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24
novembro

Horta, cidade cosmopolita?

Escrito por  Victor Rui Dores
Publicado em Victor Rui Dores
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À beira-mar reclinada, oásis de repouso e de refrescos no meio do Atlântico, a Horta é a cidade mais ocidental da Europa. Cidade-mar, cidade porto, porto de acolhimento, afirmam os roteiros turísticos que esta é uma cidade cosmopolita.
Tal cosmopolitismo está íntima e indissociavelmente ligado à sua importância geoestratégica a partir do século XVIII, e com maior incidência no século XIX e primeiro quartel do século XX. Refiro-me à Horta que esteve na rota da laranja, do vinho e da baleia; a Horta dinâmica, mercantil, carvoeira, desportiva, telegráfica, culta e ilustrada; a Horta enquanto escala obrigatória de navios, porto de reabastecimento de frotas, local de descanso da marinhagem, num tempo em que o poeta Pedro da Silveira a (d)escrevia como “a mais alegre, a maior cidade pequena do Mundo”.
Convirá não esquecer que a Horta foi a primeira localidade da Europa a possuir uma representação consular norte-americana logo após a Independência dos Estados Unidos da América, mercê da presença, no Faial, da família Dabney entre 1804 e 1892.
De resto, a presença estrangeira na “ilha azul” é uma constante ao longo da sua história: assistiu-se, logo a partir do século XV, à vinda de flamengos cujos apelidos ainda hoje perduram entre nós: Dutra, Goulart, Terra, Rosa, Silveira, Brum, Bulcão e Decq.
O século XIX é marcado pelo forte contributo económico, social e cultural de três gerações da referida família norte-americana Dabney (John Bass Dabney, Charles William Dabney e Samuel Whyllys Dabney); depois a Horta foi palco das primeiras travessias aéreas, sofrendo influências, a diversos níveis, deixadas pelos ingleses, americanos e alemães das Companhias dos Cabos Telegráficos Submarinos (de 1893 a 1962), havendo ainda a considerar a instalação de uma Base Aliada Naval durante as duas grandes Guerras Mundiais, o ciclo dos clippers da “PanAmerica” (entre 1939 e 1945) e a presença dos rebocadores holandeses.
A partir dos anos 80 do século XX, com a construção da Marina, nada na Horta viria a ser como dantes: esta cidade transformar-se-ia em porto de escala do iatismo de recreio internacional, sendo que, em termos de movimentação dos chamados “pleasure boats”, a Marina da Horta ocupa, hoje, o primeiro lugar a nível nacional, o segundo lugar a nível europeu e o quarto lugar a nível mundial. Esta cidade pode mesmo orgulhar-se de possuir “a Marina oceânica mais internacional do mundo”, conforme deixou escrito João Carlos Fraga. Por aqui passam todas as bandeiras, todos os veleiros, todos os velejadores, todas as raças, todas as línguas, todas as nacionalidades...
Mas há mais: é na Horta que acontece, anualmente, o maior e melhor festival náutico de Portugal: a “Semana do Mar”. A baía da Horta foi classificada como uma das mais belas do mundo, e o “Peter Café Sport”, onde se bebe o gin da amizade, é considerado “o melhor café do mundo pra receber marinheiros”.
Atualmente são cerca de 600 os cidadãos estrangeiros que escolheram a ilha do Faial para viver. Entre Junho e Setembro muitas e desvairadas gentes aportam à Horta, havendo os que, trazidos por ventos de feição, aqui repousam das marítimas aventuras – são os “iatistas” que retemperam forças para retomar a roda do leme, e que, nos cafés, festejam a alegria reencontrada dos sentidos… E depois partem. Partem porque a errância é o seu destino e a sua forma de perseguir a felicidade e o sonho. Oceanicamente livres.
Horta, cidade cosmopolita?
Sejamos rigorosos. Cidades verdadeiramente cosmopolitas são, por exemplo, Nova York, Londres, Paris, Toronto, Sydney, Amsterdão, Frankfurt e outros grandes centros urbanos que são, de facto, espaços multiculturais e multiétnicos.
Por isso mesmo, a Horta não é uma cidade cosmopolita – tem, sim, uns laivos de cosmopolitismo durante os meses de Verão…

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