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07
julho

Retalhos da nossa história- CCLXIII - A Imperatriz Zita de Bourbon e Parma na cidade da Horta

Escrito por  Fernando Faria
Publicado em Fernando Faria
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Uma das épocas mais progressivas da recente história faialense respeita aos anos de 1939 a 1945, período em que a Pan American Airways ligou regularmente os continentes americano e europeu, utilizando os seus famosos aviões Clippers.

Naquele tempo o transporte aéreo de passageiros era apenas acessível a uma elite, em que predominavam governantes, diplomatas, banqueiros, artistas de rádio e cinema, altas patentes militares, jornalistas e empresários. A passagem de ilustres personagens pela Horta ampliou o cosmopolitismo desta pequena cidade que vinha já do século anterior, com a relevância que atingira com a Família Dabney e, logo após a partida desta, com a instalação das companhias do cabo submarino.

Como os modernos e luxuosos hidroaviões da Pan American tinham de reabastecer de combustível no aeroporto faialense, as suas paragens eram, normalmente, breves. Mas, ocasiões houve, em que deficientes condições meteorológicas ou inesperadas avarias forçaram as aeronaves a permanências mais dilatadas. 

A mais conhecida e a maior de todas elas deu-se em Dezembro de 1939 quando, devido ao mau tempo, os passageiros que da Europa seguiam para os Estados Unidos no “Atlantic Clipper” e no “Dixie Clipper” ficaram retidos no Faial durante alguns dias, obrigando-os a cá festejar o Natal e a Passagem de Ano. Eram cerca de 30 os que vinham naqueles dois aviões e essa longa estadia ficou indelevelmente assinalada nos seis números do jornal “The Horta Swell” concebido e escrito por três daqueles viajantes: o magnata do petróleo Max W. Thornbourg, o visconde e empresário espanhol Pedro Domecq e a condessa Hertha von Gradenigo. Impresso nas oficinas gráficas de “O Telégrafo”, esse surpreendente jornal, que é uma inusitada “crónica de um Natal transatlântico”, simboliza aquela época de ouro na história do Faial e da aviação. 

Uns meses depois do aparecimento do “The Horta Swell” – exactamente nos dias 17 a 19 de Julho – uma avaria num dos motores do “Atantic Clipper” fez com que os passageiros que nele viajavam da Europa para a América tivessem uma inesperada estadia na cidade da Horta, ficando hospedados na messe da Pan American, actual Hotel Fayal. 

 

Eram, obviamente, personalidades de relevo, destacando-se entre elas a Imperatriz Zita de Bourbon e Parma (1892-1989), viúva de Carlos de Habsburgo, último imperador da Áustria, falecido em 1922, com 34 anos de idade, na ilha da Madeira. 

Com a implantação de repúblicas nos países que haviam formado o poderoso Império Austro-Húngaro, os Habsburgos tiveram de exilar-se, primeiro na Suíça e depois na cidade portuguesa do Funchal. Com a morte precoce do marido, a imperatriz viúva entregou-se com extraordinário empenho e enorme dignidade à educação integral dos seus oito pequenos filhos. Foi este grande objectivo que a levou a fixar-se na Bélgica, próximo da Universidade de Lovaina, onde com o auxílio de familiares e amigos, tinha condições de lhes proporcionar uma formação mais agradável e completa e, após a anexação da Áustria por Hitler em 1938, podia liderar a resistência aos nazis. Todavia, a invasão da Bélgica pelas tropas hitlerianas em 10 de Maio de 1940, fez com que a imperatriz Zita e os seus filhos se tornassem refugiados de guerra. Assim, vieram para a França, mas o colaboracionismo de Pétain com os nazis, obrigou-os a fugir para a fronteira espanhola. Aí conseguiram visto para Portugal, fixaram-se nas Caldas da Rainha, até que em 9 de Julho o Governo dos Estados Unidos lhes concedeu passaporte para emigrarem para aquele país. 

O primeiro a embarcar para Nova Iorque foi o filho mais velho, arquiduque Otto de Habsburgo que a bordo de um Clipper também esteve na Horta.

 

Pouco dias depois, a imperatriz Zita, acompanhada da sua filha Elizabete também faria idêntica viagem. Só que um contratempo nos motores do “Atlantic Clipper” fez com que a programada estadia de umas poucas horas na capital faialense se prolongasse por três dias. 

Esse acontecimento invulgar ficou devidamente assinalado em “O Telégrafo” que na sua edição de 23 de Julho, considerou que “nunca a nossa terra foi visitada com tanto interesse e carinho e por pessoas tão ilustres, como o fora por S. M. a Imperatriz Zita da Áustria e sua filha mais nova, Sua Alteza a Princesa Elizabeth”. Relatando em pormenor o que foi essa estadia, aquele jornal acentua o catolicismo fervoroso da imperatriz que diariamente participava na missa, a admiração da magnífica paisagem que as visitas à Caldeira e à Espalamaca lhes proporcionou, o “elevadíssimo grau de cultura” manifestado em todas as ocasiões, quer nas conversas com os seus anfitriões locais (Dr. Virgílio Pimentel, secretário do Governo Civil, Pe. José Pereira da Silva, ouvidor eclesiástico, e João Menezes, chefe de secretaria da Junta Geral) quer nas visitas às belas igrejas da Matriz e São Francisco, ao museu etnográfico da cidade ou à excelente “colecção de estatuária feita em miolo de figueira pelo Sr. Euclides Rosa, donde saíram verdadeiramente encantados”. 

Tendo embarcado no “Dixie Clipper” a 19 de Julho para Nova Iorque, a imperatriz Zita, “pela simplicidade de maneiras, pela conversa elegante e distinta, pelo amor aos seus augustos filhos e pelos desejos ardentes de um futuro próspero da Áustria, sua pátria”, deixou verdadeiramente cativados os faialenses que com ela contactaram.

 

(O autor escreve segundo 

a antiga ortografia)

 

 

 

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