1. Faz agora três semanas sobre o fatídico incêndio em Pedrógão Grande. Desde lá muito se disse e escreveu. Muitas coisas acertadas e judiciosas e muito disparate a esconder ideologias e interesses político-partidários perpassaram pela comunicação social. Não vou acrescentar nada a esse panorama. Tão só partilhar com os leitores uma reflexão do jornalista Ricardo Marques, do jornal Expresso, que no “Expresso Curto” do passado dia 30 de junho escreveu o seguinte texto, que bem merece ser lido com atenção:
“A pessoa tenta, juro que tenta, mas é difícil. Não é esquecer, porque isso é impossível, mas é só não pensar tanto. Talvez pensar noutra coisa, mas é difícil. Amanhã faz duas semanas que aquilo aconteceu e, por mais que a pessoa tente, amanhã faz duas semanas que andamos a discutir aquilo. E o que assusta mais é que estamos exatamente na mesma. Ou pior.
Esta manhã dei por mim a desejar duas coisas em que sempre evitei pensar. A primeira é estar enganado, desejar que, daqui a um mês ou um ano, a realidade prove que tudo o que vou escrever a seguir seja mentira, que não passe de um enorme erro.
Ontem, depois de um ensaio morno na véspera, começámos a assistir a uma nova versão de uma peça antiga, que todos já conhecemos de cor. Estreou no Parlamento e fora dele, com uma guerra em curso entre a Proteção Civil e a Secretaria Geral do Ministério da Administração Interna. A coisa é mais ou menos assim: vai para lá, vem para cá, salta para ali e depois para acolá. A culpa é dele, a culpa é daquele, e do outro e de mais um ou dois. Devia ter sido assim, não devia ter sido como foi. Falam demasiado, agora estão calados.
É inadmissível, incompreensível, impossível e, a pouco e pouco, a discussão em Lisboa vai ficando mais longe daquelas aldeias, daquelas estradas, daquelas pessoas.
Com uma diferença em relação ao passado: antes havia três partidos comprometidos com todos os governos desde 1974. Hoje ninguém na Assembleia da República pode dizer seja o que for. O que aconteceu há duas semanas até poderá não ter culpados. O tempo o dirá. Mas nem essa possível ausência de culpa irá alguma vez apagar algo que não tem desculpa.
Em breve vai começar a trabalhar a comissão (12 técnicos especialistas: seis indicados pelo presidente da Assembleia da República e outros seis pelo Conselho de Reitores) encarregue de “proceder a uma avaliação independente em relação aos incêndios de Pedrógão Grande, Castanheira de Pera, Ansião, Alvaiázere, Figueiró dos Vinhos, Arganil, Góis, Penela, Pampilhosa da Serra, Oleiros e Sertã”.
Um conselho para este concílio de sábios que vai investigar o indesculpável: não se limitem a ler relatórios e análises, a mergulhar no passado a ver quem fez o quê, a marcar reuniões em Lisboa com os autarcas e as “forças vivas” das terras mortas. Metam-se no carro, sujem os pés de cinza, vão depressa para ainda sentirem o cheiro a queimado. Falem com quem não morreu. Falem com os sobreviventes. Andem mais uns quilómetros por esse país tão distante da cidade e vejam o que não ardeu.
Têm 60 dias, mais trinta se for preciso - até depois das eleições autárquicas, quando o outono já tiver chegado - para perceber e explicar a tragédia de uma só noite. O Governo fez ontem um novo balanço dessa noite indesculpável.
E a ministra da Administração Interna anunciou que vai mandar 750 operacionais para o terreno, de modo a garantir a vigilância das zonas mais críticas. Eis algo que, há uns anos, nos teria deixado descansados. Hoje? Não. Não há um número capaz de nos tranquilizar depois de 64 pessoas terem morrido numa noite.
E é por isso que esta manhã também dei por mim a pensar, pela primeira vez na vida, que só quero que o verão passe depressa.”
2. E, para concluir esta crónica, dentro do mesmo espírito pessimista, mas infelizmente profundamente real, cito a forma ácida, mas verdadeira, como o jornal Observador sintetizava este processo bem português de lidar com a incompetência, a culpa e a irresponsabilidade:
“João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém”.
Carlos Drummond de Andrade, no poema “A Quadrilha”.
O poema continua, mas é esta parte que nos interessa. Se adaptarmos estes versos às acusações das várias entidades sobre o que aconteceu no incêndio em Pedrógão Grande e substituirmos o verbo “amar” por “acusar”, temos (quase) o circulo perfeito.
“GNR acusa o Governo que acusa a Proteção Civil
que acusa o SIRESP. E todos acusam o SIRESP
que não acusa ninguém” (e até acha que correu tudo pelo melhor).”