O texto de hoje estava já preparado sobre outro tema, mas, entretanto, houve uma companhia aérea que decidiu fazer das suas. Bem, “companhia aérea” é uma forma de expressão, porque a culpa foi obviamente da Ofélia, ou do nevoeiro, ou do vento, ou da falta de vento ou até, possivelmente, dos Fenícios (porque agora estão na moda por estes lados, algures entre a atracção de circo e o bode expiatório, pelo que nada me admiraria se fossem responsabilizados pelos problemas nas ligações aéreas com a mesma legitimidade com que são responsabilizados pelo povoamento das ilhas...).
Bom, isto para dizer que decidi escrever sobre o assunto. Dada a irritação resul-tante de um dia a pulular entre voos, sempre sem saber se chegavamos ou não ao destino, decidi chamar a este texto “Uma aventura satânica”, fazendo um trocadilho malino com o nome da companhia aérea e reprovando assim a qualidade do serviço. Depois lembrei-me que a dita cuja tem agora um nome para inglês ver, do que resultou a mixórdia estranha que intitula este texto.
Podia agora deixar um testemunho em tom de lamúria, descrevendo o voo que não passou no sábado e o dia que perdi por causa desse voo, e o outro dia que perdi hoje por causa de outro voo que também não passou e de ligações alternativas que até ao último momento foram uma incógnita; há já muitos testemunhos conhecidos acerca de situações destas, incluindo as destes últimos dias, que são, infelizmente e como é sabido, o pão nosso de cada dia para quem tem de se deslocar entre estas ilhas (ou pelo menos entre algumas delas...).
Estando eu com “um pé dentro e outro fora” consigo ter uma visão em certa medida panorâmica, algures entre quem vive nas ilhas e quem as vê do exterior. A reflexão crónica que deixo aqui hoje é, por isso, não sobre quem vive encurralado nas ilhas à custa do mau serviço aéreo, mas sim de quem vem de fora e se vê afectado pelo mesmo problema. Houve por estes dias um importante congresso internacional no Faial, acerca do atum. O meu conhecimento sobre o tema limita-se a saber que se vende enlatado e que é uma alternativa tentadora em dias de preguiça culinária (e talvez por isso não tenha sido convidado a participar). Não obstante, e por mera coincidência, a viagem que motiva este texto coincidiu com o congresso, o que fez com que nos voos que fiz fossem e viessem vários dos participantes. Penso que não falei com nenhum deles, apesar de ter falado com várias pessoas pelo (longo...) caminho até ao nosso destino final, mas não foi difícil perceber o sentimento que os tomava, e que seria muito semelhante na maioria dos passageiros. Vamos pôr a coisa em termos simples: uma pessoa vem aos Açores, partimos do princípio que tenha ficado agradado com a hospitalidade e que as paisagens não tenham ficado nada aquém das expectativas publicitadas mundo fora, mas depois, terminada a visita, quer regressar à sua vida, apanhar voos de ligação ou outros meios necessários, e vê-se presa num aeroporto, em que lhes é dito o seguinte: 1º O avião está atrasado; 2º O avião teve uma avaria, voltou para trás e não se sabe se vem (e, em todo o caso, está atrasado); 3º Existem voos alternativos para reencaminhar as pessoas, mas há ordens superiores para não reencaminhar ninguém até se saber se o avião vem ou não; 4º Afinal a avaria resolveu-se e o avião vem, mas muito atrasado, por isso até podem ir dar uma volta a qualquer lado porque faltam duas horas para o voo; 5º Passados dez minutos afinal está mesmo avariado e é preciso correr para o avião que está na pista, para fazer um voo de ligação com quatro horas de escala e chegar ao destino às duas da manhã (quando era suposto ser às seis da tarde...).
Não creio que os faialenses como eu que vieram nesta viagem tenham ficado com pior imagem do nosso sistema de transportes aéreos, pelo menos na medida em que não conheço nenhum faialense que ainda tenha uma boa imagem deste sistema... Mas posso garantir que houve muita gente de fora que regressou com uma imagem péssima da companhia aérea e do serviço que presta e, com isso, com má imagem das ilhas e, em última análise, de Portugal. Regressarão e dirão, como já ouvi visitantes dizerem noutras ocasiões, que somos uns desorganizados muito simpáticos e que é pena termos uma região e um país tão bonitos e tão mal geridos (e isto é o que dizem quando são educados...).
É esta a imagem que queremos dos Açores? Que andamos a vender Natureza e qualidade e que no fim é tudo uma fachada e as coisas não funcionam? Porque é essa a imagem que fica em muita gente que nos visita (e a culpa não é só dos problemas nos transportes...). Fica a reflexão.