1.Cada vez com mais insistência e frequência vou lendo e ouvindo vozes várias, dos mais plurais quadrantes partidários, financeiros e mesmo pretensamente “técnicos”, que não escondem a sua oposição à ampliação da pista do aeroporto da Horta (e, já agora, também à da do Pico…) com os argumentos de que não se trata de um investimento razoável, que é uma duplicação no gasto de dinheiros públicos e de infraestruturas, que é um investimento sem retorno e ao qual falta dimensão para ser rentável.
Esses “pensadores” até já não se coíbem de defender abertamente que, no caso das ligações aéreas com o exterior, a entrada e saída dos Açores deve ser apenas por uma gateway (Ponta Delgada) e que a “missão” da SATA deve ser a de garantir frequência à chegada dos passageiros a S. Miguel ou ao seu escoamento para as várias ilhas.
2. A mentalidade que está por detrás de tais propostas, e que parece estar a alargar-se, reduz o desenvolvimento a uma folha de Excel, a economia à escravatura do “mercado” e da “dimensão”, e, censuravelmente, esquece a História dos Açores e os princípios que presidiram à instituição da Autonomia Açoriana. Com efeito, se o futuro dos Açores for desenhado na base do pensamento de tais pessoas, bem podemos já evacuar e fechar sete das nossas ilhas porque, para eles, se isso acontecesse, seria apenas uma “dor de crescimento”. O que tais luminárias deslumbradas convenientemente se esquecem é que as duas ilhas que restam têm a dimensão de um bairro de Lisboa e, por isso, um dia também irão morrer, vítimas das mesmas armas que agora querem usar para nos matar!...
3. Se há coisa mais detestável e perigosa que tem crescido e está a proliferar nos Açores desta última década é o divisionismo e a rivalidade entre ilhas, fomentada, infelizmente, por muitos políticos e governantes, que propositadamente dividem para reinar e que, infelizmente, vão tendo eco num conjunto de mentes tacanhas que alimentam esta estratégia. Veja-se o exemplo pouco edificante da rivalidade bacoca e inconsequente que uns quantos alimentam acerca da ampliação da pista do aeroporto da Horta e do Pico, azedando comunidades que deviam ser irmãs e complementares, fazendo reivindicações por mero tacticismo e satisfazendo-se e ufanando-se com alguma coisa que não corre bem ao vizinho.
Ainda hoje dói-me ver a miopia desta geração que tarda em perceber que esta rivalidade e este divisionismo é propositadamente cultivado para não se fazer nada nem num lado, nem no outro, beneficiando-se, assim, aqueles que têm a perder com um Triângulo unido, coeso, complementar e com força para ser ouvido e se impor a nível regional e ser mais forte quando se trata de repartir o bolo dos investimentos públicos.
4. Voltemos, porém, aos ilustres “pensadores” que acham bem que se regrida 30 anos e que os passageiros de 8 ilhas dos Açores tenham de entrar e sair por uma única gateway. Para criticarem e ajuizarem o que se passa na casa dos outros, são céleres e contundentes na argumentação: ampliar a pista da Horta? Não! É uma duplicação de gastos!
Mas, quando as questões lhes batem à porta de casa, repentinamente, duplicar custos, racionalizar investimentos públicos, nada disso é problema.
5. Apenas um exemplo recente, para ilustrar. Desde há muitos anos que na ilha Terceira se vem lutando e está em vias de se conseguir a instalação, na Praia da Vitória, do “bunkering” de armazenamento de GNL (Gás Natural Liquefeito) com o objetivo de confirmar os Açores na Rede Transeuropeia de Transportes, através desse entreposto de armazenamento e comercialização, de média dimensão.
Pois, agora, esses “pensadores” querem instalar no porto de Ponta Delgada uma estrutura “semelhante” à que está prevista para a Praia da Vitória.
Mas, interrogo-me eu: não defendiam eles, referindo-se à ampliação da pista da Horta, que tem de haver racionalidade no investimento público e não duplicações?
Mas isto de instalar no porto de Ponta Delgada uma estrutura “semelhante” à que está prevista para a Praia da Vitória não soa a duplicação?
6. Não contesto, nem defendo tal desejo. Não posso é aceitar nem tolerar que aquilo que lhes serve para criticar os investimentos nas outras ilhas, não seja usado quando é a sua que está em causa.
Porque é muito fácil e cómodo pregar moral para os outros. Mas quando, como se vê, as coisas lhes batem à porta, ai! ai!, então nessa altura, a moral e as regras do jogo já se querem que sejam outras!
E é assim que estamos nos Açores.
Nesta Autonomia de rastos, já nem se salva a harmonia, a solidariedade e a complementaridade entre as nossas nove ilhas, que deviam ser o cimento da nossa união!
03.12.2017