educação, como não há na ciência nem em nenhum domínio de investigação humana. Mas as crenças e doutrinas reinantes na sociedade impõem-se como força normalizadora; anunciam a evidência aos convencidos, impõem verdades estabelecidas, determinam estereótipos cognitivos e incutem medo aos outros, originando inibição, conformismo intelectual, cognitivo e social. Porque quem decide politicamente a educação, organiza currículos e estrutura o sistema educativo, impõe normas, proibições e quadros normativos rígidos. E a normalização não só origina conformismo mas elimina a energia que poderia contestá-lo..
O segundo saber fundamental é o saber ensinar a aprender, isto é, a construir um conhecimento pertinente. Entende-se por conhecimento pertinente, a faculdade da inteligência em situar todas as informações num contexto que lhes dê significado. É uma perspetiva que integra a parte no todo. O que é que isto quer dizer? Quer dizer que sistema educativo atual desenvolve-se sobre um conjunto de disciplinas separadas e sem comunicação entre si, o que produz conhecimento fragmentado e disperso. Alguém que possua muita informação parcelar e fragmentada pode não ser capaz de a relacionar, de pensar criticamente e agir em consonância com a informação que possui. Qual deverá ser, então, o papel da escola na construção do conhecimento pertinente? Aplicar métodos que ensinem as relações mútuas entre as diversas disciplinas e o totalidade dos programas.. Como fazer? A educação holística propõe um ensino interdisciplinar, onde o aluno durante o seu processo de aprendizagem adquire a consciência da importância da totalidade do conhecimento, compreende, age e dá sentido à sua ação. Este currículo desenvolve-se a partir das necessidades, perceções, vontade, expetativas e curiosidade do aluno em estudar determinadas matérias e não sobre a imposição das partes (disciplinas estanques que não interagem entre si, nem com outros espaços da escola além da sala de aula). A criança e o jovem adquirem uma visão global e problematizadora dos problemas que os cercam, desenvolvem relaçãos de autonomia, contratos e afirmam a sua visão do mundo, de forma construtiva. Mas que estratégias e metodologias deverão ser utilizadas para o desenvolvimento das potencialidades do aluno, enquanto ser humano que deseja, sonha, tem projetos de vida e objetivos pessoais a alcançar? Como promover a formação plena do indivíduo? De todos os indivíduos? Como educar de um modo integrador? A resposta a estas questões poderá fazer-se através do terceiro saber fundamental: o ensino da condição humana, isto é, o ensino da unidade da natureza humana, na sua dimensão física, biológica, psíquica, cultural, social e histórica. Porque todos os seres humanos são diversos mas todos nós vivemos os mesmos problemas fundamentais de vida e de morte e estamos "ligados na mesma comunidade de destino". Por essa razão, ensinar o respeito pela diversidade do humano é uma obrigação pedagógica e ética. Porque reconhecer e acolher em si a diferença significa respeitar, ao mesmo tempo, no próximo, a identidade consigo próprio. Ensinar e agir no sentido da humanização de cada um de nós, enquanto ser humano. O quarto saber proposto por Edgar Morin exige o compromisso dos agentes educativos com a identidade terrestre e o respeito pela vida. Estamos sujeitos às mesmas agressões ambientais que os outros seres vivos.. Nesse sentido- diz Edgar Morin- demos aprender a respeitar a vida planetária. A integrá-la em nós. A inscrevê-la na esfera humana. A ganhar uma consciência ecológica porque somos seres mortais que habitam com todos os outros seres, igualmente mortais, a mesma esfera da vida (bioesfera).
O quinto saber consiste em aprender a enfrentar as incertezas: a incerteza do conhecimento; a incerteza da ação, a incerteza que decorre da complexidade, do risco, da decisão, da escolha, do inesperado, do imprevisto. Mas a ação atira-nos para a frente, para o conjunto de problemas novos que é preciso enfrentar criativamente e resolver. Sem autonomia, sem espírito crítico, sem vontade transformadora, conformados a teorias e a dogmas pseudo-científicos que nos aconselham a aceitação sem reservas, não teremos energia para operar qualquer mudança, nem no plano cognitivo, social ou político. O sexto saber remete-nos para o ensino da compreensão, "como condição e garante da solidariedade intelectual e moral da humanidade". Em termos pedagógicos, a compreensão das matérias para que estas possam constituir verdadeiro conhecimento. Em termos éticos, a compreensão necessária entre as pessoas para gerar empatia ( aprendermos a colocar-nos no lugar do outro). Por essa razão, a compreensão reclama abertura, generosidade e acolhimento do outro em nós. Esse acolhimento deve começar na família, onde os filhos não são compreendidos pelos pais e os pais não estão disponíveis para a compreensão dos seus filhos. A incompreensão continua na escola, com os professores e os colegas e, mais tarde, no mundo do trabalho e nas relações amorosas. Por fim, o sétimo saber: ensinar a ética do género humano. Não uma ética livresca, debitada através de lições de moral mas uma prática solidária, realizada por todos e em cada um. Esta exigência que se coloca hoje à Educação, vai muito além do ensino de princípios de cidadania e da vivência dos valores democráticos da participação cívica. Reclama a integração plena da diferença (da parte) no todo ( escola, sociedade e cultura, a nível global). Reclama uma recusa consciente deste novo tipo de barbárie que nos submete à lógica do capital, que é completamente cega às necessidades dos seres humanos e nos escraviza pelo consumo. O ser humano não é uma coisa; é uma realidade vital, a parte de um todo que também enraíza em cada um de nós e por sua vez enraíza numa mátria - a Terra. E esta está ameaçada pela pobreza extrema e abjeta que subjuga milhões de seres humanos, a nível planetário, pelas alterações climáticas e por tantos outros problemas que exigem um novo caminho para o século XXI.