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24
novembro

O desconforto do PS/Açores com Jaime Gama

Escrito por  Paulo Estevão
Publicado em Paulo Estevão
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O Vice-Presidente do PS/Açores e Presidente do Grupo Parlamentar do PS no Parlamento não gostou do discurso que Jaime Gama realizou no passado dia 24 de outubro de 2017.
Com incontida indignação reagiu, violentamente,através de uma impiedosa publicação no Facebook. As publicações no Facebook de André Bradford ainda não são tão mediáticas como as que Donald Trump realiza no Twitter, mas acreditem que vale a pena ler. Ao contrário do que sucede nos cinzentos discursos institucionais e nos enfadonhos artigos de opinião que escreve atualmente, no Facebook o Vice-Presidente do PS/Açores liberta-se um pouco mais e escreve com incontida crueldade.
Transcrevo a seguir o que escreveu André Bradford a respeito de Jaime Gama (que o autor não cita de forma expressa, mas cujo nome que está claramente gravado na pedra da intencionalidade explícita). Veja bem, caro leitor, a sanguinária e impiedosa maldade do comentário realizado: “Ainda que venha muito longe, tenho medo da reforma. Tenho receio do que terei de dizer para que me prestem atenção. Tenho receio de que sinta cada oportunidade como a última e que, por causa disso, tenha de ser e dizer o que os outros querem que eu seja e que diga. Comiseração, é disso que tenho medo. Comiseração e falta de noção do ridículo”.
Jaime Gama, um dos fundadores do PS, é um democrata de credenciais incontestáveis. Integrou as listas da oposição ao regime salazarista, a Ação Socialista Portuguesa e chegou a ser detido pela PIDE devido ao seu ativismo político. Foi um parlamentar e um ministro brilhante. Na minha perspetiva – e na de muitos, estou certo disso – Jaime Gama pode e deve ser considerado um dos mais brilhantes políticos açorianos de todos os tempos.
Com um currículo destes, Jaime Gama tem estatuto para dizer o que bem entender, sem ter de pedir autorização aos cristãos novos que se acotovelam, em tempos de bonança, na aprazível nau do poder socialista. Não sendo controlável pelas tradicionais vias de intimidação partidária, recorreram, para o condicionar, ao insulto fácil do holiganismo mais acéfalo e primário.
Para o PS/Açores, Jaime Gama é agora um velho ridículo, caduco e miserável. Mas quem o ouviu, no dia 24 de outubro, sabe que a lucidez, a cultura e a inteligência superior do velho leão do socialismo português permanece intacta. Mas o que disse Jaime Gama, que irritou tanto o aparelho socialista que se eterniza no poder regional? Não resisto a fazer citações longas, de um discurso memorável.
Jaime Gama referiu que “uma das limitações do projeto autonómico, que faz com que a discussão institucional fora desse contexto não tenha muito sentido, é o facto de as receitas geradas nos Açores serem insuficientes para assegurar o seu processo de desenvolvimento de uma forma sustentável”.
Esta situação provoca, na sua perspetiva, uma total dependência em relação às verbas do Orçamento de Estado e da União Europeia. Se, por razões políticas e macroeconómicas, as verbas provenientes do Estado e da União Europeia diminuem, “a Região vê-se numa conjuntura difícil, que tem procurado equacionar, por um lado congelando investimento público reprodutível no desenvolvimento económico - quando opta por uma política de sustentação salarial dos vencimentos do funcionalismo e da galáxia que na Região constitui não só o funcionalismo da administração regional, mas também o agregado de empresas públicas regionais que funcionam como pagadorias de políticas regionais ou ainda acrescentando as transferências sociais a certas categorias de população, que, sem esses recursos, porventura, entrariam numa maior turbulência social - e, por outro lado, recorrendo ao endividamento.
Um endividamento que não é contraído só sobre a poupança regional. É também contraído sobre a poupança externa, na medida em que, se fizeram as contas, a poupança regional não é suficiente para assegurar o nível dos empréstimos que são feitos à Região”.
Em síntese, que é da minha inteira responsabilidade, temos uma economia venezuelana de subsistência que, no plano político e social, representa o regresso a uma sociedade feudal, dominada por uma elite partidária de nula transcendência intelectual e cívica.
Na sequência desta conclusão, Jaime Gama questiona “se uma economia, que funciona numa sociedade assim, é uma economia livre, apta a gerar uma sociedade mais livre e mais responsável? Ou se, pelo contrário, é uma economia que gera uma sociedade mais conformada, mais propensa a viver com essa rotina do que a enfrentar os desafios do futuro? Será que esse tipo de sociedade é um tipo de sociedade de onde possa emergir facilmente uma crítica, uma proposta alternativa, uma ideia diferenciada”?
O discurso de Jaime Gama é absolutamente racional e lúcido. Não lhe falta também a coragem de denunciar a obra maléfica de uns discípulos partidários que degeneraram com a doença do poder. O insulto e o apoucamento a que foi sujeito retrata os seus caluniadores, nunca a personalidade brilhante e livre que é Jaime Gama.

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