Chegou-me há uns dias às mãos um exemplar de um livro de Almeida Garrett (1799-1854), datada de 1848. Não bastasse o facto de Garrett ser filho de faialenses, trata-se de uma memória histórica (no caso uma espécie de pequena biografia) acerca da primeira Duquesa de Palmela, D. Eugénia Francisca Xavier Teles da Gama, que antes de ser titulada Palmela foi a primeira (e única) Duquesa do Faial. Já há algum tempo que tinha “em gaveta” escrever sobre os Faial, sobre o efémero ducado ou o centenário marquesado, cujo título ainda hoje é utilizado pelo herdeiro presuntivo da Casa Palmela, sobre o Chalet Faial (à beira-Tejo em Cascais) ou sobre o Palácio Faial (em Lisboa). Mas fica para outra vez.
Por ora debruçar-me-ei apenas sobre este livro e algumas das suas passagens. Sobre o livro, basta dizer que se conhece uma única edição, esta de 1848, sendo, portanto, uma raridade bibliográfica, e que contém uma gravura da duquesa, com a reprodução da sua assinatura. Quanto ao exemplar, pertenceu à biblioteca de Francisco J. Martins, contendo ainda a respectiva etiqueta de inventário e ex-libris.
O texto traça uma biografia de D. Eugénia Francisca Xavier, desde a sua origem na alta nobreza até à sua morte, no ano desta publicação, passando pelo casamento, títulos, vida familiar e pessoal e registo das suas virtudes e benemerência (de resto está disponível integralmente na Internet, na ligação que segue no final).
Mas o que me chamou mais a atenção, desde o primeiro momento em que folheei o exemplar, foi o facto de, algures no seu século e meio de existência, alguém o leu e sublinhou passagens, que ainda hoje sobressaem, marcadas a lápis. Estas passagens referem-se sobretudo relacionadas com a acção do marido, o Duque de Palmela, um dos diplomatas e políticos mais importantes da primeira metade de Oitocentos, com importante acção nas Lutas Liberais (daí o título Faial). E, como acontece com os gran-des autores, apesar do século e meio que passou não deixam de ter uma leitura útil no contexto actual, pelo que aqui reproduzimos esses excertos:
P. 19: a dado momento o casal vivia interessado “no andamento dos negocios-publicos, mas abstendo-se elle[o duque] de toda a acção politica, e do governo que ciosamente era guardado por pessoas, não direi de oppostos principios, mas de ideas mui diversas quanto ao modo de estabelecer, de tornar práctico, de fazer amado e popular um systema que todos queriam, assim o soubessem querer todos!”
PP. 19-20: “N’aquella epocha de dúvidas, os partidos, as opiniões não extremavam ainda bem os seus amigos e inimigos. Mettiam-se em meio as rivalidades e mal-querenças pessoaes que desatinam o povo. / Quem tanto tinha soffrido, de tanto servido, e nem por si nem pela // patriacolhêrafructo de tantos lavores, deitava a culpa para alguem. Esse alguem era o que as facções apontavam; e as facções nunca apontam justo.”
E deixo ao entendimento de cada um a interpretação.
Veja-se: J. B. de Almeida-Garrett, Memoria Historica da Excellentissima Duqueza de Palmela D. Eugenia Francisca Xavier Telles da Gama por..., Lisboa, na Imprensa Nacional, 1848 (disponível em linha em <purl.pt/21>)
Em defesa da Língua Portuguesa, o autor deste texto não adopta o "Acordo Ortográfico" de 1990, devido a este ser inconsistente, incoerente e inconstitucional (para além de comprovadamente promover a iliteracia em publicações oficiais e privadas, na imprensa e na população em geral).