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17
novembro

Reflexões Crónicas - Sobre a igreja e o adro das Angústias

Escrito por  Tiago Simões Silva
Publicado em Tiago Silva
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Foi há 550 anos que Josse van Hurtere, primeiro capitão-do-donatário e líder do povoamento do Faial, fundou em Porto Pim a primitiva ermida de Santa Cruz, na qual a sua mulher, Britis de Macedo, colocou também uma imagem de N. S. das Angústias.
Esta foi a sede da primeira paróquia da ilha, ainda provisória, enquanto se organizava e desenvolvia o desbravamento da ilha e a criação de vários povoados em seu redor, povoados esses que dariam depois origem a várias das paróquias que ainda hoje existem. No final de Quatrocentos criou-se a vila e, com ela, a Paróquia do Santíssimo Salvador (cuja igreja foi construída onde hoje está o polidesportivo municipal). Foi entre 1664 e 1684 que se criou a paróquia das Angústias e se construiu a sua igreja. Em 1811 começou a construir-se a actual, para substituir a anterior, em muito mau estado.
Com o projecto da Frente de Mar planeia-se uma intervenção no adro da igreja, com o objectivo de retirar-lhe o muro e colocar um novo pavimento em calçada, inserido no contexto das ruas em redor. Devido à planeada intervenção, e cumprindo o previsto na lei, a Direcção Regional da Cultura promoveu um estudo de impacto arqueológico no local, no qual se descobriram ossadas e o que aparentam ser os alicerces de um edifício seiscentista, o que parece indicar que a igreja anterior ocuparia uma parte do adro actual. Espera-se ainda o relatório arqueológico, com as conclusões finais sobre os achados encontrados. Isto tudo vem a respeito de duas coisas: primeiro, os 550 anos do povoamento, que estão neste momento a passar (despercebidos), segundo, a referida intervenção anunciada para o adro das Angústias.
Como já tive oportunidade de expressar em vários locais, considero esta intervenção um erro, pois vai destruir o adro da igreja sem trazer nada de útil em retorno. Os arquitectos ou técnicos com quem falei sobre a questão são unânimes em considerar a ideia um erro, pois um adro é um espaço com características próprias, ligado ao culto e ao enquadramento paisagístico da igreja a que pertence, não uma “praça” como a Câmara Municipal pretende (como já ironizei algures, se querem fazer uma praça têm de retirar primeiro a igreja, senão nunca será uma praça, será apenas um adro descaracterizado). Quando o projecto foi apresentado publicamente não me pronunciei sobre esta questão, pois confiei que imperaria o bom-senso (o que, como ficou patente noutras situações recentes, parece não ser o caso). Depois de perceber que avançaria, questionei a CMH nesse sentido, pedindo para serem tornados públicos os pareceres técnicos sobre a matéria, assim como o aval da Diocese de Angra, proprietária do espaço. Infelizmente passaram-se os meses e até hoje o mais parecido que tive com uma resposta foi algo como “há coisas que não devem ser tornadas públicas”... Entretanto deu-se o estudo de impacto arqueológico e os achados que referi acima, que necessariamente resultarão numa alteração do plano original, mas até agora não se sabe exactamente o que será. De resto parece que vai mesmo avançar, sem que ninguém seja capaz de explicar qual a utilidade de retirar o centenário muro da igreja, ou de destruir os ladrilhos artísticos que lá estão, únicos e com um forte simbolismo histórico, para os substituir por um padrão igual a tantos outros. Prevejo que daqui por uns anos se perceba que destruir algo único para substituir pelo banal foi um erro, e será gasto mais dinheiro para repor o muro e corrigir o erro. Pode parecer uma previsão descabida, mas veja-se o que aconteceu na Praça da República, em que foram retirados os bancos originais para agora serem recolocadas réplicas de menor qualidade no seu lugar. Ou o caso do polidesportivo no Relógio, que ainda nem estava terminado e já havia um documento oficial a informar que daqui a 15 ou 20 anos poder-se-á corrigir o erro.
No caso do adro das Angústias ainda vamos a tempo de impedir a asneira e de evitar que se gaste dinheiro numa inutilidade, possivelmente para daqui a uns anos se voltar a gastar para repor o que agora se quer tirar. Consta que os paroquianos foram questionados e aceitaram sem vacilar, o que é ainda mais triste, sobretudo tendo em conta que aqueles com quem tenho falado são todos contra, incluindo alguns que já se arrependeram de não ter falado quando tiveram oportunidade.
Pois bem, fica o testemunho, mais não seja para um dia destes dizer “eu avisei”. (E, em todo o caso, mantenho o repto à CMH, para que actualize a página da “Frente de Mar”, colocando lá também os pareceres técnicos sobre a obra).

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