"Pede-se a uma criança. Desenhe uma flor! Dá-se-lhe lápis e papel. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém. Passado algum tempo o papel está cheio de linhas(...) A criança fez tanta força em certas linhas que o papel quase não resistiu. Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já eram demais. Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: Uma flor! As pessoas não acham parecidas essas linhas com as de uma flor! Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas com que Deus fez uma flor! "
Almada Negreiros, "A invenção do dia claro"
A criatividade é inerente ao ser humano, como demonstra este belo texto de Almada Negreiros, e as artes refletiram, desde sempre, a grandeza da criação. Apesar disso, a arte tem um papel marginal nos currículos escolares e as respostas criativas, "fora da caixa", são pouco valorizadas.
É um facto comummente aceite, porém, que o acontecer do humano surgiu associado às manifestações criativas. Historicamente, o processo humano de construção e transmissão espiritual - através das obras de arte, de textos, de símbolos- alicerça-se sobre um princípio poético fundador. Sobre ele ergue-se o pensamento, a comunicação, a compreensão, a imaginação, a significação e o sentido. O legado fecundo que a tradição humana representa, traduz um olhar comum que nos interpela, que participa no nosso presente; nos liga ao nosso passado e está presente nas visões de futuro.
É por essa razão que a educação para o século XXI deverá dar importância à dimensão estética da vida e promover não só a construção de conhecimento sobre a realidade objetiva, mas a criatividade e a imaginação. O sistema educativo atual desenvolve-se em fórmulas limitadoras; legitima-se em grelhas; escuda-se atrás de regras, impõe-se pela norma; uniformiza o diferente; ignora as emoções; mata o sonho e a criatividade, desvaloriza o pensamento divergente. A razão instrumental, que hoje domina de forma absoluta a educação, fecha-se à diversidade do discurso e do pensamento humano. No entanto, terá de integrar como problema a questão da dignidade da vida e o direito ao futuro de cada ser humano concreto, numa perspetiva pedagógica e ética. Para que isso aconteça, é necessário que a criança e o jovem viva plenamente, criativamente, todas as suas possibilidades, enquanto ser em formação. Cabe ao educador identificar essas potencialidades e fazê-las dialogar com os objetivos curriculares, as metodologias, as expetativas e os projetos de vida singulares. Nesse espaço de construção do conhecimento e da aprendizagem, deverão dialogar dialeticamente a ordem e a desordem; a estabilidade e o dinamismo; o incerto e a previsibilidade, a esperança e a autodireção. A submissão cega, totalitária, desumana, à racionalidade reprodutora transporta em si mesma um princípio de não criação e de morte.
É por essa razão que a educação para o século XXI deverá assumir a criatividade como caminho emancipador; traçar novos modelos de ação, plasmar uma nova estética existencial, potenciar a criação de um pensamento livre, criativo, empático e autocrítico. A inclusão da diferença e o reconhecimento do direito a ser, a aprender e a expressar-se de forma diferente, exige o envolvimento de todos os agentes educativos: família, docentes, instituições, comunidade. Como fazê-lo? Ensinando o diálogo com a diferença no seio de uma comunidade - comunidade de pertença, escola, grupos sociais. Promover em cada ser humano a realização da excelência. A busca da excelência não diz respeito apenas ao conhecimento, mas designa aquele que acede à compreensão de si e do outro; que é capaz de empatia face à vida, humana ou não humana, e assume a gestão partilhada, o diálogo, a tolerância, a solidariedade e a responsabilidade como um imperativo ético. Em suma, assume a humana condição de ser com os outros, trilhando caminhos comuns.
Porquê educar para a criação e para a compreensão do humano, em vez da reprodução? Primeiro, porque esse modelo de pensamento não produz conhecimento profundo e complexo. Depois, porque há mais de duas décadas que a web e as novas tecnologias rasgaram novos oceanos de conhecimento, mas não geraram compreensão. Potenciaram o acesso universal à informação, mas não promoveram a comunicação empática, consciente e reflexiva. (Basta ler o que se escreve diariamente nas redes sociais, por pessoas como responsabilidades públicas, governativas ou quaisquer outras). A aventura desta navegação assenta no pré-conhecimento de algumas rotas, e de alguns “portos”, onde nem sempre é possível chegar em segurança. Há riscos. O maior, é a cegueira dogmática e a manipulação. A itinerância e a deriva de crianças e jovens pelos universos da Web, sem pré-conhecimento dos mapas de navegação, gera inquietações legítimas aos educadores e deixa em aberto incertezas e campos de problematização. E, no entanto, é um instrumento poderosíssimo para o desenvolvimento da criatividade, das artes e da comunicação.
Somos educadores, sujeitos ao erro - pobres guardadores de rebanhos - como diria o poeta. Negar à criança a possibilidade de ser mais, impedi-la de trilhar o próprio caminho; limitar-lhe as possibilidades de futuro - em função de quantificadores de aprendizagem registados numa grelha excel -, é negar-lhe a própria vida. Todos os educadores precisam ter esta aprendizagem. A compreensão da nossa responsabilidade face ao futuro do outro, enquanto possibilidade, acarreta necessariamente uma transfiguração. Se o caminho aprendente é uma trajetória de vida, qualquer método de ensino deverá promover a consciência de si e a capacidade de criar, desenhar o seu próprio caminho. Essa é a revolução da aprendizagem e o grande desafio para o século XXI. Envolver nesta caminhada todos os agentes educativos.Mas enquanto estivermos presos a modelos rígidos de ensinar e de conviver e às amarras da normalização e da uniformização, é pouco provável que a criança possa desenhar livremente as linhas de uma flor, do futuro e da sua própria vida.